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Página
Crítica é uma coluna no sítio da UniversidArte
escrita por críticos, historiadores e curadores de
arte contemporânea. O objetivo da coluna não
só é o de refletir sobre questões estéticas
e sociais na arte contemporânea, como também
o de identificar na linguagem artística um papel crítico.
A arte contemporânea ultrapassa tradições
acadêmicas e formalistas, mas não nega as suas
raízes, redefinindo processos e conceitos e mostrando
uma constante releitura de códigos estéticos.
Local ou global, ela se identifica com posições
subjetivas e sociais, e sua proposta vai muito além
de uma simples representação ou da mera possibilidade
de vir a ser um produto de mercado.
Chiara
Bertola é crítica de arte e curadora das exposições
do Museu da Fundação Querini Stampalia de Veneza
- Itália.Trabalhou com muitos artistas internacionais,
entre eles: Ilya Kabakov, Lothar Baumgarten, Kiki Smith, Giulio
Polini, Michelangelo Pistoleto. É fundadora e curadora
do prêmio para jovens artistas italianos "Furla
per l'Arte".
Margarita
Andreu
[http://www.margaritaandreu.org]
Fotografias
da"Area Scarpa" na Fundação Querini
Stampalia de Veneza
Margarita
Andreu construiu seu universo lingüístico a partir
de elementos como a imaterialidade, o vazio, os reflexos da
luz; mas, também, a partir da geometria de módulos
construtivos, a rigidez das estruturas arquitetônicas,
os reflexos do aço e do vidro.
A
dimensão conceitual da pesquisa de Margarita Andreu
se revela claramente em seu último trabalho apresentado
em Girona, na Fundació Espais dArt Contemporani,
uma instalação na qual pretendia transferir
e redesenhar o espaço de um lugar sobrepondo-o em outro
espaço.Tratava-se de deslocar e repensar a arquitetura
no interior de outra dada, com a intenção de
ressaltar o conceito de deslocamento, de quebrar o hábito
a favor de uma desestabilização. Desestabilizar
o espaço. Pensando na atenção que Paul
Ricoeur dá ao conceito de "trocar - mudança
mover/deslocar os pensamentos". Os pensamentos
são como a mobília de uma casa que, em uma mudança,
necessariamente devem se mover e por isso mesmo mudar, habitando
e adaptando-se a outros espaços e medidas. Sim, é
um pouco isto o que pretende Andreu quando desloca e redesenha
as medidas de um espaço sobre as medidas de outro.
Criar, desta forma, espaço de uma maneira diferente,
percebê-lo através de uma experiência visível.

Uma
diferente maneira de redesenhar é fotografar uma arquitetura.
Às vezes o resultado é de espaçamento,
o mesmo que se encontra nas imagens de Maragrita Andreu feitas
no espaço restaurado de Carlo Scarpa na Fundação
Querini Stampalia. Mas, que relação existe entre
a fotografia e a arquitetura? Desde o princípio de
sua história, o papel da fotografia na arquitetura
foi sempre o de produzir imagens para documentar um objeto
arquitetônico, para apresentá-las ou ilustrá-las
nas páginas das edições.
Porém,
nestes últimos anos, muitos artistas voltaram seu olhar
para a arquitetura, dando visibilidade, no trabalho fotográfico,
a detalhes, perspectivas, signos e as qualidades latentes,
luzes e reflexos que às vezes tornam irreconhecível
o espaço do qual haviam partido. A importância
da fotografia para os artistas se afirmou sobretudo a partir
do final dos anos 70. Penso en Bernd e Hilla Becher, mestres
e pioneiros na Alemanha de uma prática artística
da fotografia que iniciou e mobilizou definitivamente a atenção
da arte contemporânea para a possibilidade de uma linguagem
fotográfica. Sabemos que o olhar de um artista sempre
foi capaz de retomar a arquitetura de tal maneira que a faça
parecer mais frágil, mais complexa.


Tudo
isso não nos causa estranhamento se pensamos que, para
um artista, todos os valores e qualidades atmosféricas,
luminosas e cromáticas que variam sobre um objeto têm
sido sempre fonte de infinitos descobrimentos que tiram da
luz outras novas e infinitas imagens. Mas este particular
interesse não é novo na história da arte:
a visão de uma arquitetura que se transforma sobre
a mudança da luz em diferentes horas do dia não
havia desafiado Monet diante da Catedral de Rouen? O que havia
mudado em relação ao final do século
XIX era o meio lingüístico. Hoje se persegue com
uma linguagem diferente o mesmo desafio: a partir de um mesmo
objeto, as imagens germinam diversas e transfiguradas sobre
a lente da objetiva. A capacidade que o artista tem é
de saber ver mais adiante, ou com mais profundidade, o mundo
que nos circunda, e é interessante notá-lo no
confronto de um sujeito aparentemente frio e estático
como o arquitetônico, do qual nasceram imagens de paisagens
interiores como, por exemplo, as de Luisa Lambri.


O
desafio da fotografia é o de recuperar cada vez no
plano ótico o que olho está privado em nível
físico. Através da mediação da
objetiva fotográfica, se capta/amplia o olhar sobre
as coisas que na realidade nem sempre se conseguem ver nesta
proposta; algumas imagens fotográficas teriam conseguido
ler a arquitetura melhor do que qualquer olho.
Para
confirmar tudo isto, basta ver as tomadas fotográficas
que Margarita Andreu fez crescer/germinar do espaço
scarpiano. As imagens de um lugar real e conhecido se converteram
em imagens de um espaço geométrico e quase abstrato,
às vezes irreconhecível. Na série dedicada
à Sala Luzzatto, por exemplo, a objetiva se diluiu
através das molduras de vidro das portas que delimitam
como duas telas os lados externos do pórtico central,
deixando entrever as imagens de uma arquitetura indistinta
e quebrada. O reflexo dos espaços sobre as superfícies
dos vidros permitu à artista alinhar em uma única
visão frontal um espaçante equilíbrio
de espaço real com visões de espaços
refletidos.

A
luz instrumento principal da fotografia tem
feito das superfícies transparentes um ponto de apoio
importante na reflexão e no espaçamento do lugar.
Tudo se transformou em superfície nas fotografias de
Margarita Andreu e o desenho geométrico base
da composição scarpiana do espaço
emerge nestas imagens com todo o seu ritmo, pulcritude, geometria
e evidência dos detalhes. É claro que estamos
longe de querer reproduzir fielmente um espaço, um
lugar. Em troca, estamos diante do desenho de um espaço
arquitetônico em forma de imagens e superfícies.
Andreu
recompôs em uma nova visão do desenho arquitetônico
de Carlo Scarpa, fazendo ressaltar a extraordinária
qualidade compositiva do fazer deste extraordinário
arquiteto: a exatidão, o ritmo, a medida, a ordem,
relação magistral entre isto que Scarpa perseguia
através do desenho, convertido por ele no principal
instrumento de pesquisa de intenção de ordem.
O
trabalho de Andreu não só evidencia esta ordem
geométrica, mas também a releitura que faz.
Leva em conta os inevitáveis valores cromáticos
e luminosos que caracterizam o espaço arquitetônico
de Scarpa, inclusive antes de Veneza. A artista tinha, de
sua parte, o instrumento fotográfico que lhe permitiu
revelar não somente a ordem, mas também descobrir
partes e detalhes fugazes, ângulos, visões inapreensíveis,
inéditas sobreposições e perspectivas
de linhas nunca vistas.

Algumas
vezes seu olhar sobreposto nas transparências dos elementos
arquitetônicos os revisitou em um novo desenho compositivo,
individualizando cada vez mais inéditas texturas entre
os elementos. Margarita Andreu percorreu e mediu com os olhos
o espaço, entendeu que se tratava de uma arquitetura
para percorrer initinerante, como observou Mazzariol, dos
inumeráveis detalhes de cor e de luz provenientes da
riqueza e variedade de materiais.
Entendeu
que desta arquitetura se podia ter uma experiência singular
através de uma visão itinerante, passando de
episódio a episódio, de particular a particular.
De um encontro visível a outro porque, como ela mesma
escreveu, "é uma relação que parte
da sensação do descobrimento e da surpresa,
do reconhecimento e da apropriação..."
Interessam
a Margarita Andreu imagens que não deciframos imediatamente,
que pedem uma capacidade de trabalho de reconhecimento dos
elementos e de sua recomposição no lugar conhecido.
Desta maneira, pode- se criar um espaço confluente
de fotografia e arquitetura.
O
vocabulário scarpiano é concreto, mas também
é rico através dos esfumaçados dos diversos
materiais: o travertino, o ouro, os mosaicos, o mármore
vermelho do teto, o vidro das lâminas das portas, a
água que imaginamos dentro do canal de escoamento interno.
E é próprio desta variedade de materiais que
as fotografias de Andreu são capazes de dissolver a
aparente dureza da arquitetura, a rigidez e a uniformidade,
por exemplo, das paredes interiores de travertino, focalizando
a atenção sobre o desenho geométrico
das linhas de união de algumas paredes e condensando
os detalhes construtivos, deixando que se multipliquem na
reflexão.
Desta
forma, algumas imagens do interior e do exterior se confundem
e aparecem unidas em um único espaço. Em outras,
a artista fotografa o exterior visto desde o interior da Sala
Luzzatto e fixa a atenção sobre a verticalidade
dos elementos: as linhas das portas, das colunas exteriores
e dos muros.
Margarita
Andreu alinhou todos os elementos em um primeiro plano até
desenhar uma única perspectiva e transformar a nítida
linha de visão da arquitetura scarpiana em uma imagem
densa e compacta. Em outras fotografias, porém, o espaçamento
é tão forte quanto a grama do jardim, refletida
através da porta de vidro, parece com o chão
da sala do pórtico. Quando entram em jogo os reflexos,
as imagens se tornam incertas, e as perspectivas se alargam
ou se multiplicam. É neste momento que se produz a
sensação de incredulidade até o ponto
em que vemos a grama dentro de uma sala.
As
fotografias de Margarita Andreu contribuem para sublinhar
todo o projeto de Scarpa, seja interior ou exterior, que havia
nascido de um rigor formal, confirmando aquele pensamento
que queria o espaço habitável do homem como
uma única boa e bela arquitetura.
O
trabalho de Andreu na área scarpiana se configura como
um instrumento cognitivo e analítico do próprio
espaço porque as razões de ver se uniram às
razões de construir, deixando espaço ao maravilhoso
e à poesia.
Chiara
Bertola
Veneza,
setembro de 2004
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