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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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SPECULUM

Ângelo Ricardo Grisoli
Professor, mestrando pela UFRJ e formado em Letras, pela Estácio de Sá

Na caverna da modernidade os "zumbisapiens" sobrevivem. Seres cria-dores das multidões de prédios, carros, bombas e, principalmente, dos sarcófagos metropolitanos nos quais se entorpecem da droga, que mais os aniquila: a clareza obscura, moralista e desenfreada da racionalizante e racionalizada civilização. Desde Platão até a contemporaneidade, pensamos sempre numa relação dualista com o mundo, baseada na busca da clareza do conhecimento, superando a cegueira da caverna, cuja organização serve tanto para letrados quanto para iletrados. O que hoje se observa é, sobretudo, uma intensa tentativa, nos campos de especulação teórica, de adaptação desse paradigma platônico ao mundo da mercadoria (ou como mercadoria). Lembremos, a título de exemplificação, o texto de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, em que o autor relê de maneira intrigante, o texto do filósofo grego, com ares de denúncia da modernidade.


Platão

Esse modelo platônico de compreensão das coisas vem se desdobrando no decorrer da tragicômica história do Ocidente, por meio de inúmeros simulacros. Sistemas metafísicos ou interpretações filosóficas do mesmo, isto é, Platão, religiões e, principalmente, através da política. Normalmente, os representantes desta última se colocam sempre como salvadores das trevas obscuras semeadas pelos seus adversários; de fato, essa questão política colocada é um fenômeno muito comum para todos. O paradigma platônico em muito alimentou as ideologias de controle do clero, da aristocracia, da burguesia e do capital. Eis que os "zumbisapiens" permanecem a duplicar as mesmas bobagens na modernidade sempre com o intuito de dominação e apropriação do outro. E assim o poder mantém-se satisfeito e organizado, revestido por seu espírito épico.

Não haverá, contudo, uma unidade entre escuridão e clareza, céu e terra, ignorância e conhecimento responsável pela composição de um todo em que ambas as partes são igualmente importantes? Observemos o seguinte: haveria sentido na clareza se não tivéssemos a dimensão da escuridão? Haveria atratividade pelo céu caso não estivéssemos fadados a vagar mundanamente pela Terra? Buscaríamos conhecer numa circunstância de vida em que estivéssemos previamente, a experimentação do mundo, dotados de conhecimento? Portanto, chegamos a dada proposição de que a bipolaridade que compõe as dimensões do pensamento, na construção do sentido, é inexoravelmente um princípio norteador do desejo ou talvez uma formulação de imutável substancialidade. Contudo, não é para nós nenhuma novidade contemplar a mutabilidade constante da natureza, inclusive do próprio ser humano enquanto parte dela.

Buscaremos meditar a respeito desses paradoxos após um trabalho de observação e comparação. Nossa intenção aqui é, na medida do brevemente possível, examinar a força dicotômica de pólos positivos e negativos (clareza e escuridão/ imutável e mutável), sem, no entanto, localizar tais pólos em dimensões hierarquicamente difusas como fizera Platão na constituição de seu mundo ideal das idéias, supra-sensível, em detrimento de um suposto mundo menor, o famigerado sensível.

Nosso intuito é, tal como entenderam os pensadores pré-platônicos na antiguidade, investigar o assunto citado como parte de uma unidade composta por uma dualidade essencial. A conexão entre as idéias e a materialidade do mundo é indiscutível. Assim como a existência pressupõe a vida, esta se delineia pela percepção da morte. Não será a finitude que nos lança o desafio de viver? Não haverá um conjunto formado por vida e morte inter-relacional? Supor uma hierarquia entre bases de tamanho prestígio é continuar, como sempre se fez em metafísica, a copiar uma tolice platônica a qual foi responsável por uma seqüência interminável de violências para com a poesia, para com a natureza e para com o próprio sentido especulativo de repensar a vida.

MODERNIDADE OU CAVERNA-IDADE


Mito da caverna, de Platão

A Modernidade pode ser adjetivada de várias formas: tempo de crise, redemoinho das multidões disformes ou até de era primitiva em decorrência do caráter rudimentar do capitalismo. Ao passo que, independente da expressão que melhor reflita sua face bizarra, encontramos, como uma bola de neve, uma conglomeração de problemas os quais demonstram cada vez mais explicitamente a cegueira generalizada do humano na contemporaneidade: alienação exacerbada, massificação global, homogeneização das diferenças, destruição desenfreada do planeta, enfim, o fim da era dos "zumbisapiens" e o início da era dos "zumbyborgs".

Pensando na urgência de tais questões, buscamos entrelaçar as idéias de dois grandes textos. O primeiro de Guimarães Rosa chamado O espelho e o segundo do já mencionado Platão, nomeado O Mito da Caverna; alegoria da teoria do conhecimento e da paidéia platônica. Conquanto haja um longo lapso temporal (secular) que separa a produção literária de ambos, estes se propõem refletir sobre a questão da cegueira ou talvez até do sentido o qual subjaz por detrás da existência humana. Ambos desenvolvem a temática da percepção numa experiência que envolve uma série de raciocínios e intuições.

Guimarães Rosa remete-nos a uma jornada de reflexões através do espelho, demonstrando a face bizarra de nossa complexa existência que ora pode representar a beleza do amanhecer, ora pode representar a animalidade de um chacal faminto. Lemos em seu texto: os olhos de cada um de nós padecem na escuridão. Avançamos com defeitos que se multiplicam nas sombras. Vislumbramos uma iluminação sem atentarmos para a devastação. Estamos fazendo com o mundo o que Deus ou talvez o Diabo tenha feito conosco, ou seja, condenados à condição de existir, estaremos sempre prefaciando a nossa finitude; o reencontro com o nada original. Espantoso? Será possível supor que não somos tão sombrios a ponto de condenar o mundo ou a vida ou a natureza a mesma morte que nos espera? A "caverna-idade" implica na morte da vida.

Presos aos grilhões de nossos preconceitos progressistas, atuamos como dominadores da natureza e não como parte dela. Somos os prisioneiros de uma gruta donde não repomos o que colhemos. Por meio da transparência da informação estamos cada vez mais cegos na opacidade do sistema. Os olhos vendados do humano são a porta do engano que se mostra visível no espelho. Nos reduzem a monstruosas deformações que na perspectiva do mito, traduz-se nas sombras que são as coisas materiais que tomamos pelas autênticas. No entanto, não aprendemos com o escuro, pois estamos promovendo a escuridão total, achando muito positiva a caminhada sem limites das máquinas. A ideologia requer a crença na limpidez absoluta. Seríamos diferentes disso no cotidiano? Como alguém por mais bem sucedido no "amor" e nos "negócios" pode se sentir feliz em meio à tamanha devastação dos valores humanos e do planeta? Haverá espaço para a cobiça humana no espaço de outras constelações do universo? A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz da verdade do ser que só é passível de reflexão por causa da escuridão. Perguntamos: Não é praticamente evidente a nossa falta de sensibilidade para com a escuridão apreendermos o sentido da claridade? Será tão difícil enfrentar a especulação proveniente do espelho?

O reflexo de luz que ilumina o ser, através do processo dialógico e dialético em que o ente é superado pelo próprio ser, em pouquíssimos momentos é entendido dessa maneira. Fantasiamos o que nos é mais conveniente perante o espelho sem nos auto questionarmos. O caminho que conduz o "zumbisapiens" ao clarão do pensamento crítico é doloroso e nele prefere não investir. É muito mais cômodo supor um ideal de eu do que problematizar o próprio eu. Buscando exacerbar o controle do conforto a "desumanidade" dos "zumbisapiens" é norteada pelo poderoso processo de entificação do ser no qual se banha por séculos de barbáries obscuras e cruéis. Na contemporaneidade do espetáculo, a mercadoria da entificação é sedutora e a palhaçada da robótica é seriamente holocáustica. Perante os nossos "cegos" acomodados, a "caverna-idade" reflete, no espelho abismal do moderno a escuridão divorciada da claridade. Mas o sistema nos vende a diafaneidade como produto.

A comparação do homem a um bicho com caras e cabeças ovinas e eqüinas salienta de maneira muito sutil a ignorância que reina sobre o planeta; a densidade da "caverna-idade". Sabemos que a contemplação da beleza facial, oferecida pelo espelho, nos consola oferecendo minutos de uma graça capaz de nos fazer esquecer os tormentos e os sofrimentos da vida. Essa é a estratégia do poder. Esse é o jogo de xadrez da nova Roma americana: o império do capitalismo quer o controle do todo esclarecido, anulando a densidade provocada pelo obscuro. Negar a escuridão e a opacidade do real e vender a transparência do sistema de informações midiático, é, sem sombra de dúvida, bombardear o próprio conceito de real por meio da retórica do virtual. Logo, o lamaçal está posto e conclamado pela "caverna-idade" esclarecida pelas velas mórbidas dos "zumbisapiens".

CONCLUSÃO

Poucos, frente a frente com o espelho, observam no fundo dos próprios olhos as contradições a ponto de admiti-las e superá-las. Conhecer é um ato de libertação pelo clarão do pensamento cuja semente embrionária se encontra no fundo da escuridão que reside no próprio ser. O Mito da Caverna assim como O Espelho propõe uma analogia entre os olhos do corpo e os olhos do conhecimento quando passam da obscuridade à luz. A dualidade é essencial na composição do todo. Com a escuridão entendemos a luz; com a luz repensamos a escuridão. A permanência dessa dicotomia se dá em movimento, uma vez que, ao invés de nos aprisionarmos, buscamos sempre o sentido depois de, anteriormente, nos depararmos com a sua falta.

O ser sofre um choque no primeiro contato com luminosidade para daí produzir a faísca da metamorfose, que, inevitavelmente, o conduzirá a um brusco processo de compreensão do "eu por detrás de mim"; investigação que nos remete a figura duvidosa de Sócrates, lembrando o conhece-te a ti mesmo. No decorrer da conversa proposta pelo texto de Guimarães Rosa, em sua narrativa, expõem-se de forma magnífica a dialética regionalista em harmonia com uma sensibilidade apurada estabelecendo a alternativa do conhecimento autêntico para a alma ignorante sem deixar de remontar a simbologia da própria ignorância que se autopercebe ignorante, ou melhor, ignora-ante. A mudança na direção de nosso pensamento, deixando as trevas na travessia do espelho só é possível quando confrontamos as veredas. Problemáticas constantes, por sua imutabilidade de pré-sença, produtoras de inúmeras mudanças no desenrolar do ser e dos fenômenos vivenciados por este. Na imutabilidade do princípio dualístico percebemos o movimento. Gostando ou não, há a simbiose no imóvel.

Vivemos em um mundo distraídos das coisas mais importantes. Vivemos com as máscaras moldadas em rostos escravizados pela ditadura estética do consumo, desfocados nas sombras do redemoinho das cidades. Somos o não ser entificado que sobrevive sem pensar a dor na busca de uma faísca do conhecimento. Entificamos o ser sem mundificá-lo. Apreciamos o clarão desejando sua permanência sem nos preocuparmos com sua essencialidade advinda da escuridão de sua não pré-sença. Esta só é possível por meio da própria negação da escuridão. Não para exacerbar o tenebroso mar de gelo da onde provém, mas sim para, de uma forma artística, aquecer novamente a sensibilidade pré-platônica do Heráclito que em todos nos reside.

Endereço para correspondência:
angelogrisoli@yahoo.com.br