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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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ANÁLISE –"A HORA DA ESTRELA"

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras, em 2002, pela Estácio de Sá
Aluno de pós-graduação da UERJ em Língua Portuguesa

Podemos dizer que Clarice Lispector soube pôr cada um dos seus leitores na posição da protagonista Macabéa, ao escrever A hora da estrela. Deparamo-nos, assim, com o grande "soco no estômago" que, segundo Rodrigo S. M., é a vida.

O instigante prefácio, sob a forma de dedicatória, informa, de antemão, mediante o que vem entre parênteses, que o autor-narrador-personagem é, na verdade, Clarice Lispector. Entretanto, acentuando o distanciamento que pretende manter da protagonista, Lispector reforça, mais adiante, as características masculinas de Rodrigo S. M.:

Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas (CLARICE LISPECTOR:1977,28).

Da mesma forma, aproveitamos, pelo estranhamento que nos causa, a interpretação de Clarisse Fukelman para a mudança de sentido do verbo dedicar:

Em seguida o verbo dedicar transforma-se em dedicar-se, provocando uma mudança de sentido, pois confere à ação uma dimensão temporal ininterrupta, reavivando o sentido religioso que há em dedicar-se, o empenho de continuidade, de ligação profunda, para a qual a música desempenha um papel fundamental. Opera-se um trânsito do eu para consigo mesmo, cuja trilha consiste no contato com a interioridade e a anterioridade
(CLARICE LISPECTOR: 1977,18).

Desde o início da história de Macabéa, Rodrigo S. M. provoca no leitor os mesmos sentimentos que o perturbam e que estão relacionados ao tema da degradação social, cuja representação encontra o seu clímax na protagonista do romance. Somos chamados à responsabilidade e ao dever de fazer alguma coisa por aqueles que vivem na miséria e, compartilhamos, mesmo sem desejar, da sensação de culpa, quando sabemos possuir muito mais do que aqueles que nada possuem.

Após a explicação de Clarisse Fukelman para o diálogo que o narrador trava com o leitor, entraremos em contato com passagens que revelam a intencionalidade aqui exposta.

O narrador mantém com seu interlocutor (seja ele Deus, o leitor ou Macabéa) uma postura ambivalente de identificação e afastamento (CLARICE LISPECTOR:1977,38).

O leitor ora é alguém com quem se solidariza, mesmo que na dor ou desamparo, ora é alguém de quem quer distância (CLARICE LISPECTOR:1977,9).

Segundo Fukelman, o escritor faz uma abordagem da linguagem pela perspectiva filosófica, enfocando os limites e os alcances do conhecimento do mundo, mediante a palavra e a consciência, que distinguem o ser humano dos outros seres. Destacamos os seguintes trechos da obra que confirmam as palavras da professora de Literatura Brasileira:

Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável (CLARICE LISPECTO:1977,25).

Sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento (CLARICE LISPECTOR:1977,33).

A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreconhecível. Portanto não existe? Não, para os homens não existe (CLARICE LISPECTOR:1977,99).

Devemos, outrossim, considerar a metalinguagem que assume o relevo da narrativa até que a história da protagonista seja iniciada. Rodrigo S. M. fornece ao leitor uma explanação sobre a linguagem que seria utilizada no trabalho em vias de realização. Notamos, considerando impulsivamente os recursos de estilística, o uso imediato de neologismos, personificações, metáforas e outras figuras neste processo que informa como a narrativa seria construída.

Abre-se, por outro lado, um espaço à autocrítica que Rodrigo S. M. apresenta através de uma irônica referência ao seu estilo. Por conseguinte, observamos, na obra, uma pontuação diferençada, desrespeitando a norma culta por vezes. Entretanto, a ausência de vírgulas em inúmeros períodos da narrativa, por exemplo, não interfere na preocupação do narrador com a linguagem.

Passemos, agora, a outros aspectos que iniciaremos pela consideração de que há temas paralelos e recorrentes na obra de Lispector. Não ignoramos que a construção da narrativa se apóia no drama da nordestina Macabéa, porém, ao pensarmos que o plano psicológico deve ser avaliado cuidadosamente durante o discurso, não podemos esquecer os fatores intrínsecos que unem o criador à criatura. E tal perspectiva provavelmente é o bastante para depreendermos que há uma fragmentação do enredo mediante esse plano psicológico em A Hora da Estrela.

Um outro aspecto analítico leva-nos ao estudo que demonstrará a manifestação da epifania no ato de escrever de Rodrigo S. M. Devemos, portanto, considerar o tempo cronológico da narrativa, porquanto notamos que o presente é enfatizado pelo narrador e, daí, a sua relação com o momento da criação. O leitor acompanha a narrativa, cujo foco ora está em terceira pessoa, ora em primeira, como se estivesse ao lado de Rodrigo S. M. no momento em que lhe ocorrem os fenômenos que esclarecem os fatos e que colaboram para o destino das personagens.

Num outro determinado momento, percebemos que a identificação do narrador com Macabéa assume uma tonalidade negativa, porém simultaneamente protetora, permitindo-lhe distanciar-se da criatura que tanto o incomoda. Há uma clara contradição entre o não ter nada a ver com a moça e o me escrever todo através dela. E os seus espantos talvez sejam fruto do conflito gerado pelo saber-se Macabéa e o saber de Macabéa; contudo, apesar das nossas considerações, o processo de criação leva-o ao distanciamento necessário para o prosseguimento da narrativa:

Vai ser difícil escrever essa história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus (CLARICE LISPECTOR:1977,39).

Rodrigo S. M. revela, no entanto, a simbiose que estabeleceu com Macabéa, ao apresentar uma construção sintática em que os pronomes demonstram que tanto Macabéa se grudou à pele dele, como também o grudou à própria pele. Ademais, bem mais adiante, no fim da obra, o narrador comprova o aspecto dependência existencial, ao declarar que morreu com a personagem:

Pareço conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo com ela. E como muito adivinhei a seu respeito, ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou lama negra. (CLARICE LISPECTOR: 1977, 36).

Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça (CLARICE LISPECTOR: 1977, 105).

O que expusemos anteriormente induz-nos à constatação de que Rodrigo S. M. realizou, sim, um discurso masculino e sem pieguice, mas não manteve a proposta de distanciamento frio da Macabéa. Custou também ao narrador dar o grito a que se propôs. Se considerarmos que o verdadeiro motivo para retardar o início da história de Macabéa é a procura do melhor veículo condutor para o grito literário, encontraremos apoio em Clarisse Fukelman que confirma essa busca quando diz:

Pela perspectiva estética, sonda o gesto criador e o trabalho na busca da expressão que inaugure uma apreensão original do real (CLARICE LISPECTOR: 1977, 7).

Voltando-nos, finalmente, para a questão da intertextualidade, utilizaremos trechos de outros estudos que vinculam Lispector a outros autores famosos. As palavras do professor Valfrides de Souza mostram, entre outras explicações, a comunicação que se estabelece entre a autora que estudamos e Euclídes da Cunha, João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa:

O que é perceptível na nova versão que é dada à famosa frase de Euclides da Cunha ("O sertanejo é antes de tudo um forte"), que é transformada em "O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdôo (sic). Há também alusões a João Cabral de Melo Neto – na referência aos fatos como "pedras duras" – e a Guimarães Rosa – em diminutivos inusitados como "imaginavazinha", "vocezinha", muito a gosto do escritor. A palavra EXPLOSÃO vem constantemente entre parênteses para indicar "sensações humanamente insuportáveis", "sentimentos dolorosos de incomunicabilidade e solidão" e termina com a palavra "sim"...

Vejamos, agora, algumas considerações de Clarisse Fukelman sobre o mesmo assunto:

O narrador-escritor, tal como o poeta francês Baudelaire vagando pelas ruas de Paris, vê no deserto da cidade do Rio de Janeiro a decadência do ser humano através de Macabéa (CLARICE LISPECTOR: 1977, 13).

Nessa perambulação constata que algo poderia ter vingado, mas não vingou, o que é dito no livro, por duas vezes, de uma maneira que nos faz lembrar o verso conhecido de Manuel Bandeira, em seu Pneumotórax...
(CLARICE LISPECTOR: 1977, 13).

Comovido, o narrador se desvincula do padrão de interpretação "realista", deixando vazar a sua ternura e seu desespero por suas personagens nordestinas, Macabéa e Olimpo. Reescreve, assim, a famosa frase de Euclides da Cunha – "O sertanejo é, antes de tudo, um forte" – para "O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdôo". Se o interesse pela figura do nordestino se mantém, ela exige, no entanto, uma nova dicção: a da palavra-pedra, da linhagem do poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto (CLARICE LISPECTOR: 1977, 16).

Tudo que é feio assusta. Não queremos ver os ossos que perambulam sob o disfarce de peles amareladas e encardidas, nem tampouco vômitos de sangue. Dói aceitarmos o fato de que podemos escrever um livro sobre a injustiça social, mas que o resultado do nosso esforço será tão insignificante, quanto o discurso vazio da protagonista de Lispector. Lutamos com todas as forças para não reconhecermos, dentro da nossa escala social, que também somos Macabéa. Sim, Macabéa passa de personagem a um estado existencial. Entretanto, podemos perfeitamente afirmar que fomos corajosos pela leitura que realizamos até o grand finale, tornando-nos Macabéa, quando depreendemos que o nosso discurso também não tem o efeito desejado. No entanto, um desafio foi lançado... Continuemos, se for possível, com a nossa conduta ignorante, no sentido literal de ignorar os fatos que fascinaram Lispector, e que promoveram essa revolução interna na notável escritora que, em A hora da estrela, visava expulsar de si a dor e fazer algo pelos miseráveis.

Imagens do filme A hora da estrela – Macabéa

Endereço para correspondência:
usc.rj@globo.com