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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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GIOVANNI BOCCACCIO – DECAMERON

Profª Gilda Korff Dieguez
Coordenadora do jornal Rede de Letras
Professora titular da Universidade Estácio de Sá, com doutorado em Ciência da Literatura

Escritor e poeta italiano, de origem francesa, considerado o criador da prosa italiana e autor da famosa obra Decameron. Aos 23 anos, inspirado no romance que manteve com uma jovem da nobreza, escreveu Fiammetta, revelando já alguns traços de psicólogo, mostrados, depois, em quase todos os seus livros. Tornou-se amigo íntimo de Petrarca e manifestava profunda admiração por Dante. O seu livro Decameron constituído de uma série de narrativas satíricas e irreverentes, retratando costumes e ridicularizando, principalmente as damas da sociedade florentina.

Enquanto Dante (ver esta coluna, na edição 5) é originário da velha nobreza florentina e condena, expressamente, os agricultores que se instalaram em Florença, atraídos pelas possibilidades de progresso sócio-econômico que a cidade oferecia (ver canto XVI de "O Paraíso"), Boccaccio pertence à nova burguesia mercantil, que conquista o poder em Florença e em outras cidades italianas no fim do século XIII e começo do XIV. Daí, ele ter sido influenciado, tanto na existência, como na obra, por uma guinada capital na história italiana e florentina, que passa do feudalismo moribundo para a idade burguesa. Assim, se Boccaccio tem por Dante um entusiasmo sincero e um culto ardoroso, nem por isso ele deixa de ser um dos principais fundadores da nova cultura, que desabrochará nos séculos XV e XVI, no Renascimento.

Boccaccio descende de uma família natural de Ceralto (pequena cidade toscana) que migra para Florença em fins do século XIII. Boccaccino, pai de Boccaccio, é banqueiro de certa importância. Inicialmente, comercia em Paris (onde, em 1313, é inscrito no livro de talha), depois volta para Florença, onde faz honrosa carreira de homem de negócios e de cidadão. Após tornar-se, em 1327, diretor da filial napolitana da grande companhia comercial dos Bardi e ser nomeado conselheiro e camarista do rei Roberto, Boccaccino estabelece-se definitivamente em Florença, por volta de 1340. Ali passa por algumas dificuldades financeiras, em conseqüência da crise econômica de 1345 que traz a falência das maiores empresas florentinas. Em 1348, é vitimado pela epidemia de "peste negra" que assola todo o Ocidente e, de modo especial, Florença.

A PESTE NEGRA

O pior de tudo era a ignorância a respeito da verdadeira causa da doença e da forma de transmissão, o que tornava impossível a prevenção e a cura. Essa ignorância levava a interpretações baseadas em superstições, que atribuíam a epidemia às causas mais variadas. Falou-se em terremotos, enchentes, tempestades e "pés-de-vento-malignos", mas as causas mais aceitas eram uma conjunção planetária ou simplesmente o castigo divino. Entre os possíveis responsáveis pela origem e disseminação da praga, os preferidos eram os judeus, que conseqüentemente foram perseguidos e massacrados, principalmente na Alemanha.

Em 1348, Filipe VI pediu à faculdade de Medicina da Universidade de Paris um relatório sobre a moléstia que parecia ameaçar a sobrevivência da humanidade. Os sábios da Universidade reuniram "provas cuidadosas": atribuíam a doença a uma tríplice conjunção de Saturno, Júpiter e Marte no 40º grau de Aquário, ocorrida em 20 de março de 1345. Para garantir sua reputação, terminaram o relatório afirmando que, apesar disto, ainda deveria haver alguns outros motivos, que, no entanto, "estariam ocultos até mesmo dos intelectos mais altamente formados". Dessa forma, a versão dos doutores de Paris passou a ser oficial, sendo aceita como a resposta científica, pelo menos para aqueles que sabiam ler ou diziam compreender a "ciência", que teria levado àquela solução. Por outro lado, para os pobres e ignorantes, a resposta era mais simples e direta, baseada tão somente no castigo divino diante dos pecados cometidos pela humanidade.

Quanto ao local de origem da epidemia, de início apontava-se a China. Entretanto, hoje em dia acredita-se que ela tenha começado em algum lugar da Ásia Central e entrado no continente europeu pela rota das caravanas. A origem chinesa era uma idéia errônea do século XIV, baseada em notícias defasadas de uma grande mortandade na China ocorrida por volta de 1330, que teria sido provocada pela seca e pela fome.

O fato é que a praga se espalhou pela Europa, causando sofrimento, dor e angústia. O próprio Boccaccio fala da "peste", na sua obra:

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniqüidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente.

Os homens se evitavam [...] parentes se distanciavam, irmão era esquecido por irmão, muitas vezes o marido pela mulher; ah, e o que é pior e difícil de acreditar, pais e mães houve que abandonaram os filhos à sua sorte, sem cuidar deles e visitá-los, como se fossem estranhos.

BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. São Paulo: Círculo do Livro, 1991, pp. 9-10.

Durante o século XIII, o sistema medieval na Europa florescia, a prosperidade nos campos era grande e o comércio começava a crescer, com as nações exóticas do Oriente. Mas essa estabilidade teria sua destruição lá pelo ano de 1330, quando rumores de uma praga horrível, vinda da China, estaria se espalhando por todas as rotas de comércio e dizimando milhões de vidas na Europa.

O fato é que a peste bubônica, ou "Peste Negra", começou a devastar a Europa por volta de 1340, ou pouco antes: vários navios mercadores italianos faziam o retorno da viagem pelo Mar Negro, uma das rotas no comércio com a China. Quando os navios aportaram na Sicília, muitos dos marinheiros a bordo já estavam morrendo com a peste. As condições na Europa permitiram que a praga se espalhasse como fogo em palha: cidades densamente povoadas, sem condições de higiene, permitiram a presença de ratos, fazendo com que esses animais transmitissem a peste. Além disso, o fato foi intensificado pela perseguição da população aos gatos, tidos como símbolos do mundo pagão e, conseqüentemente, diabólicos. Estamos numa época de muitas superstições e de crendices, estimuladas pelo desconhecimento.

Uma vez que a praga se alastrou, os sobreviventes passaram a enfrentar vários problemas. Pelo fato de a peste bubônica haver matado a maior parte da população, não havia pessoas suficientes para trabalhar nas tarefas necessárias. A fome começou a se espalhar, por falta de camponeses, o que causou a derrocada do sistema feudal. Como conseqüência, a população trabalhadora e útil passou a exigir maiores salários. Por exemplo, em Decameron, Boccaccio escreve sobre homens que cuidavam dos mortos e "que não eram cidadãos nem nobres nem caridosos, mas uma espécie de fraternidade de coveiros que reunia os últimos homens da cidade (eles demandavam o que se chamava de "sextões" e exigiam cada vez maiores quantias).

A Igreja, que tinha tido uma forte influência na sociedade medieval, após a praga começou a ver seu papel modificado. A idéia do poder infinito de Deus e de sua capacidade de operar milagres começa a enfraquecer. Na medida em que as preces e pedidos não eram atendidos e muitos piedosos eram atingidos, começou um questionamento sobre esses valores, o que passou a ser considerada uma contradição na crença religiosa, dando lugar a um período futuro de tumultos políticos e de questionamentos filosóficos.

Os efeitos da praga ainda influenciam a sociedade nos dias de hoje. Desde que a Medicina, na época, não conseguiu dar conta de controlar a peste bubônica, homens de ciência medievais começaram a desenvolver novas idéias sobre a medicina. Iniciaram-se as pesquisas de caráter científico, por conta da completa falência das velhas práticas e da crença e fé em Deus para curas. A limpeza começou a fazer parte do cotidiano de todas as classes de pessoas e não apenas da nobreza.

DECAMERON

A obra mais famosa de Boccaccio, o Decameron (1348-58), constitui-se numa coleção de contos, supostamente relatados por um grupo de dez jovens fugitivos da peste. É uma coleção de cem histórias em que ele percorre toda a gama dos sentimentos humanos, desde a mais irrisória bufoneria até a mais profunda emoção. Foi o maior responsável pela definitiva fixação, enobrecimento e enriquecimento da língua italiana.

Muitas leituras equivocadas têm sido realizadas em torno dessa obra, principalmente as que enfatizam o tom licencioso. Não restam dúvidas de que nela encontram-se o riso, o sexo e os padres, como temas importantes, porém o tom cômico e sensual atinge apenas algumas seqüências – não a integralidade da obra. Esse é o caso, por exemplo, do episódio em que Dom João de Barletta que propõe ao seu compadre Pedro fazer um feitiço que transforme a sua mulher em égua. O feitiço falha porque, no último minuto, o pobre marido recusa-se que ponham a cauda na mulher (IX-10). Ou, também, quando dois pintores (Bruno e Buffalmacco), com o auxílio de um médico, fazem crer a Calandrino – seu confrade e protótipo da palermice – que está grávido, assim obtendo caríssimos presentes para curá-lo, sem que deva dar à luz (IX-3).

O tom cômico, que na obra assume um caráter crítico, se enquadra numa tradição mental típica da narrativa medieval e continuará até Rabelais – tão bem estudado por Bakhtin, com a sua teoria da "carnavalização". A linguagem, simples e natural, ainda não virá carregada da retórica típica da Contra-Reforma e o grande tema da obra é a celebração da liberdade, do poeta e do pintor, de dizer e representar o que realmente desejem.

A obra não é uma mera coletânea de contos, ao contrário, possui uma estrutura orgânica, arquitetural. Boccaccio imagina, no início do livro, que fugindo da epidemia de peste de 1348, a qual afetou gravemente a população de Florença na moralidade e na sociabilidade, sete jovens mulheres e três rapazes da cidade, emparedados por sua cultura e pelo ambiente, se retiram para mansões ricas nas colinas florentinas. Assim, eles passam dias entre a nobreza em vida refinada, na qual se entrelaçam divertimentos campestres, conversas, jogos, jantares e danças. Todos os dias da semana (com exceção de sexta e sábado, por respeito às conveniências religiosas), cada um conta uma história, com tema livre, sendo apenas decidido pelo rei ou rainha na véspera do dia.

Os temas são abordados atendendo a uma progressão. Assim, o primeiro protagonista da coletânea (I-1) Capparello de Prato é o representante de todos os vícios: pederasta, usurário, violento, mentiroso, falsário e termina a existência com uma confissão mentirosa, que irá granjear-lhe a fama de santidade. A última heroína, a jovem camponesa Griselda, que se casa com o marquês de Saluzzo, eleva-se gradativamente, através de uma série de provações, até um perfeito requinte de costumes e à submissão à vontade, aparentemente cruel, de seu marido. Do mal para o bem, do pior para o melhor é o itinerário de Decameron.

Essa caminhada rumo às altas virtudes passa por três etapas sucessivas. Os protagonistas do Decameron, homens e mulheres, são postos diante de três forças: da Fortuna, do Amor e da Inteligência – forças que, segundo o autor, regem o mundo. No segundo dia, os heróis boccaccianos são joguetes do acaso: assim, a filha do sultão de Babilônia é obrigada pela Fortuna a vaguear, durante quatro anos, pelo Mediterrâneo, e acaba nas mãos e nos braços, sucessivamente, de nove homens (II-6). Beritola, dama da sociedade siciliana, expulsa da ilha com os filhos por conta de uma revolta, aporta na ilha de Ponza, onde vive em total solidão depois de os filhos terem sido raptados por piratas, até que um dia é salva e volta a encontrar a família, que também viveu toda a sorte de aventuras (II-6).

No terceiro dia, pela progressão, os protagonistas já não são mais joguetes do destino, mas conseguem dominá-lo: é o caso da jovem burguesa Gillette de Narbonne que, por haver curado o rei da França, obtém como marido um grande fidalgo e, apesar de suas reservas nobiliárias, acaba tendo dele dois filhos e o amor (III-9). É ao nobre que cabe o papel principal e as personagens da obra no quarto e quinto dias. No quarto dia, de acordo com a vontade do Rei, dominam os amores trágicos e são narradas belas histórias, como a da linda e nobre Ghismonda, filha do príncipe de Salermo que, após tornar-se amante de um servo seu, suicida-se ao saber que este fora executado por ordem de seu pai (IV-1). Como ela, morrem outras mulheres, como Isabetta, irmã de comerciantes, que não suporta o desaparecimento do amante, cuja cabeça ela guarda em um vaso de flores (IV-5); ou a humilde fiandeira Simona, que expira silenciosamente após haver mastigado as folhas do pé de salva que haviam envenenado Pasquino, o seu amante (IV-7).

No quinto dia, os amores, depois de muitas peripécias e sustos, passam a ter um final feliz, enquanto no sexto, sétimo e oitavo dias triunfam as formas mais variadas de inteligência: os ditos espirituosos (VI), as astúcias e as beffe (burlas). Durante o sexto dia, aparece o poeta Guido Cavalcanti que zomba de certos florentinos incultos, dando a entender que são iguais aos mortos do cemitério (VI-9). No sétimo dia, conta-se a aventura de frei Reinaldo, o qual, surpreendido na cama pelo esposo de sua amante e comadre, faz crer ao marido enganado que estava ali para curar-lhe o filho, que sofre de vermes (VII-3). No oitavo dia, impera Calandrino, de quem já se tratou anteriormente.

No nono dia, o autor volta a temas anteriormente tratados; no décimo e último dia, aparece o "jardim das mais altas virtudes", onde se glorificam a generosidade, a liberalidade e o domínio de si mesmo: nele figuram homens e mulheres precedentes de todas as camadas sociais – do ambiente rural, da burguesia, da nobreza e do clero.

SENTIDOS DA OBRA

Uma quantidade grande de variadas aventuras, um caleidoscópio de sentimentos e paixões, uma representação do todas as classes sociais dão a amplitude dessa obra-prima de Boccaccio, Decameron, caracterizando-a como uma escrita sobre a "comédia humana".

Boccaccio não deixa de evocar a história da humanidade, embora o universo de sua escrita esteja enraizado no espírito medieval das Cruzadas, nas guerras travadas pela Inglaterra e França, a decadência de Roma, por exemplo. E as navegações não ficam ausentes, referidas principalmente pelo amplo espaço geográfico que a obra abarca, já que são citadas as regiões de Palermo, Nápoles, Roma, Gênova, Veneza, Florença (e outras cidades da Toscana), além do Mediterrâneo, em seu conjunto – Majorca, Sicília, Sardenha, Ponza, Lípari, Ischia, Corfu, Rodes, Chipre –, e muitos dos países da Europa – Espanha, Inglaterra, França.

Onde Boccaccio inova, em relação à tradição italiana, é na representação da sociedade. Reis, imperadores, nobres, papas, bispos, abades, monges, comerciantes, médicos, pintores, professores, estudantes, poetas, artesãos, operários, soldados, policiais, piratas, ladrões, hospedeiros, criados, todas as condições sociais, sem exceção, aparecem nos contos. O mesmo se dá com os tipos humanos: belos, feios, anciãos, adolescentes, crianças, todos são contemplados. Nissto reside uma ruptura em relação a toda a literatura do passado: antes de Boccaccio ninguém havia transformado uma fiandeira em heroína de um drama de amor, um cozinheiro ou um padeiro que sabe dar lições de cortesia. Ele será o primeiro a afirmar poder o amor entrar na casa dos mais pobres, o que o coloca como uma vanguarda do "dolce stil nuovo".

Boccaccio é novo, também, ao ventilar a condição da mulher no período medieval. Cabe dizer que Decameron foi dirigido expressamente às mulheres e ao novo público burguês das cidades italianas. Logrou um dos maiores êxitos junto aos livreiros da época, comparável às obras mais famosas, tais como Divina Comédia e o próprio Evangelho. Se é às mulheres que Boccaccio se dirige, para suavizar a dureza de suas existências, ele ainda polemiza contra a hegemonia masculina.

Em resumo, Boccaccio é um inovador, tanto quanto o foram Dante e Petrarca.

Leia o texto completo da obra Decameron, em italiano, no site:

http://www.media.it/libreria/decamero.htm