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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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GIOVANNI BOCCACCIO - PERFIL BIOGRÁFICO

Profª Gilda Korff Dieguez
Coordenadora do jornal Rede de Letras
Professora titular da Universidade Estácio de Sá, com doutorado em Ciência da Literatura

Boccaccio, diferente de Dante (que é originário da velha nobreza florentina), pertence à nova burguesia mercantil que se instala em Florença, atraída pelas possibilidades de progresso sócio-econômico que a cidade oferecia.

Boccaccio acompanhou o pai por vários lugares, entre os quais se destacam dois: Paris, e Nápoles. A sua convivência napolitana vai permitir ao jovem o desenvolvimento de uma visão realista dos homens - visão própria dos comerciantes - e, ao mesmo tempo, a oportunidade de freqüentar a corte e ambientes requintados, onde se cultivavam os valores corteses. É lá que encontra Niccola Acciaiuoli, homem de confiança do regime, além de vários intelectuais: Cino de Pistoia (amigo de Dante e Petrarca), o bibliotecário real Paolo da Perugia, o astrólogo Andalo Del Negro, o teólogo Dionigi da Bargo San Sepolcro. Assim descobre a sua paixão pelo conhecimento.

De 1334 a 1335, compõe "Caccia di Diana" (que representa a caça da figura mitológica junto às mais famosas damas napolitanas, submissas à deusa) e "Filostrato" (poema de "inspiração troiana", em oitavas formadas de hendecassílabos, evocador das penas de amor de Troilo, protagonista de uma paixão infeliz). Depois escreve Filocolo (1336-1338? – romance de 5 livros, em que narra os amores de Florio, filo de um rei, com Biancifiore, até o casamento e a conversão ao cristianismo; é considerado o primeiro grande romance da literatura italiana) e "Teseida" (1339-1341? – poema de 12 canos em oitavas, evocação das guerras de Teseu contra as Amazonas e contra Tebas). Sua produção napolitana é farta e diversificada, em prosa e verso e afinada com vários registros: lírico, cortês, romanesco, erudito e outros.

De volta a Florença, com o pai, Boccaccio tem certa inibição inicial com a sociedade mais acanhada, porém depois incorpora-se à vida cultural florentina até tornar-se seu protagonista. Nesste momento, toma consciência de um novo público burguês. Logo nos primeiros anos de sua vida em Florença, escreve a Comedia ella Ninfe (ou "Ninfale d'Ameto" - 1341-13420, que imita a Vita Nuova, de Dante), a Amorosa Visione (1342, que representa os sucessivos triunfos da sabedoria, da glória, da riqueza, do amor e da fortuna, para a exaltação de Dante e Giotto), a Elegia di madona Fiammetta (1343-1344? – uma confissão da heroína e seus amores por um mercador florentino, os sofrimentos do abandono e da traição) e o Ninfale fiesolano (1344-1346?, que é do gênero pastoril). Esse conjunto de obras caracteriza-se pela influência da cultura local, além de criar uma nova linguagem narrativa em versos, que influenciará todo o século XV.

Com a morte do pai, aos 25 anos de idade torna-se o chefe da família e se vê às voltas com as obrigações da vida cotidiana. Cedo participa de atividades diplomáticas na Comuna, graças aos relacionamentos e à reputação intelectual. É assim que remete, em 1350, à filha de Dante (freira em Ravenna), uma quantia em dinheiro, por conta da cidade. Em 1351, é nomeado tesoureiro comunal, defensor do território e embaixador junto a Luís da Baviera; daí desempenha uma missão na Romanha (1353), depois segue para Avinhão (1354) para levar uma embaixada ao Papa; em 1355, é incumbido de fiscalizar os mercenários florentinos e encontra-se com o Imperador na Toscana. Tenta voltar a Nápoles, sem êxito, e torna-se, então, embaixador na Lombardia (1359), quando recebe do papa Inocêncio VI um cargo eclesiástico (1359).

Tendo alcançado um bem-estar econômico e fama literária, Boccaccio – admirador de Petrarca – encontra pela primeira vez o homem que vai tornar-se mestre e guia. Entre Petrarca e Boccaccio estabelece-se uma relação cordial e assídua correspondência literária e mística, embora entre eles haja diferenças políticas: Petrarca vivia junto aos príncipes e se inclina pela monarquia, enquanto Boccaccio é partidário da República.

É nesse período que Boccaccio escreve Decameron (1349-1351). Em 1350, ele inicia a composição de Genealogia deorum, que não cansará de corrigir e completar, até o dia de sua morte. Cinco anos mais tarde, dedica-se a De montibus, concluído em 1374. Em 1360, escreve a primeira versão de De casibus, revista em 1375. Esse conjunto de escritos da maturidade sobre nítida influência de Petrarca, quanto ao culto pela Antigüidade.

Em dezembro de 1360, inicia-se uma crise política, que vai afetar a vida de Boccaccio: a oposição entre os "democratas", amigos do escritor, e os aristocratas do Partido Guelfo redunda numa conspiração dos primeiros, na sua prisão e execução ou desterro. Boccaccio, então, isola-se por iniciativa própria, retirando-se para a sua terra natal, Certaldo, onde tinha residência. O exílio, por razões políticas, coincide com a piora das condições econômicas de Boccaccio, mas é motivada também por uma vontade de meditação. Após um período de permanência em Ravenna, Boccaccio tenciona regressar a Nápoles, tentando repetir o estilo de vida de Petrarca. Mas a acolhida o decepciona e ele parte, então, para Veneza, a fim de rever Petrarca. Em 1369, volta a Certaldo.

Durante o período de recolhimento, Boccaccio escreve o Corbaccio (1365? – obra discutida, em que Boccaccio critica ferozmente a figura da mulher, contrariando o que havia escrito em Decameron) e continua a copiar os autores antigos. Em 1365, ele é mandado a Avignon, junto ao papa Urbano V. Em 1367, depois de uma estada em Veneza, viaja a Roma, para nova missão junto ao papa, que regressara à cidade. Nesse mesmo ano, torna-se membro do colégio dos oficiais encarregados dos soldados da República. Em 1368, faz uma visita Petrarca em Pádua – a que será a última. Em 1370-1371, realiza também a última viagem a Nápoles. Regressa a Certaldo, onde revê e recopia o Decameron, na versão que chega até os nossos dias.

Em 1373, depois de um afastamento devido às tensões políticas em Florença, Boccaccio é chamado pelas autoridades para comentar publicamente a Divina Comédia, de Dante. Suas preleções, que depois escreverá, são um monumento em homenagem ao escritor. Com isso, é elevado a líder da cultura florentina e com isso obtém apoio dos principais escritores da cidade.

Combalido pela doença, em 1374, Boccaccio redige o seu testamento, no qual doa ao Convento de Santo Spirito a sua biblioteca. A morte de Petrarca, ocorrida em julho, o deixa profundamente triste. A 12 de dezembro de 1375 morre e é sepultado em Certaldo. Com Petrarca e Boccaccio, morre uma geração particularmente brilhante da literatura italiana.