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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS...
DESCOBRINDO O REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA

Ana Paula Bruno Augusto
Aluno do 4º período de Letras – Campus Méier

O centro do Rio de Janeiro nos convida ao exercício do saber. Foi palco de inúmeros acontecimentos históricos importantes para o País e, por isso, necessita ser mais divulgado. Em cada viela e em cada beco esconde-se uma parte da nossa história e da nossa cultura. Muitos de nós andamos por lá e, na correria dos nossos dias, não percebemos a beleza da arquitetura, os detalhes dos prédios, a importância histórica de lugares por onde passamos todos os dias.

Nesta edição destacaremos um prédio que fica escondido atrás do Teatro João Caetano, na região entre a Praça Tiradentes e o Largo de São Francisco: a sede do Real Gabinete Português de Leitura. A primeira coisa que nos chama a atenção é a belíssima arquitetura do prédio. Em estilo neomanuelino, o prédio vale uma visita!

O início da sua construção se dá como uma das comemorações pelo tricentenário de Camões (1880). O projeto de Rafael da Silva Castro evoca a maior obra camoniana, Os Lusíadas. O edifício levou 7 anos para ser terminado e foi totalmente construído em pedra lioz. Um detalhe que chama a atenção é o fato do prédio possuir, em sua fachada, quatro estátuas: de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, do infante D. Henrique e do próprio Camões.

O local é conhecido por sua biblioteca, cujo acervo é muito rico. Essa é a maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal. Seu acervo possui mais de 350 mil volumes. Porém, lá também são desenvolvidas atividades de pesquisa e um centro cultural. Tudo, é claro, com base na cultura e na literatura portuguesa.

O Gabinete foi fundado em 14 de maio de 1837 por um grupo de portugueses que pretendia criar uma biblioteca para manter os portugueses aqui residentes em contato com o que era escrito na antiga metrópole. A idéia era estimular nos portugueses o gosto pela leitura e, assim, aumentar o seu nível de instrução. Além de um gabinete no Rio de Janeiro, foram fundados outros dois em Salvador e em Recife. Os interessados deveriam se cadastrar e poderiam consultar os livros no local ou levá-los para casa sem ônus.

O acervo do Gabinete é repleto de obras raras, que foram adquiridas logo após a sua fundação. Nele temos um exemplar de Os Lusíadas pertencente à Companhia de Jesus de Setúbal; as Ordenações de D. Manuel (1521), os Capitolos de Cortes e Leyes (1539), manuscritos autógrafos do Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, o Dicionário da Língua Tupy, de Gonçalves Dias, dentre outras. Com a biblioteca se expandindo muito rapidamente, a diretoria teve que providenciar a mudança para um local mais apropriado. Assim, a biblioteca saiu da Rua Direita (atual Primeiro de Março), onde foi criada, passando por outros três endereços até chegar ao seu local atual, a antiga rua da Lampadosa e atual Luis de Camões. O prédio foi construído especialmente para abrigar a instituição, a qual lá funciona até os dias de hoje.

Em 1900, a biblioteca passa a ser pública, podendo ter o seu rico acervo consultado por qualquer pessoa. Em 1906, o rei D. Carlos, de Portugal, atribui o título "Real" ao nome da Instituição. Em 1935, o Real Gabinete passa a ser um "depósito legal" (como é a Biblioteca Nacional para o Brasil), ou seja, ele recebeu o benefício de receber de todos os editores portugueses um exemplar de cada uma das obras por eles impressa. Dessa forma, a biblioteca do Real Gabinete está sempre atualizada quando o assunto é Portugal ou algo relativo àquela nação. Em 1969, foi criado no local o Centro de Estudos Portugueses, onde são ministrados cursos, palestras, congressos e conferências, nas áreas de Literatura, História, Antropologia, Sociologia e Artes. O objetivo é promover o intercâmbio e a colaboração com universidades e institutos culturais do Brasil e do exterior. Lá funciona também o Pólo de Pesquisa de Relações Luso-Brasileiras.

Com o apoio de entidades brasileiras e portuguesas, o Real Gabinete tem desenvolvido programas interessantes como a publicação de uma revista semestral, a Convergência Lusíada; o desenvolvimento do Centro de Multimídia Cultural, que funciona no prédio ao lado e programas de recuperação de obras raras.

Ao entrarmos no prédio, podemos perceber a beleza das obras de arte existentes no seu interior. Belas e importantes esculturas (como o altar da pátria e a placa oval, obras importantes que participaram da exposição dos cem anos da indepenância, realizada no Rio de Janeiro, em 1922), quadros, bustos de mármore e bronze enfeitam os corredores e salas do local. É um passeio completo no mundo da cultura portuguesa...

Para terminar, podemos citar um trecho do discurso de inauguração do prédio, pronunciado por Ramalho Ortigão, que resume o lema do Gabinete: "E se um dia o nome de Portugal houver de desaparecer da carta política da Europa, esta Casa será ainda como a expressão monumental do cumprimento da profecia posta por Garrett na boca de Camões: ... não se acabe a Língua, o nome português na terra".

Endereço
Rua Luís de Camões, 30 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20051-020
Telefone: (+ 55 21) 2221-3138
Tel/Fax: (+ 55 21) 2221-2960

Sites
http://www.realgabinete.com.br/htm/rgpl.htm
http://www.instituto-camoes.pt

Atenção
Qualquer pessoa pode utilizar as obras da biblioteca, desde que a consulta seja realizada no salão disponível. Somente os sócios do Real Gabinete podem retirar material do local, seguindo algumas condições: estar em dia com a contribuição mensal, levar 2 livros no máximo, pelo período de até 15 dias.

Curiosidade

As primeiras sessões da Academia Brasileira de Letras aconteceram no Real Gabinete, uma vez que a ABL ainda não tinha sede própria.

Existem mais Gabinetes Portugueses de Leitura no Brasil, mas o único que ostenta o título de "Real" é o do Rio de Janeiro.


Franz Weissmann
Retângulo Vazado, em frente ao Real Gabinete Português de Leitura
Rio de Janeiro

Endereço para correspondência:
ana-letras@uol.com.br