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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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ENTREVISTA COM O MAESTRO ISAAC KARABTCHEVSKY

Mauro Dellal da Silva
Produtor artístico da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró Música e aluno do 6º período de Letras – Campus Rebouças

Pergunte 10 vezes a 10 pessoas de diversos lugares e de diversas classes sociais do País que maestro brasileiro ele conhece. A resposta em, no mínimo, 9 das 10 vezes, será, com certeza, Isaac Karabtchevsky. O maestro é assim: quase um sinônimo da profissão no Brasil. Dono de uma técnica apuradíssima e de um talento inato, Isaac Karabtchevsky está de volta ao Rio de Janeiro, cidade que adora, apesar de ser paulista, para comandar a Orquestra Sinfônica Petrobras Pró Música do RJ. O maestro fala da profissão e da relação da música com as outras artes. Lançou, em dezembro passado, o livro O que é ser maestro – memórias profissionais de Isaac Karabtchevsky, da editora Record. Esse livro faz parte da série "O que é Ser", que foi concebida com o objetivo de auxiliar os jovens em seu difícil processo de definição profissional. São histórias interessantíssimas, que abrem uma perspectiva para a compreensão não só de diferentes profissões, mas da sociedade em que atuam e lutam essas personalidades.

R. L. - Começo com uma pergunta bem simples. O que é, por definição, o Maestro?

I. K. - É uma utopia, nascida inicialmente da necessidade de disciplinar os andamentos e ataques. Posteriormente, com o Romantismo, passou a ser o pólo de convergência na linha compositor-público. Ou seja, dele passaram a depender a escolha dos andamentos, os contornos do fraseado, a consubstanciação da vontade do compositor. Essa tarefa, por si só de extrema complexidade, incorreu em alguns excessos – maestros com notável fluência teórica, mas desprovidos de talento e outros, com um talento excepcional, destituídos de preparação adequada. Mas não paremos só por aí – ao maestro cabe exercer e impor disciplina ao conjunto, estabelecer uma relação carismática com o público e conseguir a motivação de seus músicos.

R. L. - Como o senhor mesmo diz, começou o estudo da música um pouco tarde. Esse atraso cronológico foi compensado com muita disciplina e perseverança. Qual ou quais foram suas privações nesse período e o que lhe ensinaram?

I. K. - Desde trancar-me num quarto, de manhã à noite, até comer carne uma vez por semana. Foi um período monástico, mas fundamental, que durou toda a minha juventude, e que me trouxe enormes benefícios para o futuro. Aprendi a ser constante, a priorizar, a exercer sobre mim mesmo uma linha de conduta em busca de objetivos bem claros.

R. L. - O Maestro é, para muitos, quase que uma entidade, uma divindade, devido ao cargo que ocupa. Os recursos musicais de que ele precisa são os mais completos possíveis. Visto desse ângulo, há carência de uma escola nacional que permeie a formação de regentes no Brasil. Quais seriam as providências a serem tomadas para que o País forme grandes regentes.

I. K. - Não creio que o problema primordial seja a ausência de bons professores. Faltam, isso sim, orquestras em número significativo em todos os estados brasileiros e que tenham como propósito a formação de jovens talentos. Diferentemente de um instrumentista, que leva seu instrumento para todas as partes, o regente necessita de um corpo sólido de musicistas profissionais, prontos a ajudar e ensinar-lhe os segredos da profissão. Eis o lado mais perverso de nossa atividade – como evoluir sem a exposição permanente à frente de seu instrumento, a orquestra sinfônica?

R. L. - Depois de tantos anos afastado do Rio, o senhor retorna à frente da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró Música. Como se sente atuando novamente aqui e quais são suas perspectivas com esse novo trabalho?

I. K. - Formei-me como regente durante 26 anos de trabalho consecutivo à frente da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira). Foi uma fase genial, profícua, de lutas sem fim, mas de alegrias duradouras. Uma delas foi ter constituído um organismo que se identificasse com a própria cidade e com o qual consegui plasmar um repertório polivalente, de encontro ao público tradicional das salas de concerto, mas também visando à integração da música de concerto com segmentos expressivos da população. Pretendo prosseguir nessa linha, agora à frente de uma orquestra vibrante, jovem e com um formidável potencial.

R. L. - Literatura e música são linguagens que pretendem expor o mundo e o homem. O senhor se deixa influenciar pela literatura na leitura de uma obra musical e vice-versa?

I. K. - Pode um artista tranformar-se num simples artesão, imune a todas as tendências que acompanham o espírito humano? Como reproduzir a atmosfera impregnada de contrastes de um Beethoven sem conhecer Goethe? Ou imaginar as sinfonias de Mahler sem ter lido Dr. Faustus, de Thomas Mann? O mundo das artes não pode ser compartimentado, como algumas das experiências da psique humana – elas se encaixam e, ainda que à distância, se completam.

R. L. - Por ser abstrata, a linguagem musical está na esfera do subjetivo. Torná-la inteligível é função exclusiva do regente ou isso seria próprio de uma boa peça e/ou de um bom compositor?

I. K. - O regente é apenas o pólo de comunicação, elemento vital na cadeia que culmina com a exteriorização da partitura. Esta, por si só, é um elemento abstrato, um conjunto de símbolos de uma grafia exotérica, afeita a alguns iniciados. Cabe ao regente transformá-la em vida, em sentimentos e perscrutar a alma de seus músicos através de mensagens claras – o gesto, o olhar, a intensidade da interpretação.

R. L. - A arte total: a ópera, que engloba música, texto, dança e plástica. No entanto, há certa predominância da linguagem musical sobre as outras. Com tal complexidade, qual é o lugar do regente diante de tão grandiosa manifestação artística?

I. K. - Em relação à ópera, nenhuma discrepância – prima la musica, dopo le parole. Esse aforismo, presente desde os tempos de Mozart e Salieri, e posteriormente evocados por Richard Strauss, colocam em pauta a enorme dependência que a palavra cantada exerce sobre o regisseur. Cabe ao regente fazer prevalecer essa realidade, procurando por todos os meios disponíveis acentuar a lógica imanente ao canto.

R. L. - O povo brasileiro é, sem sombra de dúvida, um dos mais musicais do mundo. Porém, a tradição cultural mostra que a orquestra ainda é um organismo visto pelas autoridades como algo às vezes importante, às vezes supérfluo. Esse vai-e-vém, ao gosto dos governantes, deixa o setor à mercê do movimento político. Em sua opinião, como a sociedade poderia tomar a frente de tal empreendimento e construir uma estrutura capaz de solidificar a idéia e de livrar a música erudita dessas intempéries políticas?

I. K. - Não vejo soluções imediatas a não ser aquelas que resultam de um trabalho intenso e continuado junto à população e aos políticos dos quais dependemos. Pela minha experiência, a estrutura de uma orquestra sinfônica é complexa e exige o desprendimento de todos, a ponto de vir a se constituir numa questão de orgulho para a comunidade. Como tantas outras atividades no País, excetuando o futebol e o carnaval, falta-nos uma estrutura que transforme as orquestras em organismos perenes, não sujeitos às oscilações de mudanças de governo. Talvez a criação de uma autarquia ou de uma organização social, tentativas de cunho jurídico que visem a perpetuação desses organismos, até então imersos num ambiente de extrema fragilidade.

R. L. - Em crítica literária, há a análise de um texto visto por um determinado ângulo e focada num determinado objetivo. Em música, a crítica baseia-se em performance. É como se um crítico literário fizesse um trabalho sobre como determinada pessoa leu um texto. O senhor crê que esse tipo de crítica é o máximo possível a respeito da linguagem musical? E mais: está o crítico brasileiro, preparado para exercer tal função?

I. K. - Creio que ao crítico brasileiro falta aquilo que todos nós buscamos – a proliferação das orquestras e com isso a intensificação da atividade musical. Não só em número de concertos como em propostas culturais de peso, enfocando todo o repertório do passado aos nossos dias.

Caso você queira dirigir alguma pergunta à coluna ou ao entrevistado, escreva para:
gilda.dieguez@ig.com.br