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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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ÁRIES - GREGÓRIO DE MATOS

Adriano Andre Vilas Boas Siqueira
Professor de inglês e aluno do 4º período de Letras – Campus Rebouças



Período:
21 de março a 20 de abril

Regente:
Marte. Na alquimia, simboliza o ferro. Na química, o zinco. Na biologia, o sexo masculino.

Elemento:
Fogo

Tipo:
Cardeal

No corpo:
Cabeça, nariz e cérebro

Significado:
Faísca que gera a combustão; o ato que fecunda. Iniciativa e espontaneidade. Impulsividade e gosto pela atividade. Espírito de ação e intervenção. Eu, ser, força, independência.

Símbolo:
A cabeça do carneiro, mas também fonte da vida, é o primeiro signo do Zodíaco, quando tudo começa a florescer, durante o equinócio da primavera no hemisfério norte.

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

Áries, o primeiro signo do zodíaco, representa o início – ou os inícios, nascimento, os primeiros passos para se chegar a algum lugar, ainda que perca o interesse no meio do caminho. É energia: a iniciativa direta, o ímpeto para dar início ao que o fogo lhe inspirou – por vezes, como o carneiro, que o simboliza, usando a força para abrir portas e, se for preciso dando cabeçadas. Diz o que tem vontade de dizer, sem o menor refinamento. O ariano é independente e romântico, movido a paixões que falam mais de si mesmo que do outro. Orgulhoso, arrogante, quer ter sempre o que quer.

No jargão da astrologia, Áries é ser, auto-afirmação. O ariano gosta de ser notado. Nesse sentido, ele prefere a solidão da impopularidade a ter de abrir mão de um desejo. Como não precisa de muita aprovação social, ou segue a trilha heróica, ou o pioneirismo, sob a descrença e a vaia dos outros. Gregório de Matos parece ter sido este solitário poeta, abrindo novas perspectivas. Como bem o definiu José Miguel Wisnik,

"Na obra enorme de Gregório de Matos, desfigurada em parte pela sua má preservação, com todos os seus desvãos, suas lacunas e seus descompassos, fica certamente um saldo de problemas e de possibilidades que ultrapassa em muito os limites dos demais poetas do Brasil colonial, e que o fazem, seguramente, um dos poetas mais instigantes da nossa literatura. Pelo tipo de problemas com que se enfrentou, acabou criando novos registros poéticos (...). Além disso, o seu itinerário desloca efetivamente os eixos da poesia acadêmica, auto-satisfeita na sua própria retórica. E se essa auto-satisfação acadêmica tem hoje (como não poderia deixar de ser) os seus exemplos de sempre, e chega a rondar ou instalar-se nas próprias vanguardas, a mobilidade insatisfeita da poesia de Gregório de Matos acaba sendo um sinal do seu melhor inconformismo".

Todas essas características, que melhor serviriam a um guerreiro, caem como uma luva se lembrarmos que seu planeta regente simboliza o deus grego Áries, ou o romano Marte.

Na literatura temos, sob o signo de Áries, Gregório de Matos, que, apesar de nascido no Brasil, passou maior parte da vida em Portugal e veio apenas viver no Brasil quase no final do século XVII. Através de sua poesia, retratou a Bahia do Brasil colonial. Sempre esteve envolvido com política: lamentava e denunciava a má forma com que a coroa administrava o País e incentivava uma colonização mais séria, como pode ser verificado no soneto que se segue, que foi musicado por Caetano Veloso:

À CIDADE DA BAHIA

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante
Que em tua larga barra tem entrado
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote!

Também se sentia no direito de passar lição, quando mostra que os próximos governantes deviam aprender com erros de seus antecessores. Gregório de Matos, com a temática da roda da fortuna, expressa a antítese paraíso/queda, contida neste soneto, que se adere ao estilo barroco:

A DESPEDIDA DO MAO GOVERNO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR

Senhor Antão de Sousa de Meneses,
Quem sobe a alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

A fortunilha autora de entremezes
Transpõe em burro o Herói, que indigno cresce
Desanda a roda, e logo o homem desce,
Que é discreta a fortuna em seus reveses.

Homem (sei eu) que foi Vossenhoria,
Quando o pisava da fortuna a Roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.

Pois vá descendo do alto, onde jazia,
Verá, quanto melhor se lhe acomoda
Ser home em baixo, do que burro em cima.

A noção de paraíso/queda também perpassa a sua lírica amorosa. Aliás, no amor o ariano é capaz de apaixonar-se rapidamente, assim como também com rapidez se desencanta. Como suporta mal a rotina, a vida amorosa tem de ter altas doses de romance, aventura e paixão, o que faz com que sua vida amorosa seja tórrida e problemática. Tomemos alguns exemplos:

EXPRESSÕES AMOROSAS A UMA DAMA A QUEM QUERIA – A MARIA DOS POVOS, SUA FUTURA ESPOSA.

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O Ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh não aguardes que a madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

No poema acima, Gregório se apresenta com a nobreza de caráter, embora a figura da mulher oscile entre o espírito e a matéria. O mesmo pode ser observado no lindo poema abaixo, em eu o poeta converte a mulher em paradoxo:

ROMPE O POETA COM A PRIMEIRA IMPACIÊNCIA QUERENDO DECLARA-SE E TEMENDO PERDER POR OUSADO

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não ilolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Só esses exemplos não justificariam o codinome "Boca do Inferno", mas não poderíamos esquecer de outros momentos de desigual "inspiração". Como bom ariano, que foi, não deixaria passar em branco o comentário de uma freira que caçoou de seu nariz, como podemos perceber neste poema erótico-irônico, também dirigido a uma mulher:

Se Pica-flor me chamais
Pica-flor aceito ser
mas resta agora saber
se no nome que me dais
meteis a flor que guardais
no passarinho melhor.
Se me dais este favor
sendo só de mim o Pica
e o mais vosso, claro fica
que fico então Pica-flor.

No entanto, não só de críticas e sátiras se compõem sua obra, afinal o momento barroco tem, também, como característica o conflito do homem universal. No soneto que segue, essa temática aparece no par humildade/arrogância, na tensão pecado/perdão:

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


NOTA:
Gregório de Matos talvez não tenha nascido sob o signo de Áries. Nos últimos instantes, enquanto estava para fechar a coluna, chega a notícia de que ele possa ter nascido no começo de dezembro, o que o faria sagitariano. Ainda sim, continuaria sendo do elemento fogo, partilhando com os arianos a força das emoções e da paixão, ficando mais realista.


Cartas para a coluna:
aboas@terra.com.br