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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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A PARÁBOLA DO EXAGERO

José Ronaldo Siqueira Mendes
Advogado, professor e formado em Letras, pela Universidade Estácio de Sá

Havia uma época em que os homens não sabiam mais quem eram os verdadeiros homens. Uma época em que ratos e vermes travestiam-se de seres humanos, para difundir o pavor e a desconfiança. Estes eram os críticos... Mas não os críticos na boa concepção da palavra (se é que é possível achá-la... acho possível, sim), mas aqueles que, tendo desgostado de tal ou qual obra – ou, pior, não a compreendendo ou não coincidindo seu campo de afinidade estética, atiram logo a primeira pedra, sem se importar se possui ou não pecados. Às vezes, a pedra é meio bumerangue e volta na nossa própria moleira... E dói muito.

Admito que não tive coragem de assistir ao espetáculo Paixão de Cristo, de Mel Gibson, pois tenho pena de Jesus (apesar de saber que era esta a sua sina, muito parecida com a nossa, professor: nascer para padecer em desgraça) que, tendo sofrido e morrido para nos libertar, recebe tantos "nãos" diariamente e é renegado e execrado a todo instante (como se parece conosco, não?). Tudo bem que tantos não tenham se intimidado com as cenas chocantes da película. É natural, comum, normal... Ooops, é a banalidade da violência, que já está definitivamente inserida e arraigada em nosso seio, leito e leite social. Não se chora mais pela dor alheia, não se sente mais... é uma hanseníase cardíaca coletiva. É a definitiva morte sentimental.

Barbarizamo-nos a ponto de assistirmos o massacre dos "pitboys" e aceitarmos aquele aceno e beijo obsceno e debochado, de um dos acusados, com a maior naturalidade. Mas tudo bem: não podemos culpar o cinema por uma fita tão violenta... Ou podemos? Será que só se passará musicais nas salas de projeção nestes próximos anos? E as décadas de 1980 e 1990? Só filmes "light", não é?

Infelizmente, acho que se está fazendo uma grande tempestade em Mar Vermelho. Basta irmos direto ao radical da palavra. Ao léxico em si mesmo. Não nos esqueçamos do que vem a ser paixão... Uma vez tendo revisado esse termo gramático-sintaticamente, seria bom deixarmos de exagero; afinal de contas, exagero é o oitavo pecado capital. Ou seria a burrice?

Cartas para a coluna pelo e-mail:
zeromendes@hotmail.com