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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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VAMOS CRUCIFICAR O MEL GIBSON: CRUCIFICA-O, CRUCIFICA-O!

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras pela Universidade Estácio de Sá
Pós-graduando em Língua Portuguesa pela UERJ

Fui e não vi. Chorei, chorei muito. De olhos fechados, sem assistir a nenhuma cena pornográfica, segundo o que escreveram alguns críticos de jornal, derramei as minhas lágrimas, mais uma vez, por um homem santo. Não me importava muito o que a riqueza de detalhes sórdidos iria causar ao espectador, pois quem tem coragem de abrir os olhos perante cenas tão terríveis bem merece o que está presenciando. Entretanto, não acredito que seja esse o grande propósito de um filme que, a despeito de todos os comentários, promete atingir os mais altos índices de bilheteria. Os que provavelmente não perderam um segundo sequer da projeção são deveras suspeitos e não deviam sair por aí, criticando o diretor sem ao menos interrogar-lhe a respeito das suas intenções. Mesmo que a resposta decepcionasse, as interpretações não seriam unânimes, seja o filme arte ou documentário religioso e sanguinário.

Não posso dizer que gostei do show de horror, pois cortei do meu campo visual todas as cenas de violência traumatizante; contudo, enfrentei, ainda que de modo covarde, a missão de encarar a verdade de frente. Creio que é isso que perturba a maioria das pessoas: a verdade. Temos, verdadeiramente, por hábito, ignorar o que é feio e desviar os olhos quando nos deparamos com a desgraça, com a miséria e com a dor. No entanto, a verdade é que Jesus morreu daquela forma, passando por todos aqueles martírios, impingidos, por tabela, a todos que o amavam.

Por outro lado, se é para fazer suposições, suponho que Mel Gibson desejava impactar os cegos que somos, quando fingimos não saber o que Cristo queria dizer com as suas parábolas. É tão fácil fechar os olhos para o "amar os inimigos" e outros ensinamentos que deixamos de lado por pura incapacidade... A propósito, a questão desse amor praticamente impossível fazia-se presente entre uma chicotada e outra, mas, pelo visto, muitos críticos não a notaram... Devemos, então, antes de manifestar a nossa indignação, lembrar que vivemos nítidos dias que nos fazem, freqüentemente, acreditar que amor é sinônimo de fraqueza.

O século XXI é o século dos míopes. Pretensiosamente, alardeamos os incríveis avanços científicos e tecnológicos, mas vemos muito ao longe todas as possibilidades de humanização das sociedades. E se muito nos acostumamos à violência, precisamos de algo realmente superior ao que os nossos olhos registram diariamente, a fim de percebermos o significado de alguns sofrimentos. Além disso, continuamos ignorantes e egoístas, prontos a condenar qualquer pessoa que nos cause algum tipo de constrangimento. Não precisamos de motivos muito sérios para matar, matamos até por quantias irrisórias. Portanto, a crueldade retratada por Mel Gibson, discípulo de Franco Zefirelli, faz bastante sentido. Se alguém souber de comentários pejorativos sobre o diretor de Jesus de Nazaré, o grande épico, por favor, avise-me, pois também fiquei muito chocado com aquela famosa produção, quando a vi pela primeira vez.

FICHA TÉCNICA

Título original:
The Passion of the Christ

Gênero:
Drama

Tempo de duração:
126 minutos

Ano de lançamento (EUA):
2004

Site oficial:
www.la-pasion.com

Estúdio:
Icon Productions / Marquis Films Ltd.

Distribuição:
20th Century Fox / Icon Entertainment International

Direção:
Mel Gibson

Roteiro:
Mel Gibson e Benedict Fitzgerald

Produção:
Brce Davey, Mel Gibson e Stephen McEveety

Música:
John Debney

Fotografia:
Caleb Deschanel

Desenho de produção:
Francesco Frigeri

Figurino:
Maurizio Millenotti

Efeitos especiais:
Keith Vanderlaan's Captive Audience Productions

Elenco:
James Caviezel (Jesus Cristo)
Maia Morgenstern (Maria)
Monica Bellucci (Maria Madalena)
Hristo Jivkov (João)
Hristo Shopov (Pôncio Pilatus)
Rosalinda Celentano (Satã)
Francesco Cabras (Gesmas)
Claudia Gerini (Esposa de Pilatus)
Sergio Rubini (Dismas)
Danilo Maria Valli (Lázaro)
Matti Sbraglia (Caifás)

Sinopse:
Uma narrativa sobre as últimas doze horas de vida de Jesus Cristo (Jim Caviezel), antes de sua crucificação.

FOTOS DO FILME

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