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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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A PAIXÃO DE MEL GIBSON

Francisco Carlos Malta
Ator e aluno do 7º período de Letras – Campus Rebouças

O que é que Mel Gibson tem que os outros não têm? Essa é a pergunta que não quer calar. Fizeram muito barulho por nada. Criou-se tanta polêmica em torno do filme de Gibson sem nenhuma razão. Mas é aquela velha máxima da uniformidade da mídia, todos devem dizer a mesma coisa, tecerem a mesma opinião e, assim, pontuarem um pensamento único, ou o mais correto seria a ausência de pensamento. Sem dúvidas, é a ditadura da imprensa. Como escreveu Tocqueville, em 1830, na obra A democracia na América: "trata-se de um sistema que, levado ao extremo, pode se tornar uma espécie pavorosa de ditadura da massa".

A Paixão de Cristo, adaptação para os cinemas das últimas doze horas da vida de Jesus de Nazaré. O roteiro tem como base os quatro evangelhos bíblicos, seguidos à risca pelo co-roteirista Mel Gibson, também diretor e idealizador da produção. O filme arrecadou US$ 287 milhões em quatro semanas nos Estados Unidos, marca fenomenal para um filme com censura de 18 anos e legendado – a produção é toda falada em aramaico e latim.

Estão polemizando para se fazerem de interessante. Oh! Como estão acusando os judeus! Pura cascata! Hipocrisia pura! Querem jogar mais dinheiro no bolso de Gibson, isso sim. Não existe estratégia de marketing melhor do que o boca-a-boca. O filme é considerado anti-semita só porque não foi a máfia hollywoodiana que encheu os cofres. Todos os donos do poder cinematográfico devem estar cortando os pulsos, já que Gibson havia apresentado o projeto aos magnatas e estes o recusaram.

Tom Jobim tinha razão: sucesso é ofensa pessoal. Só porque o Gibson teve uma "sacada", querem logo crucificá-lo. É uma mania de achar que não se pode abordar determinados assuntos. Como diz uma professora minha: "Eta! Povo medieval!".

A proposta de Gibson nunca foi apresentar um filme cult, nem acusar ninguém; como um tema qualquer, o diretor simplesmente apresenta sua visão. Queriam o quê? Sessões abertas só por que era Cristo? A polêmica em torno do filme vem de setores da Igreja Católica e da comunidade judaica. O presidente da CNBB, dom Geraldo Majella Agnello, classificou o filme de "terrivelmente cruel". Para Agnello, o filme quer seduzir pela violência. Já Henry Sobel, presidente da Congregação Israelita Paulista, se diz repugnado e acredita que o filme é "claramente anti-semita".

A Paixão de Cristo incomoda. O filme não é anti-semita, pois traça um retrato fiel do que a Bíblia fala acerca da condenação de Cristo. Os mandantes foram os judeus, que escolheram libertar Barrabás e não Cristo. Foram os judeus que cuspiram nele, que judiaram. Isso é um fato e eu diria que, como qualquer romance adaptado, Gibson foi fiel à idéia original. O filme é fidelíssimo aos fatos.

Claro que existem cenas de violência, assim como em Gangues de Nova Iorque, Cidade de Deus, O Pianista e outros excelentes filmes. O problema não é a violência: o problema é a narração da Paixão, descrita na Bíblia. Cristo também incomodou uma liderança hipócrita da época. Assim como outros grandes líderes também incomodaram. Tim Lopes denunciou a gangue nos bailes funk e foi esquartejado pela liderança marginal carioca, o que não quer dizer que todo carioca seja esquartejador. Isso significa também que nem todo judeu é do mal.

Se Gibson fez "marketing", a verdade é que um "marketing" sempre ajuda: que o digam a modelo Luma de Oliveira e o cantor Zeca Pagodinho.

O Calvário é por aqui mesmo; assistimos recentemente o terror na Espanha, o massacre do Carandiru, a aluna que foi baleada no metrô. As cicatrizes são muitas e as loucuras da humanidade estão pelo mundo.

Mas, voltando no filme em pauta, falar do amor de Cristo é sempre bom, pois suscita discussões em torno de sua mensagem de vida. E, quanto a isso, não podem acusar a narrativa de Gibson, pois existe uma mensagem em torno dos sentimentos humanos.

E o mundo precisa de muito amor: a vida está cada vez mais difícil e o ser humano anda perdendo sua essência. As nossas feridas, as injustiças... São tantos tormentos... Então, por que não falam do trabalho excepcional do ator Jim Caviezel, que interpreta Jesus Cristo? De Mônica Bertolucci, como a pecadora Madalena? A fotografia, de inspiração renascentista, é um espetáculo à parte. A trilha sonora é grandiosa, ajuda toda concepção do drama. O filme provoca um mal-estar, porque a crueldade sempre é perturbadora.

Quem quiser falar mal, que fale, mas vá ao cinema, ao menos para ter opinião própria e não ficar no modismo. Rasgue-se de inveja e vá ao cinema. Gibson agradece. Em nome de Gibson, do Papa e Jim Caviezel. Amém!

FOTOS DO FILME

 

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