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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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ÉTICA SOZINHA NO MUNDO

José Ronaldo Siqueira Mendes
Advogado, professor e formado em Letras, em 2002 – Campus Rebouças

Justo era um juiz muito competente e raríssimo, por sinal. Era um daqueles que não aceitava propinas e ainda condenava os que tentavam persuadi-lo com tal ato indecoroso: a corrupção ativa. Era casado com Esperança, beleza de criatura; tinha uma paciência de Jó. Geraram uma filha, Ética, a quem Justo prometera um mundo melhor.

Infelizmente não quiseram as Moiras que assim fosse e trataram de cortar o fio da vida do magistrado. Esperança, não agüentando a solidão, deixada de herança pelo de cujus, definhou e morreu. Ética ficou sozinha.

Mas Ética era persistente e não iria desistir tão facilmente, entregando-se a uma melancolia depressiva sem antes combater o bom combate: resolveu ir trabalhar. Primeiro foi a um hospital público, a fim de obter informações sobre algum concurso. E qual não foi o seu espanto ao saber que naquele hospital ninguém fora concursado? Todos os que lá estavam tinham sido indicados por terceiros. Mas não foi só isso que ela viu, não. Observou médicos cobrando consultas, que deveriam ser gratuitas; profissionais sem diploma e até doutores flertando com pacientes ou suas acompanhantes.

Ética, já ojerizada com tudo aquilo, saiu correndo e foi tentar o fórum. Ao chegar lá, o que é que ela encontra? Uma grande família trabalhando: juízes filhos de desembargadores, chefes de secretarias filhas de juízes: não escapava nem o meirinho – todos uns nepotistas. Isso tudo, fora os presentes que os juízes recebiam para não enxergar certos casos. Enjoada de tanta imundice profissional, Ética se dirige a uma escola, a fim de procurar um outro ofício.

Professores desqualificados e horrendamente mal remunerados, desvirtuando o pouco de aprendizagem prática de seus alunos; estudantes despreparados, já se graduando, sem nem saber assinar o nome direito e repletos de uma empáfia, de um pedantismo, de uma soberba acadêmica que os permitia serem os donos de toda veritas do mundo – além de famílias inteiras que, aliviadas por se verem livres do cáustico fardo de educarem seus filhos, os mandavam para as instituições de ensino só para terem alguém para culparem por sua funesta omissão. Isso tudo, fora o desvio de verbas para material escolar e alimentação dos alunos menores e carentes. Ética, estafada, resolveu ir para casa.

Em casa Ética liga sua TV. E a desligou a seguir. Violência gratuita, morte banalizada, sexo vulgarizado... "O 'Grande Irmão' devia estar horrorizado e enojado", pensou; "pobre Orwell!" Ética toma um "Lexotan" e deita para descansar um pouco. Numa leve penumbra, meio que éter, meio que sombra, num devaneio de sono-lombra, Ética ponderou sobre o sistema político brasileiro, imerso em mazelas e propinas, e lama e escândalos. Riu, ensandeceu-se, ao relembrar as inúmeras CPIs planejadas e que nunca foram concluídas, sequer. Visualizou as arbitrariedades que os deputados e senadores exerciam, só por estarem investidos em seus cargos – as "prerrogativas de função", e sentiu-se ridicularizada por ver não só a sua fé e esperança, mas a de todo um povo, que não faz nada além de morrer de miséria e fome, ser alvo de chacota, de ter seus sonhos atirados na lama, como lavagem aos porcos, pelos lobistas e pilantras do alto escalão, que habitam a Brasília do colarinho branco e da impunidade. Despertada deste pesadelo "Lovecraftiano", Ética resolveu sair para espairecer.

Na fila do ônibus, Ética viu um menino tomando o lugar à frente dos outros. Foi a gota d'água. "É o cúmulo não respeitar nem o menor ato de cidadania e de direito, que é o lugar sagrado da fila". Ética resolveu agir: puxou o moleque pelo braço e começou a discursar sobre o direito do ser humano de ser respeitado; falou da falta de educação do povo, que não permite solidificar o caráter e assim saúde e justiça são aniquilados; dissertou ainda sobre a podridão imperadora nos meios de comunicação e nas religiões. Enfim Ética desabafou.

Esperando uma resposta racional, Ética recebeu três estocadas de estilete no ventre. O estilete era frio como a realidade e o sorriso, no rosto do garoto, cínico, como a sociedade. Ética morreu num ponto de ônibus, mas, antes de soltar o último suspiro, já agonizante para sair, Ética encarou o pequeno marginal e perguntou-lhe:

- Qu... qual o seu nome, meu filho!

E o moleque respondeu:

- Meu nome é Progresso!

E soltando altas e estrondosas gargalhadas, deu as costas à vítima moribunda que, ao tempo em que ouviu as risadas se distanciando, enquanto o breu derradeiro a encobria, pensou estar no Céu... mas o Céu não existe, Ética!

E-mails para a coluna:
zeromendes@hotmail.com