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EDIÇÃO 9 30 de abril de 2004
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O TERNO E O FEROZ DA POESIA RIMBAUDIANA

Maria Amelia Ferreira
Jornalista e aluna do 5º período de Letras – Campus Rebouças

Ivo Barroso traduziu a poesia completa de Arthur Rimbaud, praticando, segundo o próprio tradutor, uma "obsessiva freqüentação da obra" do poeta francês, trabalho que lhe custou longos anos, haja vista que, a rigor, pode-se dizer que tal matéria de ourivesaria começou nos anos 1950, quando publicou a tradução do poema "Soneto das Vogais" no suplemento dominical do Jornal do Brasil e terminou em 1994, quando entregou ao público o livro Arthur Rimbaud - Poesia completa, em edição bilíngüe, português francês, acompanhada de prefácio, bibliografia e notas.

O poeta mineiro faz uma tradução primorosa de Rimbaud, ajuntando em seu prefácio, que o faz de modo fiel, na busca de deixar intactas a forma e a essência do poema, a fim de que se perceba o que Rimbaud disse: "da blasfêmia ao despudorado erotismo", sem afastar-se da riqueza, da correção da linguagem, para, em última análise, nos trazer o enigmático e ainda desconhecido Rimbaud. A tradução de Ivo Barroso pretende, principalmente, despertar o sentimento estético que desfruta quem lê Rimbaud no original.

D'un recueil d'extrême jeunesse (Poésies)

Le Doumeur du Val


C'est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

(Octobre 1870)

O adormecido do vale


Era um recanto verde onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta.
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono,
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

(Outubro de 1870)

A um olhar ingênuo, Rimbaud fala da natureza com cromatismos e luzes. No entanto, o que há é a apresentação da morte como negativa da Natureza. O soldado não dorme; o leito é de morte; o sentimento é o de desamparo. A percepção do desamparo do soldado "un enfant" resulta em uma ternura insólita, que luta com o rigor da construção do verso onde o poeta condena a guerra.

Le Mal

Tandis que les crachats rouges de la mitraille
Sifflent tout le jour par l'infini du ciel bleu;
Qu' écarlates ou verts, près du Roi qui les raille,
Croulent les bataillons en masse dans le feu;


Tandis qu'une folie épouvantable, broie
Et fait de cent milliers d'hommes un tas fumant;
- Pauvres morts! dans l 'été, dans l'herbe, dans ta joie,
Nature! Ô toi qui fis ces hommes saintement!…

- Il est un Dieu, qui rit aux nappes damassées
Des autels, à l'encens, aux grands cálices d'or;
Qui dans le bercement des hosannah s'endort,

Et se réveille, quand des mères, ramassées
Dans l'angoisse, et pleurant sous leur vieux bonnet noir
Lui donnent un gros sou lié dans leur mouchoir!

O mal

Enquanto esse cuspir vermelho da metralha
Silva no céu azul o dia inteiro, e logo,
Verdes ou rubros, junto ao Rei que os achincalha,
Tombam os batalhões em massa sob o fogo.

Enquanto a insânia horrenda arde num fogaréu
Cem mil homens e os deixa a fumegar, demente,
- Pobres mortos! na relva, ao sol do estio, em teu
Seio, Natura, ó tu que os criaste santamente!...

- Existe um Deus, que ri nas toalhas dos altares
Num cálice dourado, entre incensos, e nesse
Tranqüilo acalentar de hossanas adormece;

E acorda quando as mães, morrendo de pesares,
Choram de angústia, sob o negro xale imenso,
E lhe dão uma moeda, amarrada no lenço!

Há uma censura a Deus, que se mantém indiferente diante do sofrimento humano. A violência está na escolha semântica, opondo riso, tranqüilidade, toalhas dos altares, cálice dourado, incenso, à angústia, choro, pesares, que culmina ainda numa oferenda ao Deus tranqüilo diante do horror da guerra que faz tombar os homens.

Le Bateau Ivre

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
De Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J' étais insoucieux de tous les équipages,
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais.
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages
Les Fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.

...................................

Plus douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau verte pénétra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin.

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d'astres , et lactescent,
Dévorant les azurs verts; où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif parfois descend;

...................................

Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le créspuscule embaumé
Un enfant accroupi plein de tristesses , lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai.

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.

O barco ébrio

Como descesse ao léu nos Rios impassíveis,
Não me sentia mais atado aos sirgadores;
Tomaram-nos por alvo os Índios irascíveis,
Depois de atá-los nus em postes multicores.

Estava indiferente às minhas equipagens,
Fossem trigo flamengo ou algodão inglês.
Quando morreu com a gente a grita dos selvagens,
Pelos Rios segui, liberto desta vez.

...................................

Mais doce que ao menino os frutos não maduros,
A água verde entranhou-se em meu madeiro, e então
De azuis manchas de vinho e vômitos escuros
Lavou-me, dispersando a fateixa e o timão.

Eis que a partir daí eu me banhei no Poema
Do Mar que, latescente e infuso de astros, traga
O verde-azul, por onde, aparição extrema
E lívida, um cadáver pensativo vaga;

...................................

Se há na Europa uma água a que eu aspire, é a mansa,
Fria e escura poça, ao crepúsculo em desmaio,
A que um menino chega e tristemente lança
Um barco frágil como a borboleta em maio.

Não posso mais, banhado em teu langor, ó vagas,
A esteira perseguir dos barcos de algodões,
Nem fender a altivez das flâmulas pressagas,
Nem vogar sob a vista horrível dos pontões.

Lido por Ivo Barroso, o poema (que transcrevemos apenas parcialmente) é como estar-se "em um barco doido, embriagado de infinito, navegando ao léu 'para chegar ao Insabido' e o barco é o 'Eu', Rimbaud, ou seja: a Poesia."

Endereço para correspondência:
amelia.fer@globo.com