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EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
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DIRETO DO FRONT

Melissa Poyares
Aluna do 4º período de Letras – Campus Méier

Busquei, em vão, no dicionário algo que ajudasse a aclarar os pensamentos sobre o que costumava ser o carnaval. Não vivi tempo suficiente para ter em minha mente todas aquelas marchinhas carnavalescas, mas sou da época em que o telespectador ainda detinha algum poder de escolha.

Após o breve intervalo comercial, voltemos, pois, a nossa adorável transmissão do carnaval. Direto do front transmitiremos tudo, tudo aquilo que você decididamente não quer ver. Sejamos honestos, parte da lógica do curto reinado de Momo reside no fato de que nesse parco espaço de tempo é dado aos foliões (nós, reles mortais – os mortos posto que não influímos de forma efetiva na realidade) o direito de ousar ser o que desejamos, mas que nunca poderemos ser: piratas, odaliscas, havaianas, ciganas, índios, palhaços, princesas e por aí vai... Ah, carnaval! Um coreto em cada bairro, quase uma quermesse, reunindo a comunidade com o fito único de se divertir. Uma diversão sadia, uma válvula de escape para toda a família.

Falando em coretos, a Riotur costumava promover um concurso para eleger o mais belo. Se tal tradição continua ou não, desconheço. Contudo, a questão é que isso costumava ser veiculado. Claro, isso e os desfiles de fantasia no Hotel Glória. E os bailes??? Como podemos esquecer dos bailes??? Para quem ficava em casa era uma forma de estar inserido àquela realidade.

Deixando as vacas magras de lado e voltando às vacas frias, incubi-me da nobre tarefa de acompanhar o carnaval. Deparei-me, então, com o óbvio: a muito o carnaval deixara de ser uma festa popular. Por quê? A resposta é bem mais do que a afirmação pode parecer. O carnaval passou a ser um evento turístico, perdeu o tom de protesto, de deboche que costumava ter. Esse ano tivemos apenas uma emissora transmitindo o desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial. E o grupo de acesso? Ninguém sabe, ninguém viu! O problema é que esse desfile é tão ou mais importante que o desfile das estrelas. É muito fácil fazer carnaval dispondo de grandes somas, tente fazer o mesmo com parcos recursos. Parece difícil, não é? De fato, mas esses heróis deveriam ter um espaço a eles dedicado.

Ao pobre infeliz que se candidatou à façanha de assistir aos desfiles, pouco pode fazer. Ou desligava a caixinha de fazer bobos e ia viver os três dias facultados aos mortos, ou jiboiava em frente à TV sem qualquer possibilidade de escolha. Se estamos no Rio de Janeiro, porque não fazer uma programação inteiramente dedicada à localidade. Qual a utilidade prática, que não o Ibope, de se transmitir o desfile das escolas de samba de São Paulo??? Se a algum dos leitores ocorrer idéia diversa, favor contá-la a mim.

Ainda no mesmo tema, houve um tempo em que se fazia um pool de emissoras para cobrir esse tipo de evento. Ainda que a transmissão fosse a mesma, o telespectador podia escolher. E rendendo tributo a quem merece, ainda que postumamente, lembro com saudades da Rede Manchete que, sem sombra de dúvidas, fazia a melhor cobertura do Carnaval carioca.

Pior que isso, só mesmo correr atrás do trio elétrico, o que, aliás, é uma tremenda ilusão, posto que, em verdade, o trio passa e você fica sentadinho no sofá sem mexer um único músculo sequer. Que me perdoem os adoradores de Axé Music, mas ao som de todo aquele "zum zum baba", o telespectador se torna um zumbi e sai babando pela cidade, até porque se seu cérebro tiver uma tolerância superior a 10 minutos, isto se dará em função do suicídio coletivo de todos os neurônios de sua massa encefálica.

E o Desfile das Campeãs? Bom, nem há o que se dizer, a iniciativa de outra emissora cobrir o evento foi ótima. E quanto ao compacto, talvez pudesse ser um pouco mais longo. É, já que o ano finalmente iniciou e todos nós já retornamos às nossas tumbas, melhor seria não esperar nada melhor no próximo ano, porque com uma transmissão tão funesta de tamanha celebração da vida, é preferível continuar morta.

E-mails para a coluna:
melmoyares@bol.com.br