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EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
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EU SEI QUE VOU TE AMAR – UMA ANÁLISE MUSICAL

Mauro Dellal
Aluno do 6º período de Letras – Campus Rebouças

tocar Clique para ouvir Eu sei que vou te amar

 

 

Nós, alunos do curso de letras da Estácio, como outros tantos em outras universidades, acostumamo-nos a, durante o nosso curso, estudar, praticar e produzir análises de obras literárias buscando entender e descobrir as intenções dos autores e de como eles construíram suas obras. Aqui, vamos tentar entender o que Vinícius de Morais e Tom Jobim intencionaram fazer e tentaremos descrever como os compositores usaram a linguagem musical para produzir um determinado efeito. Veremos que a boa música, assim como o bom texto, estão livres da superficialidade não-intencional que marcam as obras feitas a partir de uma falta de reflexão e de interesse em querer dizer algo um pouco mais profundo do que simplesmente tocar os nossos sentimentos.

Essa canção foi escolhida por ser de grande domínio público. Para aqueles que não a conhecem, e mesmo para os que a têm em seu ouvido interior, proponho que a ouçam após a leitura deste texto, ou até mesmo acompanhem a leitura ao som da música.

De início, eis o poema:

Eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida eu vou te amar,
A cada despedida, eu vou te amar,
Desesperadamente, eu sei que vou te amar.

E cada verso meu será
Pra te dizer, que eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida.

Eu sei que vou chorar,
A cada ausência tua eu vou chorar,
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu,
Por toda a minha vida.

Na primeira estrofe, o poeta se utiliza da repetição da frase "eu sei que vou te amar", como forma de afirmar sua certeza. Nas frases seguintes a essa primeira, o poeta utiliza a elipse dos termos "sei que". Amará: por toda sua vida, em cada despedida e de forma desesperada, no sentido de total dedicação. A melodia que acompanha esses versos se baseia nisso: repetição e afirmação. A cada dizer da frase principal (eu vou te amar) as notas são, também, repetidas como algo imutável, definitivo. Mas não é só isso; as frases se repetem (melodicamente falando) mudando de escala a cada verso da estrofe. Isso causa o efeito de uma afirmação incontestável, sempre crescente.

As estruturas das frases, em sílabas poéticas são: 6-10-10-12. A estrutura de notas musicais acompanha esse desenho e a altura da frase musical também se eleva a cada descrição do texto.

A segunda estrofe se caracteriza, musicalmente, por uma onda lírica. O compasso é quaternário, isto é, quatro tempos de pulsação. O compositor se utilizou de uma nota longa de três tempos de pulsação e um acento tônico na quarta. Assim: ca (123) da(4), ver(123) so(4) meu(123) se(4) (123) prá(4) te(123) di(4) zer(4), e ,então, novamente a repetição de notas juntamente com as frases eu sei que vou te amar/por toda a minha vida. Essa divisão rítmica proporciona um efeito bastante nítido de flutuação, reforçado pela linha melódica, que desce e sobe e que o leitor pode observar ao ouvir a peça. O lirismo aqui impera e o coração pulsa de amor.

Do mesmo modo, como na primeira estrofe, a terceira possui a mesma estrutura. Os versos agora se referem ao sofrimento de amor; mas se no início o sentimento é marcado através da afirmação figurada na repetição das palavras "eu vou te amar". Aqui, as palavras variam: "eu vou chorar" (2 vezes), " eu vou sofrer" e "ausência me causou"; porém, a certeza ainda está mantida na repetição das notas. Assim, o compositor mistura, em essência, as estruturas frasais literárias e musicais nesta segunda estrofe: a certeza é pontuada pelas notas repetidas e a flutuação musical contida na segunda estrofe é, agora, a essência dos versos com as idas e vindas do amor.

O movimento cíclico é reiterado com a conclusão do poema, segundo a estrutura da estrofe final. Se no início a afirmação é algo crescente, algo sobre um sentimento que se eleva; aqui, no final, o movimento é contrário: o caminho melódico agora é de cima para baixo; do céu para o inferno; com a certeza de que o sofrimento de amor será eterno e culmina com a palavra "vida" ocupando todos os quatro tempos de pulsação (2 vezes), metaforizando a eternidade.

A ausência de modulações (mudanças de tons) bruscas dá à música um molde compacto. Apesar do poema se referir aos opostos "amar / não ser amado", essa oposição não se baseia em alterações de estado d'alma. Baseia-se, sim, em algo único, em algo gigantesco, em um amor indestrutível, em um amor auto-suficiente, que regenera em si mesmo. Por assim dizer, a peça mostra total equilíbrio e se mantém pela sua simplicidade (algo que não é fácil de produzir). O simples aqui não é, absolutamente, falta de genialidade, nem falta de inspiração; é, antes de mais nada, consciência de limites exatos que valorizam algo prosaico e belo.

E-mails para a coluna:
m.dellal@terra.com.br