Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Coluna de Espanhol
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Livros Recomendados
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

O HOLOCAUSTO DA GRAMÁTICA TUPINIQUIM: AS REVIRAVOLTAS DAS VARIAÇÕES LINGÜÍSTICAS COM O PODER

Angelo Grisoli
Formado em Letras pela Universidade Estácio de Sá
Mestrando em Teoria da Literatura na UFRJ


"Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação e que toda classificação é opressiva".
Roland Barthes

No ensaio a seguir, busco problematizar um assunto cuja existência vem se desdobrando no campo das Letras por toda contemporaneidade como um labirinto sem saída, rodeado por uma imensa floresta negra. Nela, todos aqueles que se aventuram criar um mapeamento perfeito, no que diz respeito à resolução de todos os seus enigmas e obstáculos, encontram-se, malgrado, fadados a reconhecer suas limitações diante de tamanha complexidade. Muitos desses problemas, reconheço aqui, são de responsabilidade dos próprios pesquisadores e de suas infindáveis contradições.

Respeitando a existência de idéias antípodas as que vou dissertar aqui, em primeiro plano, refiro-me neste estudo ao que se pode contemplar sobre o ensino e o próprio conceito de gramática, com base em três textos: a entrevista de Rodrigo Fonseca com o gramático Evanildo Bechara, intitulada "O poliglota de uma língua só", e a entrevista de Cláudia Nina com o professor da UFMG Luiz Carlos de Assis Rocha, intitulada "A Gramática devia ser abolida". Ao final deste ensaio, apresentarei uma breve interpretação da representatividade política do discurso do poder, às voltas com as variedades lingüísticas, utilizando o texto "O exemplar e o exemplo", que trata da forma como um sindicalista alcançou, por meio do poder subjacente na diversidade lingüística, a égide governamental.

O pensamento de ambos os estudiosos representa pólos antagônicos sobre um mesmo tema, demonstrando propostas e conclusões interessantes no tocante ao assunto. Independente de suas idéias, gostaria de aproveitar o ensejo para reafirmar que, antes de qualquer teorização, a palavra gramática na modernidade foi aos poucos adquirindo semanticamente um valor negativo. As últimas gerações são herdeiras de um grande dilúvio das normas e de suas benesses e vicissitudes. Por esse viés, desejo, previamente a apresentação desses textos, sugerir alguns questionamentos aos leitores: a) O que subjaz de contraproducente quando se propõe o estudo da língua portuguesa por meio da gramática? b) Em tempos de alta alienação, massificação robótica do olhar, unificação fetichista da esfera política e crise ética do sentido na civilização ocidental, há algum sentido impor aos jovens brasileiros, independentes da classe social que ocupem, saber classificar ou diferenciar uma oração em subordinada adjetiva restritiva de uma explicativa?

Pretendo delinear algumas idéias no transcorrer deste trabalho, tendo plena consciência que não resguardo esperanças divinatórias para tudo que envolve as complexidades da língua escrita e da língua falada. Doravante, proponho que os leitores reflitam sobre a seguinte passagem do texto "Aula", de Roland Barthes, buscando estabelecer uma ponte com o título proposto pelo professor Evanildo Bechara em seu encontro com o entrevistador:

Censura-se freqüentemente o escritor, o intelectual, por não escrever 'a língua de toda gente'. Mas é bom que os homens, no interior de um mesmo idioma – para nós o francês – tenham variam línguas.

O gramático, membro da "Loucademia Brasileira de Letras", defende, como um dos argumentos principais de seu estudo, um panorama plurifacetado da linguagem que em sentido geral se aproxima da colocação barthesiana mesmo que o teórico estruturalista esteja se referindo à língua francesa. O que está em jogo não é um código específico, e sim, a multiplicidade do discurso. Segundo Bechara, e nesse ponto devo concordar, a sociedade brasileira deve ter em mente a potencialidade que o código oferece, desconstruindo a idéia de que muitos leigos e até estudiosos defendem que a língua portuguesa está em crise por si mesma.

O que de fato define o problema é uma conclusão simples de ser alcançada: a crise nunca fora da língua, e sim, daqueles que dela usufruem. Pobres são os falantes de um código cuja riqueza de nada adiantará, se aqueles que o utilizem articulem-no descompromissados da elasticidade da forma. Conquanto esse ponto seja de total relevância para a compreensão da matéria, friso que o embrião de toda articulação do poder reside na capacidade que um hipotético falante tem de se apresentar de maneira plural através da língua.

Bechara diz que "educar lingüisticamente uma pessoa é, portanto, habilitá-lo a se expressar no maior número possível de possibilidades que a língua apresenta", isto é, apresentar as pessoas à língua, não somente como uma estátua enrijecida pela frieza das leis gramaticais, mas sim como um universo em movimento. Em tese, essa projeção é deveras interessante. No entanto, com base na realidade, posso afirmar que há um problema sério nessa colocação: ela é um símbolo da utopia maior que ronda o meio acadêmico.

O comentário torna necessárias algumas explicações. Pergunto: quantos professores estão preparados e predispostos, por exemplo, a inserir em seus programas a mescla de textos literários e, informativos. Será que os professores de língua portuguesa, sozinhos, têm força para enfrentar as estruturas de poder que regem a normatividade metodológica do sistema educacional?1. Os alunos são capazes de reconhecer no texto literário uma fonte de riqueza intelectual sem estarem em primeiro lugar bem preparados para o seu percurso? Como pensar na hipótese da prática dialogal da leitura que se refere ao trabalho do imaginário, num tempo que a imagem e a instanteneidade do consumo impõem-se desde a infância?

O professor, mais à frente, estabelece várias dimensões de observação da linguagem, apontando diferenças entre o trabalho do gramático e do lingüista: este, segundo ele, deve se preocupar em estudar as variantes enquanto aquele deve se concentrar em estudar a norma padrão. Porém, ao sublinhar que as várias facetas da linguagem possuem uma força simbiótica sobre o conjunto das leis gramaticais, Bechara deveria ter lembrado que tais variações só serão aceitas e introduzidas no Olimpo gramatical dos acadêmicos, se estes, em "decisão conjunta", as aprovarem: o poder se apresenta, como sempre, indelével.

Num outro ponto da entrevista, o gramático faz uma crítica das teses modernas que vislumbram o ensino da língua sem o auxílio da gramática. Diz: "quando se ouve numa esfera universitária que é uma perda de tempo estudar gramática, percebe-se que estamos perdendo o trem da história". Talvez haja um preconceito tão grande quanto ao termo gramática que dele se esteja irradiando uma grave confusão metodológica, pois, inerente ao princípio de ensino, selecionado por um professor qualquer, é necessário que haja um paradigma referencial que sirva como ancoradouro para esclarecer dúvidas e supostas contradições.

O problema está na forma caduca como o processo de estudo e compreensão gramatical é transmitido. Hoje, mais do que em qualquer época, os professores precisam apresentar os dispositivos da língua – preposições, conjunções e pronomes, por exemplo – de uma maneira contextual que privilegie o princípio da funcionalidade e não de fórmulas antiquadas que em nada acrescentam as pessoas.

O que percebo em Evanildo Bechara é uma enorme preocupação, ou seja, de encontrar uma via prática e acessível para o estudo da gramática, cuja confluência com as teorias da lingüística variacionista moderna demonstre sua eficácia. Não deixa de ser uma proposta louvável, mas será possível sua aplicação em meio ao número cada vez maior de defensores de um novo modelo de estudo da língua? Haverá no Brasil possibilidades de sobrevivência e aceitação real, pelas grandes populações, para o termo gramática no futuro? Não será melhor, em meio ao tom pejorativo que a palavra adquiriu, encontrar uma nova nomenclatura para o tão famigerado manual?

Opondo-se radicalmente ao modelo tradicionalista de ensino da gramática, se estendendo ao próprio conceito de gramática, o professor Luiz Carlos de Assis Rocha radicaliza proferindo que "A gramática deve ser abolida". Este argumenta que ser proficiente de uma língua não implica no conhecimento das normas. O que de mais paradoxal observo em suas teorias é no tocante ao problema das gramáticas tomarem até a atualidade, como fonte modelar, os textos literários do passado. Não seria mais rico se ao invés dos alunos trabalharem exclusivamente com letras de música, propagandas e as redações de outras pessoas, como é dito por ele, que estes tenham contato também com o tecido literário? Refiro-me à literatura compreendida pelo viés da universalidade e não puramente aos "clássicos", isto é, trabalhar-se tanto com um Camões como com um Caio Fernando Abreu. Por que elitizar o texto literário a ponto de se perder o caráter marginal do novo?

O ponto de defesa crucial do professor é de se estudar o ensino de uma língua padrão em detrimento do estudo da gramática. Visão esta que não deixa de ser interessante, uma vez que, relembrando o que disse no início deste ensaio, as pessoas mal sabem medrar um parágrafo concatenado, quanto mais conhecem as leis gramaticais. O risco que se corre através dessa visão é que sempre há os "engraçadinhos" que, não buscando aliar o bom senso a um processo metodológico coerente com a realidade, podem promover abertamente uma anarquia total do código.

De fato, existe um péssimo enfoque educacional nas escolas de ensino médio e, fundamental que privilegia o "decoreba" de nomenclaturas o qual não auxilia em nada as pessoas no aprendizado, na escrita e na fala, como Luiz Carlos bem aponta em seu texto. É na prática lingüística que se constrói uma autonomia discursiva. Ou seja, uma visão de mundo que compreenda o poder que emerge da linguagem tanto no plano escrito quanto no plano oral.

Partindo para o plano político, com o intuito de desdobrar as teorias apresentadas, tomo como símbolo da ascensão burguesa o trajeto do atual presidente da República. Este, que sabe muito bem modificar o tom de seus discursos de acordo com as situações, representa um exemplo vivo do poder da variabilidade lingüística e do quão tentacular pode ser o seu alcance em termos ideológicos.

No texto "O exemplo e o exemplar" fica claro que o núcleo da problemática em torno da língua é a clareza do discurso e a sagacidade para saber aplicar as palavras adequadas às mais inusitadas condições. Com perspicácia e "um pouco de malandragem" o Presidente sabe adequar o discurso às situações. O mesmo indivíduo que sabe falar o português do povão e do cidadão erudito (não que o Lula saiba) é visto com olhares de inveja e simpatia. A percepção consciente ou inconsciente do Presidente em relação à importância das variedades lingüísticas pode não parecer, entretanto é um profundo elemento de reafirmação político-ideológica do então chefe de Estado.

Em conclusão ao que me predispus argumentar, portanto, percebo nas variedades lingüísticas – diastráticas, diatópicas, diacrônicas e diafásicas – uma das mais sólidas bases de compreensão dos fenômenos lingüísticos na modernidade; além de ser um fenômeno de capital importância para se problematizar as articulações do poder por meio da linguagem. Num tempo em que as incertezas políticas foram abolidas pelo presidente de uma nação de iletrados, em sua avaliação governamental no final do ano de 2003, reflito se há alguma certeza no plano educacional que seja capaz de revigorar o papel da linguagem e o ensino da gramática, perante os anseios de um povo cuja história é tão dilacerada quanto sua própria língua. De forma geral, num certo sentido (ou, talvez, incerto), percebo elementos negativos e positivos em ambos, Evanildo Bechara e Luiz Carlos de Assis Rocha, questionando-me o seguinte: por que não lutamos por uma séria reformulação do sistema educacional, antes de pensarmos nos egos opressores e oprimidos dos que ditam o que deve ser tomado como paradigma de estudo e ensino da língua portuguesa? Será interessante essa proposta para o poder?

1 Cuja ação doutrina os educadores a ensinar a língua como um manual a ser decorado: o famoso "decoreba sem sentido".
[voltar]

Bibliografia

ARISTÓTELES. Política. Madrid: Alianza Editorial, 1986.

ARISTOTLE. Art of rhetoric. Cambridge: Harvard University Press, 1994.

ARISTOTLE. Politics. Cambridge: Harvard University Press, 1990.

BARTHES, Roland. "Science versus literature." In: LANE, Michael (Ed.). Structuralism: a reader. London: 1970, pp. 410-416.

BARTHES, Roland. Crítica e verdade. Lisboa: Edições 70, 1978.

BARTHES, Roland. Aula. Lisboa: Edições 70, 1979.

BARTHES, Roland. "From work to text." In: Harari, Josué V. (Ed.).

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Editora Ática, 1994.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.