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EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
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ETC. E TAL

José Mauricio da Silva
Aluno do 7º período de Letras
Campus Rebouças

Um grande auxiliar dos estudantes, em especial, naquelas famigeradas provas de "decoreba". Um curinga sempre disponível para quebrar o galho na hora do lapso de memória. Estou falando do humilde e obscuro: "etc.".

O "etc." é semelhante à figura do passante, ou do transeunte, nos noticiários de jornal ou TV, ele é citado, deveria estar ali, mas não foi identificado, não deixa vestígios. É diferente de um anônimo, que é um participante da cena, possui uma identidade, mas, simplesmente, não a revela. O "etc." é o que faltou, o resto que não apareceu.

Mas nem sempre foi assim na vida do nosso personagem, em seus tempos de partícipe do Império Romano, e antes de ter abreviada a sua expressão, ele era pomposamente escrito em latim na forma: "et cetera" ou "et coetera". Uma locução composta por uma conjunção aditiva (et / se) é e por um adjetivo (ceterus,a,um) na sua forma neutra plural (cetera). O significado desse adjetivo latino é: o que é excedente, o que é além de, o que resta. Utilizado em frases como "Ceterum omne incensum est" (Tudo o mais ficou queimado), ou "Cetera vita" (O resto da vida).

Falando em resto da vida, o "et coetera" passou por diversas transformações ao longo da sua (dele). Na Idade Média participou de textos jurídicos, sendo abreviado sob a forma: "&c.". Quando se mudou para o "latim científico" ou "neolatim", já na Idade Moderna, adotou a sua forma atual: "etc.", com a qual adquiriu fama universal, garantindo, assim, a sua presença em todas as línguas ocidentais modernas, onde exerce a função de informar que a lista encerrada por ele não é exaustiva.

Pairam, porém, sobre o nosso amigo – acho que podemos tratá-lo assim, pois já estamos mais íntimos – algumas incompreensões, e ele é, até mesmo, vítima de alguns abusos.

Uma discussão, um tanto ou quanto tola – coisa de fundamentalistas, no dizer do prof. Moreno1 –, gira em torno da sua aplicabilidade, ou não, a pessoas, já que sua origem é um "neutro" do latim, ora se o latim "congelou", já que não é mais usado correntemente2, o mesmo não acontece com os termos dele herdados pelas línguas chamadas "vivas", que sofrem o processo natural, e saudável, de evolução e transformação. É uma unanimidade, quase universal, a sua utilização com referência tanto a coisas como a seres.

Outro ponto a causar polêmicas é quanto à pontuação. Como se trata de uma abreviatura, deve ser seguido de um ponto, como todas as outras: Cia., Ltda., Prof., etc. (olha ele aí), isso é ponto pacífico, embora muitas vezes não seja observado. Quando o ponto abreviativo coincidir com o ponto-final, basta um.

A polêmica maior é em torno da pontuação que antecede o "etc.", apoiando-se no fato de que existe um "e" (et) implícito, alguns defendem a obediência à regra que diz: "[em uma enumeração] Havendo a conjunção 'e' entre os dois últimos termos, suprime-se a vírgula..."3. Por outro lado, mais uma vez, parece prevalecer a flexibilidade da "parole" sobre a rigidez da "langue", e a maioria dos autores4 faz a pontuação antes do "etc.", repetindo o sinal gráfico que estiver sendo usado na separação dos demais itens da enumeração. Mas não há certo ou errado, você escolhe o que achar mais lógico ou estético...

O abuso ocorre quando depois do "etc." segue-se a seqüência das reticências... aí é demais...

O vocábulo "coetera", embora aplicado sem a companhia da conjunção "et", e sim antecedido pela preposição "inter", tem participação memorável na nossa história: as bulas papais "Inter Coetera", versão I e II, dividiram o "Novo Mundo", ainda desconhecidas as suas dimensões, entre os reis católicos de Espanha e Portugal, naquele que pode ter sido o primeiro documento a fornecer uma base "jurídica e ideológica" para a conquista, exploração e aniquilamento dos povos americanos. Mas já estou escapando para outras searas.

Fico por aqui, com uma última informação: o vocabulário ortográfico da ABL registra o verbete: "etcétera adv., abrev. etc., do lat. et coetera", que não consta, com essa grafia, nem no Aurélio, nem no Houaiss, e olha que os dois andaram por lá...

E um comentário de despedida: ao começar a escrever esse artigo, não imaginava que ia "viajar" tanto. Verificar que uma abreviatura tem tanto a contar, me faz lembrar, e compreender melhor, as palavras de Guimarães Rosa:

"Cada palavra é, segundo sua essência, um poema. Pense só em sua gênese. No dia que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário."

NOTAS

1 Para o presente artigo, muito me louvei no excelente site do professor Cláudio Moreno:
http://educaterra.terra.com.br/sualingua/
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2 Na verdade existem grupos, os mais diversos, que utilizam o latim para se comunicar.
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3 Gramática normativa da língua portuguesa. Rocha Lima.
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4 Ver, mais uma vez, o site do professor Moreno.
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E-mail para a coluna:
jmjornalista@uol.com.br