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EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
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ENTREVISTA COM O POETA GLAUCO MATTOSO

Fábio Fabrício Fabretti
Autor, professor e pesquisador
Graduado em Letras pela Unviersidade Estácio de Sá.

Março é o mês em que se comemora a poesia, especificamente no dia 21. E ninguém melhor que Glauco Mattoso, o poeta que ocupa um lugar de destaque e precioso valor na nossa literatura, portador de uma alma versátil, criativa e "fora-da-lei", contínuo produtivo e dotado de inigualável personalidade, para falar de poesia, de si e da sua obra. Mesmo destituído da visão, ele não cessou seus passos e nem cessou de apontar caminhos, abrilhantando e renovando a nossa cultura. O Rede de Letras procurou Glauco Mattoso e foi recebido assim:

1. O seu panfleto satírico, o JORNAL DOBRABIL, publicado nos anos 70, trazia uma ideologia inovadora, libertária e transgressora, no tocante às letras, tal qual outros poetas do concretismo contracultural, como o seu amigo Augusto de Campos, ponte entre você e Caetano Veloso. Augusto de Campos batizou a proposta dele de "datilograma", e você chamou a sua de "datilograffiti", referente aos dígitos datilografados. O espírito crítico e inconformado era grande impulsionador daquela época. Você percebe, nos momentos atuais, alguma inquietação por parte das pessoas, ou sente que estamos caindo no conservadorismo geral e comodista, por conta da mídia?

GM: Antes de responder, faço uma ressalva, Augusto fazia o concretismo ortodoxo, já que foi um dos inventores dessa escola. Quem fez concretismo contracultural fui eu, que caricaturei a proposta "séria" daquela vanguarda com minha mistura de poesia intelectual e "poesia de bordel", ou seja, aquilo que também chamo de "pornosianismo" (ofescenino associado ao preciosismo neobarroco). Quanto à falta de inquietação do momento, vejo-a por dois ângulos – um é o da desinformação geral e universal, gerada pela tal da "globalização", que pulveriza e dilui a cultura e cuja conseqüência na literatura é o pior sentido da palavra "pós-moderno" (ou seja, o moderno reduzido a pó); outro ângulo é o da conjuntura política local, que liberalizou costumes e comportamentos, esvaziando aquele potencial contestador que a contracultura teve no período da ditadura. É irônico constatar isso, mas já existe a percepção de que a criatividade e a inventividade são mais estimuladas quando as liberdades estão mais cerceadas por qualquer tipo de censura ou patrulhamento. Como diz o ditado, "o proibido aguça o dente". Lembrando que os formalismos estéticos também são patrulheiros, e o informalismo atual mostra que, se a radicalização dos formalismos engessa a criação, sua ausência a esteriliza.

2. Falando de Caetano, no ano de 1984, ápice popular do rock nacional, o cantor e compositor, ícone tropicalista, ao lançar seu disco Velô, apresentou a canção "Língua", abordando a linguagem falada que se opõe à escrita, e o reverencia nominalmente: "(...) Adoro nomes / Nomes em ã / De coisas como rã e ímã /Nomes de nomes/ Como Scarlet Moon de Chevalier / Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé (...)". Caetano aludiu a um antigo poema seu, o "Spik (Sic) Tupinik" – misto de tupiniquim com beatnik – dedicado ao poeta udigrudi e fã do James Dean, Paulo Veríssimo, autor da película Juviada transventude. Fale-nos sobre esse fato e essa preocupação-crítica, referente à "evolução" do idioma português-brasileiro.

GM: Acho que, mais que a diferença entre língua falada e escrita, o que Caetano quis acentuar é a apropriação desta por aquela, ou seja, a "canibalização" do português lusógrafo pelo português americanófono – incluindo-se nesse contexto não só a tropicalização brasileira como o colonialismo cultural dos States. Em suma, aquilo que o Oswald já chamava de "antropofagia". Nesse departamento não há muito o que acrescentar: o idioma é um fenômeno dinâmico e sofre influência de barbarismos a todo momento. O que importa é a forma, o "jeitinho" com que se incorpora o barbarismo. Se o grau de adaptação é bem maleável, pode-se dizer, como no nosso caso, que a língua, em vez de perder personalidade, tem poder de interferir e alterar a fonte; caso contrário, como em Portugal, vive-se o dilema duma língua preservada mas que se isola. Quanto ao meu poema, é de 1977, anterior à canção de Caetano, mas foi inspirado na própria geléia geral que ele fez no tropicalismo. Caetano apenas retomou o que é dele, do qual sou subproduto, digamos, transgênico.

3. Ainda nos anos 80, você produziu ensaios rotulados de "desumanismo", que se tratavam de estudos sobre temas violentos, como os trotes estudantis e torturas em geral. Essa preocupação com os temas sociais, urbanos e humanos deve-se também ao fato da literatura ser um fenômeno sociológico?

GM: Tem a ver com isso, sem dúvida, mas antes de tudo a literatura é testemunho autobiográfico, caso contrário não será autêntica. No meu caso, interesso-me pela violência e pela crueldade porque fui vítima de abusos desde criança, quando outros moleques tripudiavam sobre minha deficiência visual e me submetiam a humilhações sexuais que me tornaram sadomasoquista inveterado. O importante é que a literatura (especialmente a poesia, mas o ensaio também abre espaço), ao invés de isolar a vítima em sua desgraça, torna-a porta-voz de outros injustiçados (humana ou divinamente) e faz da obra de arte um grito de alcance universal.

4. Você redescobriu e recriou os sonetos, recuperando o molde petrarquiano – poemas com dois quartetos e dois tercetos – uma das fórmulas poéticas mais antigas, e o intitulou de "barrockismo", presenteando-nos com essa técnica experimentalmente em tempos ditos pós-modernos. Como se deu esse processo? Reproduzir não pode ser uma forma de inovar?

GM: Existem duas maneiras de inovar, ou de transgredir um cânone (que, por outras palavras, implica inovação pela ruptura com o estabelecido): uma é fazer tábula rasa e liberar geral, como ocorreu em certos momentos da vanguarda durante o século passado; outra é retomar o modelo consagrado e subvertê-lo "por dentro", como faço, isto é, praticar a experimentação em todos os níveis (fonético, morfológico, semântico, sintático, metalingüístico) no limite da rigidez do molde estrófico, métrico e rímico. No caso do soneto, chamei o processo de "barrockismo" justamente para exprimir a infusão da contracultura e do fescenino, do underground e do preciosismo verbal, em suma, do chulo no luxo, como costumo dizer, mais que do lixo no luxo. Mas além do soneto tenho praticado esse tipo de transgressão "por dentro" também na glosa decimal, no cordel e noutros gêneros poéticos.

5. Em cinco anos de produção intensa, você completou o seu milésimo soneto com o "Soneto 1000 Amealhado", parte do livro As mil e uma línguas. O poema fala do Pelé. E o jornalista José Castello publicou, recentemente, a biografia do jogador. Houve uma coincidência ou influência? E por que o Pelé?

GM: A alusão é por causa do milésimo gol, mas também aludo ao famoso plano de progredir cinqüenta anos em cinco, do Juscelino. Não há dúvida, porém, que Pelé está o tempo todo em nossos corações e mentes, já que é (ao lado de Carmen Miranda) a maior glória da brasilidade. Falo dele também no soneto "Futebolístico" que o Italo Moriconi incluiu entre os cem poemas representativos do século passado.

6. Em sua fase atual, você se aplica à releitura de contos, numa profusão de sonetos-contos chamados de "transficcionismo". Seria uma superação da ficção? Uma nova vertente literária da modernidade?

GM: Menos. Esse ciclo de sonetos contados, ou contos sonetados, foi uma experiência que resultou num livro só de releituras de temas ficcionísticos, mas o poema narrativo nada tem de novidade. Eu quis apenas praticar a poesia em seu poder de síntese, desenvolvendo todo um argumento no reduzido espaço do soneto. Mas a ficção tradicional não fica fora dos meus planos, já que ainda faço conto e romance.

7. O seu livro Manual do podólatra amador, posteriormente vertido para HQ como As aventuras de Glaucomix, é chamado de "autobiografia-fictícia". Até que ponto você o considera real e imaginário? Existe a possibilidade dessa distinção?

GM: Toda obra de ficção tem base em fatos reais, e toda autobiografia tem algo de fantasioso. Meu livro tem mais de verídico que de verossímil, pois muita gente duvida que eu tenha realmente provado tudo de sujo que provei. Até o Millôr costuma dizer que ninguém é realmente tarado como eu passo por ser. Questão só de alguém me levar ao pé da letra, ou à letra do pé, para ser mais literal.

8. O fetiche é o que move o homem, dizem. E os seus são bem exóticos, como a tara pelos pés. Levando em consideração que os pés são o sustentáculo do homem e o seu meio de locomoção, além de guardar odores individuais e secretos, há uma relação – consciente ou não – de tentar atingir o cerne humano?

GM: A intenção inicial foi de testemunhar sobre minha atração pelo pé como instrumento de opressão e humilhação, já que passei por experiências desse tipo desde menino, mas todas as ilações decorrentes do simbolismo pedal/fálico (antropológicas, mitológicas, psicanalíticas, filosóficas, religiosas) são plausíveis e não as descarto. Agora mesmo há vários mestrandos doutorandos na área "psi" analisando a obra por esse viés.

9. Suas lexicografias, letras e traduções renderam-lhe o prêmio Jabuti de 1999, pela participação na "transpoesia" do escritor argentino Borges. A sua questão visual, de certo modo, aproximou-o de autores como ele, que enfrentaram a mesma situação?

GM: Bem, o prêmio foi só pela tradução, e foi atribuído a toda a equipe de tradutores do conjunto da obra de Borges. Tenho afinidades com ele, com certeza, mas também diferenças e divergências. Até escrevi um ensaio, "A negação do negro", para refutar alguns pressupostos que Borges levantara em seu ensaio "O elogio da sombra". Contudo, não resta dúvida que fui misticamente instigado pelo magnetismo de outros cegos ilustres, como Borges, Milton e Aderaldo.

10. Perder a visão aumentou ou alimentou o seu fluxo criativo, ao invés de o impedir ou desestimular, como foi o caso do escritor português Camillo Castelo Branco, que se matou por medo de ficar cego e não mais conseguir escrever?

GM: Camilo deixou uma quantidade assombrosa de livros, parecia um possesso por grafomania. Se ele se matou por medo da cegueira, o fez no devido tempo, o que respeito. Também planejei o suicídio antes de perder a visão, mas como ainda não tinha produzido o mínimo suficiente, talvez tenha sido por isso que protelei a morte e hoje continue desabafando contra a cegueira...

11. Não há dúvidas de que você enxerga muito e mais do que alguns por aí. Ver, para você, é diferente de enxergar?

GM: Diferente, no meu entender, é ficar cego de ser cego. Como cheguei a enxergar e li tudo que li, posso dizer que tenho condições de avaliar a realidade até melhor que quem não repara naquilo que vê. Mas nada alivia o trauma de temer a perda da visão desde a infância, coisa muito pior que nascer cego.

12. Você escreveu, em "Entrevista minimalista": " - É difícil fazer humor? / - Não. O difícil é não fazer humor. / - É difícil ser poeta? / - Ou é muito fácil ou é impossível". Você acredita que o verdadeiro escritor é aquele que não tem medo de dizer a sua verdade, como alegavam Hilda Hilst e Clarice Lispector?

GM: Acho que nem é uma questão de medo, mas de razão. O verdadeiro escritor é aquele que tem um motivo, eis tudo. Não adianta "inventar" um motivo: você tem que ter, como tenho e Hilda ou Clarice certamente tinham, uma pedra de verdade no sapato. Você pode rir ou chorar por causa dela, como queira. Mas a pedra tem que ser concreta, não abstrata. E digo mais: quem tem pedra no sapato sabe muito bem onde aperta o sapato alheio, daí a universalidade da obra literária.

13. Hilda Hilst, considerada uma poeta maldita, deixou-nos há pouco tempo. O que você pode nos dizer a respeito dela e sua obra?

GM: Sinto-me mais próximo dela quando encarnava uma Lory Lamby, mas não acompanhei sua carreira tão de perto que pudesse me identificar com todas as suas esquisitices. Só a encontrei uma vez, num debate na UNICAMP, mas pouco conversamos. Em todo caso, todos os malditos são da mesma família, por isso nossas relações são sempre incestuosas. Graças a Zeus, ou melhor, a Dionísio.

14. Uma pergunta engraçada: a palavra não dicionarizada "pedolatria", que você utiliza para definir aqueles que se atraem por pés – "pedo" de pés, em latim, e "latria" de adoração, em grego – não tem relação com o termo "pedofilia" – cujo "pedo" quer dizer criança, vindo do grego, e "filia", amor. Você não teme ser confundido, mesmo explicitando logo de início a diferença, em seu livro?

GM: O certo seria "podolatria", como uso atualmente, mas Caetano preferiria "pedolatria", porque é híbrida, como "sambódromo". Em todo caso, como foram os meninos que me curraram, posso dizer que não fui eu que corrompi as crianças, mas sim elas que me corromperam. Sou, portanto, vítima da "pedopodofilia..."

15. Qual a sua opinião quanto ao atual panorama literário no País e no mundo?

GM: Opinião de cego sobre o elefante: ora pego na orelha e penso que é leve; ora pego na pata e penso que é pesada; ora pego na tromba e penso que é enrolada; ora pego no rabo e penso que é fina; ora pego no dente e penso que é de ponta... Depende daquilo que estou manuseando no momento. Para ser franco, não me empolga muito o que faz um Saramago ou um Mago Paulo, por mais badalados e distintos que sejam. O que continua me empolgando é o que Zé Paulo Paes chamava de "veio subterrâneo", isto é, a tradição fescenina, sempre viva entre os cantadores e glosadores nordestinos, por exemplo, ou então a "veia exposta", isto é, o texto de cunho espirituoso e sábio (wit and wisdom), como aquele que faz o Millôr, oitentão mas em plena forma.

16. É necessário comemorar o Dia da Poesia?

GM: Acho que é tão necessário como comemorar o Dia do Cego. Dizem que essa data até existe, mas como ninguém nota, passa por inexistente. Para mim, o dia do poeta é o dia-a-dia, isto é, a produção incessante: nulla dies sine linea, como diziam os latinos.

17. Você é um artista dotado de personalidade, muito antenado com as mudanças e cheio de surpresas. Algum novo projeto em vista ou em andamento?

GM: Muitos, claro. Agora que terminei o ciclo de mil sonetos, estou me dedicando à glosa e ao cordel: ando até pelejando com poetas nordestinos, e vai sair um folheto meu em breve. Já cheguei a inaugurar o gênero "xibunguista" na poesia de cordel, para me contrapor ao "cabramachismo" dos cantadores. Paralelamente, estou escrevendo um romance, enquanto aguardo a publicação dos vários volumes de poesia, conto e ensaio que estão na minha gaveta ou na do editor...

Saiba mais sobre o autor Glauco Mattoso e sua obra nos endereços:

SÍTIOS PESSOAIS

http://glaucomattoso.sites.uol.com.br
http://formattoso.sites.uol.com.br
http://sonetodos.sites.uol.com.br

ORGANIZAÇÃO DO SÍTIO POÉTICO "SONETÁRIO BRASILEIRO"

http://planeta.terra.com.br/arte/PopBox/sonetario

PARTICIPAÇÃO EM SÍTIOS CULTURAIS

http://www.roteirosonline.com.br
http://www.sonetos.com.br
http://planeta.terra.com.br/arte/PopBox
http://www.tvcultura.com.br
http://www.futura.org.br
http://www.itaucultural.org.br
http://www.rottenrecords.com.br

COLUNISMO VIRTUAL

http://www.aartedapalavra.com.br
http://www.blocosonline.com.br
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Caso você queira dirigir alguma pergunta à coluna ou ao entrevistado, escreva para:
gilda.dieguez@ig.com.br