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EDIÇÃO 8 20 de março de 2004
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LANÇAMENTOS

Por Flávia França
Aluna do 4º. período do Curso de Letras
Campus Méier

OCTAEDRO
Julio Cortázar

Editora: Civilização Brasileira
Número de páginas: 128

Octaedro, publicado originalmente em 1974, é a obra mais madura do argentino Julio Cortázar. Composto por oito contos curtos, o livro apresenta o escritor no auge de sua criatividade. Fascinado pela capacidade de transformação da língua e dono de um senso crítico apuradíssimo, Cortázar trabalha com o mínimo de elementos formais. A idéia parte de um núcleo conhecido que leva o leitor a situações inusitadas, apostando no humor, no fantástico e no imaginário. Com essa fórmula, o autor fascinou jovens de várias gerações ao longo dos anos efervescentes da contra-cultura.

Julio Cortázar usa seu talento para rebelar-se contra a lógica impecável e a aparência coerente do mundo pragmático. Em cada um dos contos de Octaedro, o autor cria novas leis para depor o determinismo e a alienação impostos pela mesmice do cotidiano. O realismo fantástico está presente em todos os microcosmos e universos criados por Cortázar dentro de suas histórias. O real passa a ser interpretado como inseparável do imaginário, fazendo supor a existência de uma ordem desconhecida. Quase como se tivéssemos contato, de repente, com uma dimensão paralela.

Octaedro é um exemplo claro disso. E ganhou esse nome não apenas pelo número de contos publicados. É, antes de mais nada, o encontro de ângulos e linhas de um polígono de oito lados. A junção de várias realidades, de diferentes formas de enxergar o mundo. São mais que oito histórias. São oito realidades distintas, oito formas de alterar a linguagem, oito transgressões.

Uma única ação ocorre entre limites bem precisos e em nenhum momento os personagens, cujas motivações fogem às explicações mais lógicas, se perguntam sobre o porquê de tudo o que lhes sucede. Terminada a narrativa, um dos pontos fortes do livro – Cortázar sabe como poucos escolher e distorcer as palavras –, a incerteza permanece. O resultado deixa o leitor desconcertado. Não é à toa que Cortázar é cultuado pelos intelectuais: ele escreve como forma de provocar reações.

Julio Cortázar nasceu em Bruxelas em 1914. Foi educado na Argentina, país de origem de seus pais e cuja nacionalidade acabou por adotar. Após estudar Letras, trabalhou durante algum tempo como professor em áreas rurais do país. Em 1951, fixou residência definitiva em Paris, onde desenvolveu brilhante e prolífica carreira literária, iniciada com a publicação de Los reyes. Entres suas principais obras destacam-se Bestiário, Octaedro e 62 Modelo para armar. Julio Cortázar morreu em Paris, em 1984.

FOGO SOBRE A TERRA- A mentalidade medieval e o Renascimento
William Manchester

Editora: Ediouro
Número de páginas: 432

Fogo sobre a Terra, do renomado William Manchester, tenta mostrar como se deu a passagem da visão de mundo da Idade Média para o modo de entender a realidade do Renascimento e do humanismo. O autor escolheu o personagem de Fernão de Magalhães – o navegador português que, a serviço da Espanha, liderou a primeira expedição marítima a dar a volta ao mundo – como um dos centros de sua narrativa, como um representante da nova geração de homens que vão construir a Renascença.

A obra de Manchester é fascinante, traz belíssimas ilustrações e é dividido em três seções. Na primeira, o autor relata os acontecimentos que levaram ao fim da civilização clássica na Europa, o surgimento do cristianismo, a sua adoção como religião oficial do mundo romano, no reinado de Constantino, e a decadência que se seguiu e durou mais de mil anos. A invasão de povos de outros continentes, como os Hunos, pressionou os povos nômades europeus a atacarem e tomarem Roma. A nova cultura, antiintelectual e ascética, tem em Bernard de Clairvaux o seu primeiro grande representante, e em Santo Agostinho o seu mais importante pensador. Por volta de 1400 já está em curso uma grande transformação que levará ao Renascimento e lançará depois as bases do mundo moderno. É quando surgem homens como Leonardo da Vinci e Fernão de Magalhães.

Na segunda parte, o autor analisa, com maior profundidade, pessoas e correntes de idéias que criaram esse renascimento artístico, científico e cultural. Grandes nomes desse processo são estudados: Dante, Savonarola, Maquiavel, Michelangelo, Erasmo, Thomas More, Lutero, entre outros, até uma segunda transformação que se dá com Voltaire e os outros fundadores da cultura moderna. A terceira parte é dedicada a Magalhães e a sua aventura pioneira: a circunavegação da Terra; a viagem é descrita com detalhes, da difícil descoberta da passagem pelo sul do continente americano, o estreito de Magalhães, à morte do comandante nas Filipinas e a volta da expedição ao solo europeu.

O livro é um excelente guia para quem quer conhecer a cultura medieval e do Renascimento, entender como se deu a passagem de um pensamento limitado pelos cânones da igreja à grande vitalidade e criatividade da Renascença. Mas é o bom texto de Manchester que faz a diferença, e em vez de um estudo monótono, este é um livro que se lê como se fosse um romance de aventura.

William Manchester é professor de história da Wesleyan University. Renomado como jornalista, romancista e biógrafo, é autor de dezoito livros que foram traduzidos para vinte línguas. Ao escrever sobre Churchill e outras importantes figuras históricas, valeu-se da mesma paixão com que reconstruiu a vida e as idéias dos personagens de Fogo sobre a Terra, que teve mais de 200.000 cópias vendidas nos Estados Unidos e na Europa.

ASSASSINATOS QUE ABALARAM O MUNDO - Os crimes políticos que mudaram a História
Miles Hudson

Editora: Ediouro
Número de Páginas: 368

Assassinatos que abalaram o mundo, de Miles Hudson, é um estudo sobre a morte de líderes políticos com o objetivo de promover mudanças na sociedade. O autor analisa atentados fatais a diversas personalidades, e mais particularmente, a dezoito grandes líderes, relatando nestes casos um resumo da história da época, o papel das vítimas e dos agressores. Em quase todos os casos, o resultado dos atentados é inteiramente diferente do pretendido pelos criminosos, quando não o oposto do que eles queriam. O termo "assassino" vem de um grupo que se formou em torno de Hassan-i-Sabbah, por volta de 1094, na Pérsia e depois na Síria, Egito, e em outras regiões do mundo islâmico. Esses seguidores do "Velho da Montanha" matavam seus inimigos políticos e religiosos, espalhando o medo. A palavra "assassinos", de "ashishini", está assim associada à execução de personalidades como meio de ação política desde o início. As dezoito vítimas estudadas em maior detalhe são colocadas em grupos de dois e três, quando Hudson vê semelhanças entre as ações que levaram às suas mortes. Júlio César, que violou a lei romana com a passagem do Rubicon, e Tomás Becket, que foi intransigente com seu rei e amigo; Mahatma Gandhi, libertador da Índia pela não-violência, e Jesus Cristo, o subversivo criador de uma nova religião; Marat e Trotsky, revolucionários impiedosos; o Tsar Alexandre II, que emancipou os servos, e Lincoln, que lançou o país na guerra civil ao defender os escravos; Lord Cavendish, que buscava a paz na Irlanda, e o herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando; Sir Henry Wilson e Michael Collins, em lados opostos, vítimas do turbilhão do conflito irlandês; o rei Abdullah, da Jordânia, Sadat e Rabin, seus esforços pela paz valendo como condenação pelos radicais; e finalmente, Hendrik Verwoerd, um dos criadores do Apartheid, e Martin Luther King e Malcolm X, o filho do pastor e o rebelde da Nação do Islã.

Assassinatos que abalaram o mundo oferece muitas respostas aos que se interessam pelo passado e sua compreensão.

Miles Hudson serviu no Exército Britânico, incluindo um período junto ao Exército Russo na Alemanha Oriental. Tornou-se membro do Departamento de Pesquisa do Partido Conservador onde se tornou chefe do Departamento de assuntos Ultramarinos. Hudson foi secretário de Políticas Internas de Sir Alec Douglas no Foreign Office, de 1970 a 1974, acompanhando-o em suas muitas viagens pelo mundo. Desde então, tornou-se membro da comissão Hansard para a Reforma Eleitoral e da comissão Boyd para a Rodésia. Foi também diretor do Grupo Conservador pela Europa durante a campanha do Referendum de 1975. Hudson é o autor de Triumph or tragedy: Rhodesia to Zimbabwe (Hamish Hamilton, 1981) e co-autor, com Sir John Stanier, de War and the Media (Sutton, 1997). Atualmente, é fazendeiro em Hampshire.


MON COEUR BALANCE / LEUR ÂME / HISTOIRE DE LA FILLE DU ROI
Oswald de Andrade

Editora: Globo
Número de páginas: 296

Além de ilustrações de Tarsila do Amaral, o livro reúne duas peças teatrais, feitas em parceria com Guilherme de Almeida, e o projeto inédito de um balé, com cenários de Tarsila e música de Heitor Villa-Lobos. Todos os textos foram escritos originalmente em francês. Esta edição é bilíngüe.

O livro
Em 1916, Oswald se une à Guilherme de Almeida, poeta e primeiro modernista a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1930, ocupando a cadeira número 15. Juntos escrevem as peças Mon Couer Balance e Leur Âme.

"Entre nós dois, um raro entendimento da inteligência e da sensibilidade. Recíproca fascinação. Nele, o que eu mais admirava era a audácia, a irreverência, o gosto do imprevisto. Em mim, o que ele mais admirava seria, talvez, aquela minha admiração. Ora, desse comum acordo nasceu em nós a idéia irritante de 'fundar' o Teatro Brasileiro… em francês. E em francês, pelas mesas dos cafés, das cervejarias, das redações de jornais, em estrita colaboração e improvisação, escrevemos duas peças: Mon Couer Balance e Leur Âme", relata Guilherme de Almeida à Tribuna da Imprensa, em 1954.

Mon Couer Balance e Leur Âme revelam "um típico gesto pré-modernista, representativo das contradições existentes entre uma tradição simbolista-decadentista e uma vanguarda incipiente", observa Jorge Schwartz, supervisor editorial do livro, em sua nota introdutória. O livro integra o projeto da Editora Globo de relançar toda a obra oswaldiana até o final de 2004.


HISTÓRIA E LENDA DOS TEMPLÁRIOS
Tradutor: Maria Margherita De Luca

Editora Globo
Número de páginas: 128

Este é um livro que trata dos militares católicos mitificados durante a Idade Média e que tiveram ligações com o descobrimento do Brasil, a maçonaria e a Ordem Rosa Cruz.

Na virada do século XIX para o XX, o Ocidente experimentou uma espécie de retomada de uma série de ideais e ícones da Idade Média: cruzes, cavaleiros fantasiados, espadas e fidelidade à Igreja, à "tradição" e à "ordem". Enquanto a maçonaria difundia sua força, nasciam, então, várias sociedades secretas com inclinações bizarras e interesses ocultistas e teosóficos. Muitas delas eram instâncias místico-esotéricas e de reais suspeitas de iniciativas políticas relacionadas com a ideologia da direita. A Ku-klux-klan, por exemplo, manchou a história americana com o massacre de negros em nome da suposta superioridade da raça branca.

Na Europa, o industrial austríaco Karl Kellner criou a Ordem dos Templários Orientais (O.T.O.), que teve como figuras de maior destaque o ocultista Theodor Reuss e o mago Aleister Crowley, ambos ingleses. No clima cultural do Decadentismo, essa ordem estava principalmente interessada em experimentar a potencialidade da "magia sexual". Ao mesmo tempo, mantinha contatos com a alemã Ordem do Alvorecer Dourado, cuja filosofia aristocrática exaltava a seleção social e o "desejo de potência", com declarado desprezo pela democracia e suas instituições. Ligações com a direita também podem ser identificadas na história da Ordem Soberana dos Cavaleiros do Templo, na Itália; e na orientação dos novos Templários, uma seita alemã fundada pelo ex-frade Jorg Lanz von Liebenvall, que apoiou fortemente a obsessão hitlerista de pureza da raça.

Todas essas sociedades secretas tinham em comum, mesmo que distorcida, uma referência histórica: a Ordem dos Templários, fundada na época das cruzadas, por volta do ano 1.100. Também conhecidos como Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a entidade fora fundada por militares cavaleiros plenamente integrados ao sistema feudal como profissionais de guerra e que, por fidelidade ao comando da Igreja, assumiram uma nova identidade e foram colocados a serviço das causas nobres: a defesa da Europa cristã, a conquista da Terra Santa e a proteção contra a violência dos "infiéis" que atacavam os peregrinos visitantes dos locais sagrados. Assim, surgiu uma lenda marcada por batalhas, façanhas, poder e riqueza que continua a alimentar o imaginário ocidental até hoje.

Ancorados na determinação, na dedicação, na honra e na coragem, os templários fizeram da Ordem a mais respeitada das organizações fora dos domínios de Roma. Seu regimento estava centrado na figura do Grão Mestre, que exercia poder absoluto sobre seus comandados. Em pouco tempo, a Ordem se ramificou pelo continente europeu e chegou a acumular riquezas imensas, que incluíam grandes propriedades de terras. Tanto que, nos fins do século XIII e começo do seguinte, formou na França a parte mais rica e independente da aristocracia feudal. Essa situação privilegiada, no entanto, não demorou a despertar o temor dos governantes e o desejo de apoderar-se de suas grandes riquezas. A partir do século XIV, ocorreu a união de reis e do próprio papa para acabar com o que era o braço armado do catolicismo.

Os soldados templários foram acusados de crimes como idolatria, orgia e vícios "abomináveis". A obediência cega ao poder papal, no entanto, era tão intensa que eles não se rebelaram. Aceitaram o extermínio, embora tivessem um poderoso arsenal bélico, econômico e humano. Durante mais de cinco séculos, a Ordem do Templo deixou de existir como organização viva, apesar de surgir, de vez em quando, informações vagas sobre sua existência como sociedade secreta. Até que ressurgiu com relativa força na primeira metade do século XIX.

Os templários acabaram por estabelecer alguns vínculos com outros temas clássicos de sua época como heresia, bruxaria, magia, alquimia, o Graal e as catedrais góticas, que são abordados na edição. História e Lenda dos Templários mostra que a ordem dos cavaleiros medievais pode ter sido destruída, mas seus preceitos ainda têm seguidores em todo o mundo. Até hoje ainda há associações que se dizem descendentes da Ordem Templária – como a Ordem Rosa Cruz e a Franco-Maçonaria.

TEMPOS DE GUERRA
Steven Pressfield

Tradução: Manoel Paulo Ferreira
Editora: Objetiva
Número de páginas: 456

Um fascinante romance histórico de guerra e conflito na Grécia antiga

"Imbativelmente brilhante, épico, inteligente e tocante." - Kirkus Reviews

"Pressfield é um narrador magistral, hábil em suas descrições vívidas e abrangentes sobre as batalhas em terra e no mar, intrigas políticas e personalidades atuantes, que se unem em um intenso e verossímil retrato da Grécia antiga devastada pela guerra." - Publisher's Weekly

Em Tempos de guerra, o escritor americano Steven Pressfield, com a precisão histórica e a angustiante escala humana que fizeram de seu romance anterior, Portões de fogo, um best-seller internacional, cria uma saga ainda mais épica de guerra e conflito na Grécia antiga.

O tema deste livro é a guerra do Peloponeso, uma conflagração civil de 27 anos entre Atenas, Esparta e a Liga do Peloponeso, e a trajetória do seu principal personagem: o general Alcebíades.

Se a história é a biografia de homens extraordinários, a vida do general Alcebíades (451-404 a.C.) constitui um capítulo indispensável na crônica do mundo ocidental. Parente de Péricles, protegido de Sócrates, imortalizado por Plutarco, Platão e Tucídides, Alcebíades era reconhecido como a personalidade mais brilhante e carismática da sua época. Assim como o orgulho de Aquiles deu o rumo à guerra de Tróia, a força de vontade e a ambição de Alcebíades deixaram sua marca na guerra do Peloponeso.

Como comandante de terra e mar, Alcebíades nunca foi derrotado. O destino de Atenas e o de seu filho predileto estiveram inextricavelmente interligados. O homem e a cidade refletiam um ao outro em ousadia, ambição e vulnerabilidade. Aliados, colheram vitória após vitória. Distanciados, foram inimigos que se destruíram. Mas a reputação e a ruína do homem e da cidade permaneceram inseparáveis até o final.

Narrado pelo capitão de marinheiros de Alcebíades numa fascinante confissão de um homem condenado à morte, Tempos de Guerra é ficção histórica em seu melhor – um relato multidimensional e vívido de um dos conflitos cruciais da história.

Steven Pressfield é o autor do best-seller internacional Portões de Fogo, um romance épico sobre a batalha das Termópilas publicado em 2000, pela Objetiva; e de The legend of Bagger Vance. Ele mora em Los Angeles.

CALABAR - O ELOGIO DA TRAIÇÃO
Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra

Número de páginas: 118
Editora: Civilização Brasileira

Na década de 70, a dramaturgia nacional era alvo do mesmo patrulhamento que cerceava a liberdade de músicos, políticos, escritores, educadores e tantos outros. É nesse contexto que dois importantes artistas escrevem uma das páginas mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Exemplo de utilização da matéria histórica como instrumento gerador de reflexão, Calabar - O elogio da traição, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, é relançado pela Civilização Brasileira com novo projeto gráfico.

Calabar - O elogio da traição, escrito em plena ditadura militar – o que criou obstáculos à montagem da peça – é uma alegoria histórica que se passa na época das invasões holandesas em Pernambuco, no século XVII. Aborda a questão da lealdade e da traição, numa clara alusão à conjuntura política do período em que foi escrito. Inclui canções famosas de Chico Buarque, como "Anna de Amsterdã" e "Bárbara".

Com sensibilidade e inteligência, a peça amplia o debate ideológico de forma provocativa, irônica, quase caricatural. Os conceitos de traidor e traição, se subjetivos per se, tornam-se ainda menos palpáveis na obra de Chico e Ruy. Afinal, onde está a traição: nos mantenedores da ordem ou na rebeldia dos heróis? E quem são, de fato, os heróis e os vilões? Como escrevia Fernando Peixoto, em 1980, o texto de Calabar - O elogio da traição é "mal-comportado, e por isso estimula a elaboração de um espetáculo debochado, capaz de assumir a quase anárquica, mas organizada colagem e a justaposição de imagens e épocas".

"E se vocês rirem de mim,
Se eu for alvo de chacotas e chalaças,
Se for ridículo na jaqueta de veludo
Ou nas ceroulas de brim,
Ou porque falo tanto de caganeira e bacalhau,
É bom pensarem duas vezes, porque, ainda mesmo assim,
Com lombrigas dançando dentro da barriga,
Com a Holanda, a Espanha e toda a intriga,
Eu sou aquele que, custe o que custar,
Acerta o laço e tece o fio
Que enforca Calabar."

MISTÉRIO DA PÁGINA 19
Juarez Machado

Editora: Ediouro
Número de páginas: 40

Os livros de imagens ensejam múltiplas possibilidades de leitura. No Brasil, Juarez Machado é o pioneiro dessa modalidade literária; já lançou os premiados Ida e Volta, Limite, Emoções e presenteia o seu público leitor com o lançamento Mistério da Página 19, mais um livro sem texto, com belíssimas ilustrações do autor e excelente para despertar a criatividade do leitor.

Mistério da Página 19 mostra a trajetória de um casal "invisível", tanto em suas ações rotineiras, tomar café, tocar piano, etc., quanto numa aventura misteriosa e inusitada.

A narrativa vai se constituindo em dois planos, da junção de impressões digitais e das imagens, dando movimento à história e estabelecendo a seqüência narrativa.

Juarez Machado nasceu em 1941, em Joinville, Santa Catarina. Estudou na Escola de Belas Artes do Paraná, em Curitiba. Nos anos 70, participou ativamente na TV, onde atuou nas áreas de cenografia e mímica. Além de pintar, fez incursões pela ilustração, escultura, desenho e gravura. Juarez reside em Paris desde 1986 e tem exposto freqüentemente no Brasil, Europa e Estados Unidos.

UM CORAÇÃO MAIOR QUE O MUNDO
Ronald Polito

Prefácio: Melânia Silva de Aguiar
Editora: Globo
Número de páginas: 366

O livro demonstra que a obra do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga defendia a escravidão, a dominação colonial portuguesa, o absolutismo e valores típicos da sociedade de corte.

O livro
Dissertação de mestrado defendida em 1990, no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, Um coração maior que o mundo circulou em cópias xerox durante mais de uma década, entre especialistas e estudantes universitários. Agora resgatado para a forma de livro por iniciativa da Editora Globo, trata-se do mais completo e profundo estudo sobre a obra de Tomás Antônio Gonzaga realizado até hoje.

Ronald Polito empreende minuciosa e sofisticada análise dos principais escritos do famoso escritor nascido em Portugal, em 1744, e falecido em Moçambique, em 1810: o lírico "Marília de Dirceu", a sátira "Cartas chilenas" e o ensaio "Tratado de direito natural", além de alguns poemas dispersos. O leitor se surpreenderá com as conclusões de Polito. Normalmente associado ao inconformismo revolucionário da Inconfidência Mineira (1788-1789), o Gonzaga que surge da leitura de Um coração maior que o mundo é, no mínimo, contraditório. Embora revele adesão a princípios então emergentes, como a valorização do indivíduo perante o Estado e a sociedade ou a primazia do mérito sobre a linhagem, a obra do conjurado vê o Brasil apenas como colônia de Portugal, além de defender explicitamente o poder inquestionável do rei, o respeito à autoridade e aos dogmas da Igreja Católica, a escravidão, a plena submissão à lei, à hierarquia e à ordem.

Dividido em cinco partes, Um coração maior que o mundo – título que deriva de famoso verso de "Marília de Dirceu" ("Eu tenho um coração maior que o mundo!/ Tu, formosa Marília, bem o sabes:/Um coração..., e basta,/ Onde tu mesma cabes") – inicia-se com a descrição do próprio problema colocado pelo livro (Parte I): por que e como analisar a obra gonzaguiana? Segundo poeta mais lido em língua portuguesa no século XIX, perdendo apenas para "Os lusíadas", Tomás Antônio Gonzaga é um dos autores mais estudados do chamado "arcadismo". Portanto, Polito enfrenta um duplo desafio: lidar com a vasta fortuna crítica do poeta e, ao mesmo tempo, propor nova leitura dessa obra, complexa por sua natureza e heterogeneidade.

O esquema interpretativo construído por Ronald Polito resolveu a questão analisando o conteúdo das obras de Gonzaga quanto a quatro temas, todos muito caros à história social das idéias: "O sagrado" (Parte II), "A sociedade e a política" (Parte III), "Do público ao privado" (Parte IV) e "O tempo: a história e a poesia" (Parte V). Foi graças a essa divisão analítica que Polito chegou às conclusões inusitadas sobre o conservadorismo desse que foi um dos principais mentores da Inconfidência Mineira.

O BRUXO
Maria Adelaide Amaral

Editora: Globo
Número de páginas: 208

O livro
O universo humano e seus conflitos são a grande temática da obra de Maria Adelaide Amaral. O bruxo traz a história de Ana, uma poetisa em busca de um novo amor. Com o casamento de vinte e cinco anos já desfeito e os filhos criados, Ana se permite sonhar com alguém que a fará viver uma relação de plenitude. Aconselhada por amiga próxima, ela decide consultar um homem que, acredita-se, tem o poder de prever o futuro. Relutante em lhe dar crédito no início, Ana percebe que as revelações do bruxo sobre sua vida começam a se concretizar, e ela revisita os amores do passado, analisa a carreira e tenta auxiliar seus filhos a resolver suas angústias. Por fim, as decepções, as vitórias e a possibilidade de morte iminente fazem com que Ana tente pôr fim à sua própria inquietação, buscando um rumo novo para sua trajetória já marcada pela infância miserável, pelo abandono do pai e rejeição da mãe.

Recheado de situações corriqueiras, O bruxo desnuda a alma de uma personagem sensível, exibindo seu universo interior de dúvidas, expectativas e certezas. A complexidade de seus sentimentos mostra ao leitor uma personagem profundamente vulnerável e solitária, porém esperançosa.

Trilhando ainda pelos caminhos do esoterismo e da astrologia, Maria Adelaide Amaral se firma como brilhante romancista com O bruxo, explorando a alma humana como ninguém.

A crítica
Agraciada com o prêmio Jabuti por seu romance de estréia, Luísa – Quase uma história de amor, Maria Adelaide Amaral retornou à literatura com O bruxo cercada de grande ansiedade por parte de seu público e da crítica especializada. Para Maria Isabel Borja, do Jornal do Brasil, Luísa e O bruxo refletem a crise de uma geração. A mestre em literatura ressalta ainda que "o talento da autora volta a manifestar-se na capacidade de colocar de pé uma história onde se coordenam dezenas de eventos e criar diálogos fluentes".

GRAMÁTICAS DA CRIAÇÃO
George Steiner

Tradutor: Sérgio Augusto de Andrade
Editora: Globo
Número de páginas: 368

George Steiner, um dos mais respeitados ensaístas contemporâneos, questiona o sentido da criação nas artes e no pensamento ocidentais

O livro
Platão escreveu certa vez que a origem é a mais perfeita de todas as coisas naturais e humanas. Antes de surgir o universo, as estrelas, o sistema solar, a Terra e o homem, havia o nada. Mas por que o nada não continuou "existindo"? Ou, ao contrário, o que teria provocado o surgimento da matéria e, em seguida, da vida? Num outro estágio, o da civilização humana, o que motivou a criação das matemáticas, da filosofia e das artes em geral – música, arquitetura, pintura, literatura? Qual, enfim, o sentido da criação? Com questionamentos instigantes assim e que fazem pensar, o conceituado teórico franco-americano George Steiner reflete intensamente, em Gramáticas da criação, sobre o conceito de criação no pensamento ocidental, na literatura, na religião e na história.

O livro é considerado a obra mais radical de um dos mais sofisticados e respeitados ensaístas e críticos literários da atualidade. Steiner, hoje com 74 anos, faz uma reflexão sobre as diferentes maneiras por meio das quais se fala da criação e qual o seu sentido. Suas indagações incluem o significado da criação, em última instância, e de que modo esse processo na arte pode se comparar à formação do mundo. "Nossa natureza é dominada por uma sede enorme de explicações e de causalidade. O tempo todo queremos sempre saber: por quê? Que hipótese concebível pode elucidar uma fenomenologia determinada, uma estrutura da experiência vivida tão difusa e variada em suas expressões como a da 'terminalidade'?", observa.

A obra resultou de uma série de conferências de Steiner para turmas de doutoramento em Literatura Comparada durante um quarto de século na Universidade de Genebra. A partir da análise da Bíblia, das obras de Platão, Dante Alighieri, Marcel Proust, indo do hip hop à Internet, ele reafirma a presença de Deus na arte e no pensamento. Chega a se perguntar se haverá algum dia filosofia, literatura, música e arte de importância que tenham sido inspiradas pelo ateísmo. Na sua opinião, é bem provável que toda arte, no fundo, seja mesmo um diálogo com Deus.

O autor conclui que é difícil acreditar que a história do Gênese tenha terminado. "O jogo e as interações entre a 'criação' e a 'invenção' sempre foram parcialmente subjetivos e maleáveis". Ele ressalta que, para Alexander Pope, a "invenção" representa a maior capacidade do homem, um atributo semidivino:

O homem está ingressando numa cultura planetária marcada por uma hierarquia de valores cada vez mais dominada pelas ciências e por sua aplicação tecnológica. "Na medida em que conhecimento gera conhecimento, as ciências encontram-se num estado de perpétuo progresso. É precisamente o caráter ilimitado desse desenvolvimento – só a extinção da mente humana poderia impedi-lo – que está substituindo a categoria e os símiles do infinito que caracterizaram o Deus de São Tomás e Descartes." Em termos de energia intelectual, prestígio social, recursos econômicos e produção prática, as ciências e a tecnologia podem contar com um futuro ilimitado.

ANTROPOLOGIA CULTURAL
Franz Boas

Editora: JORGE ZAHAR
Número de páginas: 110

Antropologia Cultural é o primeiro livro publicado no Brasil com textos de Franz Boas, um dos mais importantes antropólogos de todos os tempos. Ele foi o fundador da moderna antropologia cultural, que contrapunha as teorias evolucionistas e racistas ainda dominantes no início do século XX a uma perspectiva relativizadora, centrada na noção de cultura. Foi também um dos pioneiros da pesquisa de campo como método privilegiado para o estudo das diferentes culturas. Nascido na Alemanha em 1858, Boas mudou-se para os Estados Unidos em 1886, onde passou a atuar tanto na pesquisa quanto no ensino da antropologia. Também desempenhou um papel público importante na luta contra o racismo e a favor da liberdade intelectual. Formou uma importante geração de antropólogos americanos, como Alfred Kroeber, Edward Sapir, Robert Lowie, Ruth Benedict, Margaret Mead e Melville Herskovitz. A influência de suas idéias fez-se sentir no Brasil principalmente na obra de Gilberto Freyre, que afirmou, no prefácio do clássico Casa-grande & senzala, de 1933, que a obra de Boas o ajudara a se libertar da visão negativa sobre a mestiçagem, então considerada um problema da formação social brasileira. Os cinco ensaios traduzidos em Antropologia Cultural fazem parte da coletânea Race, Language and Culture, organizada pelo próprio Boas e publicada em 1940, dois anos antes de sua morte.

"Certamente trata-se de um livro que será de grande utilidade, não só pela importância dos textos na história da antropologia, mas sobretudo como conjunto de reflexões de grande atualidade para a ciência social contemporânea."
Gilberto Velho, diretor da coleção Antropologia Social, no texto de orelha de Antropologia Cultural

A ESCOLA VAI AO CINEMA
Inês Assunção de Castro Teixeira e José de Sousa Miguel Lopes

Editora: Autentica Editora
Número de páginas: 220

Esta obra lança um novo olhar sobre a educação por meio do cinema. Os trabalhos nela reunidos refletem sobre filmes que inspiram temas relativos às múltiplas dimensões da educação: seus significados e alcances; seus sujeitos e práticas; os espaços e processos educativos, dentre outros. Esta coletânea apresenta, também, reflexões a respeito da diversidade e das discriminações que ainda ocorrem nas escolas.
"Este livro nasce de nossos afetos, de nossas paixões, diríamos. Mas nasce também de nossas preocupações, compromissos e de uma certa compreensão sobre a Educação e os processos educativos. A Educação, a entendemos como uma complexa e delicada arte de tecer vidas e identidades humanas, fazendo fruir as capacidades lógico-cognitivas, estético-expressivas e ético-morais existentes, potencialmente, em cada criança e em cada jovem. Sabemos, ainda, que os educadores também devem ser educados, desenvolvendo tais capacidades e sensibilidades, para bem realizarem seu oficio e responsabilidade histórica e social. E como fazer fruir a experiência estética e a sensibilidade dos educadores, para que as fecundem em nossas crianças e jovens, sem nos lembrarmos do cinema, aqui entendido como manifestação artística e não somente como parte da indústria cultural?

Sumário:
PRIMEIRA PARTE - Preconceito, discriminação, intolerância e escola

Adeus, meninos: um discurso contra o esquecimento
Billie Eliot ou, na dança, o cisne
Os múltiplos sons da liberdade
Usando Gattaca: ordens e lugares; o Bicho de sete cabeças ou de como elas estão fazendo falta
Infâmia

SEGUNDA PARTE - Imagens e enredos da escola, seus sujeitos e contextos: crianças, jovens, professores e famílias

O jarro: uma metáfora do professor?
Uma celebração da colheita
O carteiro, o professor e o poeta
Filhos ou órfãos do paraíso?
Nas cartas, nos enredos, fragmentos do Brasil
Reinventando diálogos, vínculos, razões e sensibilidades
Quando tudo começa

TERCEIRA PARTE

Referências e indicações
Ficha técnica, sinopse, dados biográficos e filmografia dos diretores.
Sugestões de atividades a serem desenvolvidas a partir dos filmes e dos textos
Referências sobre cinema o Indicações de sites sobre cinema

Inês Assunção de Castro Teixeira
Doutora em Educação e professora da Graduação e Pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG. É pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Profissão Docente da FaE/UFMG e do Programa de História Oral do Centro de Estudos Mineiros da Fafich/UFMG.
E-mail: inestei@uol.com.br

José de Sousa Miguel Lopes
Doutor em Filosofia e História da Educação; professor-visitante do UNILESTE/MG.

CINEMA & EDUCAÇÃO
Rosália Maria Dua

Editora: Autentica Editora
Número de páginas: 128

Cinema como um aliado da educação
Publicação voltada para pessoas que se interessam por educação, cinema e temas relacionados com a teoria e a prática educacional.

Neste livro, a autora analisa como o cinema contribui para desenvolver a chamada "competência para ver", analisar, compreender e apreciar tudo o que é contado em linguagem cinematográfica. É um livro que acaba por ser fruto das experiências da autora com o cinema, tanto como espectadora, pesquisadora e professora.

Cinema & Educação reflete sobre a competência humana de compreensão dos filmes. Diz ainda que tal compreensão não é adquirida apenas assistindo, mas também através de uma atmosfera cultural em que as pessoas encontram-se imersas, lhes permitindo desenvolver meios para lidar com outros produtos culturais.

O livro traz ainda o capítulo, "Cinema na escola", que fala sobre o relacionamento, cada vez mais harmonioso, entre o cinema e a escola, cujos discursos são mais ou menos articulados, mesmo porque o cinema vem falando da escola há algumas décadas. Fala ainda da forma idealizadora, ou muito crítica, de como as escolas são retratadas no cinema, que traz para a tela problemas e dilemas que acontecem dentro delas. Relata o porquê da caracterização dos professores como seres de espírito missionário, dedicados e corajosos, que acaba por tornar tal representação desprovida de sentido. Na verdade, boa parte das produções nesse campo reflete e reforça uma visão romântica e conservadora do ambiente escolar.

Sumário
Apresentação
A pedagogia do cinema – o breve painel de história do cinema
Notas sobre uma linguagem
O espectador como sujeito
Cinema na escola
Filmes como objeto de pesquisa em educação
Sugestões de leituras e sites
Referências bibliográficas

Rosália Duarte é professora do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPG-Educação), Linha de Pesquisa Processos Culturais, Instâncias de Socialização e a Educação, da PUC-Rio.
Graduou-se em Psicologia. Obteve o grau de Mestre em Educação, o interesse pelo estudo de processos pedagógicos que se verificam nos diferentes setores dedicados à produção cultural, sobretudo os que têm lugar no mundo do cinema, levou-a a buscar o doutoramento. Obteve o título de Doutora em Educação no início de 2000, com uma tese sobre o aprendizado não-formal do fazer cinematográfico entre diretores e técnicos de cinema brasileiros. Atualmente, vem estudando os processos de apropriação e significação de imagens fílmicas pelos espectadores, bem como o papel desempenhado pelo consumo de filmes na formação geral de estudantes universitários. Orienta um grupo de pesquisa com alunos de graduação, mestrado e doutorado que se ocupa em estudar e compreender as relações entre filmes e a construção de valores morais entre jovens, numa perspectiva que combina os pensamentos de Piaget, Freud e Puig, no que diz respeito à aquisição de valores, com as contribuições de autores que se dedicam ao estudo da mídia e da recepção na América Latina, como Canclini, Orozco e Martín-Barbero. Publicou artigos sobre o tema em periódicos da área de educação e escreve, regularmente, sobre cinema e educação para a revista virtual Mídia e Educação, hospedada no site da Rede Brasil.

VINTE POEMAS DE AMOR
Pablo Neruda

Editora: José Olympio
Número de páginas: 80

Vinte poemas... constitui o momento efetivamente inaugural da poesia de Neruda, porque é nele que, pela primeira vez, a sua linguagem poética alcança a unidade profunda entre a contenção retórica e a riqueza vocabular que definem o melhor de sua obra.

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