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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE LÍNGUA E DIALETO
NA VISÃO DE SÍLVIO ELIA

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras (Licenciatura / Português / inglês), pela Estácio de Sá em 2002. Atualmente, matriculado no curso de especialização em Língua Portuguesa da UERJ, no qual desenvolve o projeto monográfico "Uma abordagem estilística no conto de Machado de Assis, A Cartomante".

Língua-estrutura e língua-instituição

As línguas não são apenas estruturas, visto que tais estruturas não apareceram por acaso. Deve-se o seu surgimento às virtualidades psicofísicas do homem, condicionado histórica e geograficamente e pertencente a um contexto social. Pode-se, portanto, investigar a realidade lingüística, considerando a língua como estrutura ou como instituição, situando-a, ainda, numa perspectiva sincrônica ou diacrônica.

A distinção estrutura versus instituição não é recente. Já nos apontamentos lingüísticos de Saussure se fez presente e, em Halliday, aparece na frase em que diz ter estruturado a língua como sistema e língua como instituição, reduzindo-a, como instituição, a dois ramos: dialeto e registro. Enquanto o dialeto varia de acordo com o usuário, o registro varia de acordo com o uso.

Expandindo mais essa visão, considera-se, além da variação, a unificação da língua, ou seja, sendo objeto da sociolingüística a língua como instituição, tem-se o binômio unidade/variedade. Há, no entanto, uma relativização dos termos, visto que, dependendo do ponto de vista, o que é unidade pode ser variedade e vice-versa. Por conseguinte, o dialeto é unidade quando se pensa as variedades que comporta – os subdialetos, por exemplo – e variedade da língua que o especifica: dialeto do italiano, do português etc.

Mas a discussão não pára no dialeto, porquanto uma pessoa não se expressa da mesma forma nas diferentes faixas etárias da sua existência e, tampouco, mantém o registro que possuía antes da escolarização, visto que o progresso intelectual estimula a escolha de registros mais formais em determinados contextos sociais.

E a unidade que varia; segundo Silvio Elia, precisa, ainda, ter uma dimensão coletiva, porque se vincula à comunidade lingüística.

Comunidade lingüística

Segundo Bloomfield:

Uma reunião de pessoas que usam do mesmo sistema de sinais lingüísticos é uma comunidade lingüística. (ELIA:2000, 7).

Ou:

Uma comunidade lingüística é uma reunião de pessoas que interagem por meio da linguagem. (ELIA:2000, p.7).

Segundo Joshua Fishman:

Por uma comunidade lingüística se entende aquela cujos membros participam pelo menos de uma variedade lingüística e das normas para o seu uso adequado. (ELIA:2000,7).

Associados sistema e norma, Gumpertz conceitua que:

Comunidade lingüística é um grupo social que pode ser monolíngüe ou multilíngüe mantido coeso pela freqüência de padrões de interação social e separado de áreas vizinhas pela insuficiência dos meios de comunicação. As comunidades lingüísticas podem consistir em pequenos grupos interligados por um contato face a face ou ocupar largas regiões, tudo dependendo do nível de abstração em que nos situamos. (ELIA:2000,7).

E, finalmente, Labov diz:

A comunidade lingüística define-se menos por um acordo explícito em relação ao emprego dos elementos da língua do que por uma participação num conjunto de normas comuns. Essas normas podem ser observadas ou em tipos abertos de comportamento susceptíveis de avaliação ou pela uniformidade de padrões abstratos de variação, que são invariantes no respeitante a níveis particulares de uso. (ELIA:2000,7).

Passando por outras definições de não menos ilustres autores, chega-se à conclusão de que comunidade lingüística é todo e qualquer grupo humano que utiliza um código verbal comum, imposto pela impossibilidade de ser exclusivo. E tal imposição se dá mediante normas que atuam como solidariedade social e força de coesão do código lingüístico.

Língua e dialeto

Língua e dialeto são as duas espécies de falar que têm ocupado, desde muito outrora, a atenção dos lingüistas, tendo com problema principal o estabelecimento de diferenças entre os citados conceitos.

Embora seja uma longa discussão, há que se considerar que dialeto é um termo herdado da velha Grécia, onde significava conversação, maneira de falar e, mediante uma extensão de significado mais recente, maneira própria de falar de determinada região.

Na verdade, na Grécia antiga, o termo referia-se mais especificamente à língua escrita e, só a partir de Alexandre, O Grande, da Macedônia, o dialeto começou a se afirmar como a língua geral daquele grande império que se estabeleceria. Mais tarde, viria a ser a língua comum de toda a Grécia, tornando-se a base do grego medieval e moderno.

Não houve, no entanto, a rigor, dialetos na Idade Média no sentido de oposição à língua; contudo, a língua escrita distinguia-se em diversos pontos da língua oral. Paralelamente, ao latim culto desenvolvia-se um latim falado cada vez mais distante da forma escrita do latim universitário. Houve também uma diversificação do latim oral por regiões, caracterizando uma força centrípeta à unidade lingüística. Deve-se, portanto, aos falares românicos, dessa forma, diferençados, a denominação dialetos em conformidade com a concepção de Hockett.

Conceituando-se modernamente o dialeto mediante a concepção popular, o termo é tido como uma forma corrompida da língua culta, na qual a transformação se processa mais por força das diferenças socioletais do que das dialetais propriamente, porquanto o dialeto apresenta igualmente variedades de cunho social.

Do ponto de vista diacrônico, segundo Meillet, os dialetos são ramificações evolutivas e independentes de uma mesma língua, que seria a raiz dessas ramificações, sem inferioridade – mas equivalência – em relação à língua de origem. E, a fim de se estabelecer distinção entre os dialetos, deve-se recorrer à função histórico-social que os investem.

Como são revestidos de potencialidade para cumprir qualquer função lingüística, está, exatamente no grau dessa potencialidade, o maior fator para se estabelecer distinção entre língua e dialeto. Em oposição aos dialetos, as línguas servem para exprimir a vontade dos Estados organizados nacionalmente e, portanto, recebem maior prestígio social. Não obstante, o que é sobretudo mais importante, nessas considerações, concentra-se no fato de que, no decorrer do tempo, as línguas acumularam um patrimônio cultural que abrange o campo das ciências, das artes, das letras; enfim, do progresso intelectual, diferindo das variedades dialetais que nada acumulam nesse sentido. Cumprem as línguas, portanto, uma função de cunho cultural, tornando-se essenciais àqueles que procuram ultrapassar os limites da condição genuinamente própria de ser humano.

Avaliadas as peculiaridades da língua, pode-se considerar dois aspectos na formulação do conceito moderno de dialeto: o interno – aspecto estrutural que vê a língua em si mesma – e o externo – que mostra a língua como entidade histórico-cultural. O dialeto é, por conseguinte, internamente, uma estrutura e, ainda, um sistema de valores, que o enquadra no mesmo plano, como objeto de estudo científico, de qualquer língua existente, caracterizando, assim, um aspecto interno sincrônico. Por outro lado, referindo-se a um aspecto interno diacrônico, segundo Meillet, o dialeto "é a evolução independente de uma língua comum anterior" (ELIA:2000,13). E tal caráter diacrônico explica as similaridades estruturais, no plano sincrônico, entre os dialetos, levando certos lingüistas a afirmar que há um traço distintivo da variedade dialetal que vem a ser a mútua inteligibilidade, cuja comprovação nem sempre é possível, quando se verificam os dialetos de áreas não-adjacentes. Conseqüentemente, tem validade o critério da inteligibilidade, quando se relaciona ao aspecto diacrônico do estudo, funcionando, numa aplicação sincrônica, precariamente.

O dialeto em relação à língua, do ponto de vista histórico-social, é uma variedade subordinada, enquanto a língua, em contrapartida, é uma variedade superordinada, segundo Haugen. Cabe, aqui, ainda, a observação de que comumente se diz que há um dialeto de uma determinada língua; contudo, não se pode dizer que há uma língua de um determinado dialeto. E, de acordo com o Professor Paiva Boléo, deve-se igualmente enfatizar a distinção entre dialeto de e dialético + gentílico, como se vê em dialeto do chinês e dialeto chinês. Melhor elucidando, sabe-se que o mirandês é um falar leonês praticado em território português; contudo, o mirandês não é um dialeto português, mas um dialeto de Portugal.

Outra característica de difere o dialeto da língua é que alguns são ágrafos, como os facilmente encontrados na África, embora as línguas nativas, assim permaneçam consideradas, mesmo após o contato com a forte influência dos superstratos português, francês e inglês. E se, entretanto, uma dessas línguas nativas obtiver uma notável generalidade sem, todavia, impor-se como língua nacional, haverá uma situação de diglossia mas não de língua/dialeto.

Findas as explanações sobre língua e dialeto, Sílvio Elia apresenta as suas próprias definições, encerrando esse breve estudo que introduz a obra A Língua Portuguesa no Mundo:

Dialeto: falar de uma comunidade, parte de uma comunidade maior, com cujo falar mantém afinidades estruturais, praticado geralmente sob a forma oral e não reconhecido por um Estado como forma de comunicação em suas relações internas e externas. (ELIA:2000,15).

Língua: falar de uma comunidade, estruturalmente diferenciado, portador de apreciável tradição cultural e reconhecido oficialmente por um Estado como forma de comunicação em suas relações internas e externas. (ELIA: 2000,15).