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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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TIO VÂNIA

Francisco Malta
Ator e aluno do 6º período de Letras
Campus Rebouças

Tchecov tem sido um dos autores estrangeiros mais encenados no Brasil, com grande aceitação por parte do público. Nascido na Rússia, foi médico, ator, encenador e autor, deixando abundante legado literário à humanidade.

Escreveu sobre a vida cotidiana da classe média de seu país. Neto de um servo liberto, o russo Anton Tchecov (1860-1904) passou metade da sua existência na pobreza. Bravamente, tentou estudar Medicina. De todo modo, adorava a literatura e, em 1887, obteve o seu sucesso inicial com a peça Ivanov. As próprias agruras, obviamente, marcaram a sua obra, repleta de tipos amargurados, personagens de enorme densidade psicológica. Dez anos depois, em 1897, Tchecov escreveu TIO VANIA e o seu texto, imediatamente, se transformou num clássico da dramaturgia universal.

A obra de Tchecov é profundamente melancólica. Tédio, vazio e falta de sentido corroem a alma de quase todas as personagens, cujas ilusões são desfeitas no dia-a-dia, na banalidade em que tudo (amor, ideal, busca do prazer ou do triunfo) se converte. A vida, no campo ou na cidade, nas províncias ou na capital, é sempre a mesma: comum, medíocre, desalentadora. Não importa se os protagonistas das narrativas são aristocratas ou burgueses, funcionários ou artistas, operários ou camponeses, homens ou mulheres: o que os aguarda é a mesma tristeza miúda, o mesmo bocejo, a mesma amargura. Um véu cinzento cobre a tudo e a todos.

Apesar disso, como observaram vários estudiosos, sobra em Tchecov um núcleo de compaixão pelos seres humanos que confere a seus textos uma doçura e uma beleza insuperáveis. É literatura das maiores que já se fizeram em qualquer época.

Em cartaz no teatro João Caetano, um dos clássicos do autor. Tio Vânia conta a história de uma família, liderada pelo próprio Vânia (Diogo Vilela), quarentão que mora numa fazenda próxima de uma aldeia da Rússia. Vânia faz o que pode para sustentar Serebriakov (Rogério Fróes), viúvo de sua irmã, um professor a quem devota integral admiração. Serebriakov consome as suas horas, solitário, até conhecer a bela Helena (Débora Bloch), com quem decide se casar e se mudar para a fazenda da família.

A convivência mais próxima demonstra a Vânia que o professor não vale a sua idolatria, muito menos o seu esforço. Pior, o Tio também se apaixona por Helena, que o rejeita. No ritual do chá diário, único momento em que, enfim, as pessoas encontram a sua harmonia e o seu equilíbrio, resta a Vânia se consolar e repensar a sua existência desperdiçada.

Quanto ao elenco, destacam-se Diogo Vilella, excelente como Tio Vânia; Bel Kutner rouba as cenas como Sônia: a atriz tem um monólogo final belíssimo, embora seja de um catolicismo irritante. Sonia tem complexo de feiúra e possui um amor reprimido. Debora Bloch optou por uma atuação mecânica, desfila pelo palco, atropela as intenções, acredita-se não ter assimilado a proposta do texto de Tchecov, o que podemos lamentar. Mas não é nada que comprometa o conjunto do espetáculo, pois o grande mérito desse texto é o espectador poder sair do teatro e refletir, como de fato deve ser toda boa proposta de dramaturgia, para não terminar no boteco da esquina ou na pizzaria Guanabara. É um texto denso para mexer com os fantasmas adormecidos, para ficar de bode preto e confortar seu desespero silencioso.


Bel Kutner

Débora Bloch

Diogo Vilella

E-mails para a coluna:
franciscomalta@hotmail.com