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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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PROCÓPIO FERREIRA

Francisco Malta
Ator e aluno do 6º período de Letras
Campus Rebouças

Procópio Ferreira, ou melhor, João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 8 de julho de 1898. Seus pais, Francisco Firmino Ferreira e Maria de Jesus Quental Ferreira, eram portugueses, da Ilha da Madeira.

Ele foi o ator que mais popularizou o teatro, nas décadas de 30, 40 e 50, além de ajudar a desenhar o panorama da cultura brasileira. Aos 18 anos, Procópio desistiu da faculdade de Direito, logo no início do curso, e ingressou na Escola Nacional de Teatro do Rio (também conhecida como Escola Dramática Municipal), dirigida por Coelho Neto, o que lhe valeu a expulsão de casa, com a roupa do corpo. Foram tempos difíceis, em que teve de trabalhar como moço de recado, almoçava e jantava uma xícara de café com leite (a famosa "média") e pão com manteiga. Mas formou-se em 1919, tendo se dedicado ao estudo de todos os gêneros, sem distinção, embora a maior repercussão tenha vindo pelos trabalhos na comédia.

O início dessa promissora carreira deu-se em 1917, quando estreou nos palcos, na Companhia Lucília Peres, com a peça Amigo, mulher e marido, no teatro Carlos Gomes, usando o nome de João Ferreira; logo acabou aceitando sugestões para adotar um nome "mais expressivo" e escolheu Procópio.

Procópio viveu peripécias para ingressar no circuito de teatro e trabalhou em várias companhias, mas foi na de Abigail Maia, no Trianon, que obteve o seu primeiro grande sucesso, fazendo o papel de Zé Fogueteiro, na peça A Jurity, de Viriato Correia. Este era o tempo de estrelas, como Itália Fausta e Leopoldo Fróes, ídolos desse ator atrevido e baixinho. Em 1924, fundou a sua própria Companhia, que logo veio a se firmar como uma das principais do País. Foi quando, então, começou a disputar com Leopoldo Fróes a preferência do público.

Início de carreira - 1930

Foi bem antes de fundar a sua Companhia que, em 1921, conheceu a bailarina espanhola Aída Izquierdo, vinda de uma família de artistas ligados ao mundo do circo e da ópera (seu nome, Aída, vem da heroína de Verdi) residente na Argentina (nessa época ele tinha apenas 23 anos). Em 23 de outubro casaram-se; em 1922 nasceu Abigail Izquierdo Ferreira – a nossa talentosa e carismática Bibi Ferreira – que iria estrear no palco com 24 dias de nascida, substituindo uma boneca que havia desaparecido na hora da encenação da peça Uma manhã de sol, de Oduvaldo Viana, no Teatro Apolo, no bairro paulistano do Brás. Mais tarde, Procópio viria a se separar de Aída, vindo a casar-se com Norma Geraldy, também atriz.

Procópio em Deus Lhe Pague, de Joracy Camargo (1933)

A consagração definitiva de Procópio veio em 1933, representando um mendigo na comédia de Joracy Camargo, Deus lhe pague, montada pela primeira vez no Teatro Serrador, na Cinelândia, Rio de Janeiro, que passou a ser o carro-chefe de seu repertório. A peça foi encenada por Procópio durante 40 anos, por todo o Brasil, registrando a marca de 3.621 montagens, no Brasil e na Europa. A peça fala de João-não-tem-de-quê, falso mendigo que, na verdade, morava numa casa luxuosa. A peça ficou em cartaz até o ano de 1968.

Procópio em A Esperança da Família, de Alfredo Mesquita (1936)

Em 1935, ele fez uma excursão de sucesso em Portugal, confirmando o seu talento para o teatro. Mas antes disso, no início de sua carreira, enfrentou críticos furiosos, falências, fome, preconceito e inveja, até começar a se firmar como uma referência para o grande público. Não por acaso, o ator decidiu firmar 1936 como um divisor de águas em sua trajetória. A partir daí, foram mais de 400 peças (alguns falam em 422; outros, em 450; há, ainda, os que falem em 461), de todos os gêneros, desde a revista até a tragédia grega, em 15 mil apresentações.

Foram 62 anos de carreira, entre teatro e cinema, lançando importantes autores brasileiros – foi o que lançou o maior número de autores na história do teatro brasileiro –, tendo sido também responsável pelo início da difusão cultural no País, levando a sua Companhia de Teatro por todo o Brasil. Tinha prazer e orgulho em lançar novos autores e foi responsável pelas primeiras montagens de textos de Manuel de Nóbrega, Amaral Gurgel, Alfredo Mesquita. Um dos nomes que ele ajudou a construir, entre tantos, foi Dias Gomes: o dramaturgo que aos 15 anos já havia lançado A comédia dos moralistas (prêmio do Serviço Nacional do Teatro) e, em 1943, assinou contrato de exclusividade com Procópio, que passou a encenar os seus textos.

Procópio em O Avarento, de Molière (1969)

Foi, sem dúvida, o ator mais popular por décadas e, entre os seus sucessos, estão O interventor, O avarento, de Molière, A Capital Federal, de Artur Azevedo, Esta noite choveu prata, de Pedro Bloch. A sua popularidade era tanta que chegou a fazer 18 apresentações por semana. Na verdade, ele tinha carisma e a medida certa do que podia proporcionar ao público, que correspondia lotando os teatros.

Dos palcos, ele assistiu a revoluções sociais e estéticas, mantendo-se firme no propósito de criar o que entendia como uma estética genuinamente brasileira. Muito da crítica a ele dirigida baseia-se no "oportunismo", que viria acompanhado de nenhum esforço pela renovação dos processos em seu teatro. A crítica se funda, principalmente, nas oportunidades que surgiam para o ator, como, por exemplo, o convite feito por Louis Jouvet que, tendo visto a sua interpretação em Médico à força, de Molière, o chamou para trabalhar com ele em Paris, no papel de Sganarelo, em Don Juan.

Se a crítica tem procedência, ou não, cabe salientar que é a Procópio que o Brasil deve a fundação da Escola de Arte Dramática e, mais ainda, o emblemático TBC – Teatro Brasileiro de Comédia –, em 1948. O fato é que a carreira de Procópio foi eclética, atendendo à efervescência e ao cuidado com que se preparava para encenar. Era um profissional que conhecia profundamente todos os ângulos de seu trabalho e, como ator, era também produtor, empresário, crítico, professor, fiscal de eletricista e até contra-regra. Costumava se exercitar nas várias entonações e inflexões dadas à mesma frase por horas.

A diversidade o levou a buscar outros veículos, além do teatro. Na TV, Procópio Ferreira atuou em várias novelas, nos anos 60. No cinema, representou em cerca de 14 filmes. Sua carreira cinematográfica iniciou-se em 1936, em Portugal, com o filme O trevo de quatro folhas. No Brasil, fazem parte de seu trabalho os seguintes filmes: Mistério do Rio, Coisas nossas, Pureza, Berlim na batucada, Comprador de fazendas (baseado no livro Urupês, de Monteiro Lobato), O homem dos papagaios (argumentos de Procópio), A sogra, Quem matou Anabela, Romance de uma cidade, Como ganhar na loteria sem perder a esportiva, Crônica da cidade amada, Titio não é sopa e Em família.

Além de ator, ele também foi autor de nove peças teatrais: Briga em família, Arte de ser marido, Banho de civilização, Convidado de honra, A grande pantomina, Não casarás, Presente do céu, Boca do inferno e Família do Antunes. Como escritor, ainda, não se limitou apenas às peças escritas, tendo também publicado os livros: O ator Vasques: o homem e a obra, Arte de fazer graça, Como se faz rir e O que penso quando não tenho em que pensar, O teatro brasileiro até Leopoldo Fróis.

 

Capa do livro 'Procópio Ferreira apresenta Procópio

Uma importante contribuição para a memória do teatro brasileiro foi a sua obra memorialista Procópio Ferreira apresenta Procópio: um depoimento para a história do teatro no Brasil, um extenso e detalhado relato dos quase 20 anos de manuscritos arquivados pelo ator. Nele são traçados perfis de nomes como Joracy Martins Fontes, Guilherme Figueiredo, Viriato Correia, Oduvaldo Vianna, Irineu Marinho, Cândido Portinari, Louis Jouvet, Vicente Celestino e outros.

Procópio veio a falecer, perto de completar 81 anos de idade, em 18 de junho de 1979, numa segunda-feira, após 21 dias de internação no CTI do Hospital das Clínicas do 4º Centenário, no Rio, vítima de enfisema pulmonar. Seu corpo foi velado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e recebeu a homenagem de cerca de dez mil pessoas, que foram se despedir do pequeno grande ator.

Algumas frases de Procópio Ferreira:

"A vida é a miniatura do teatro. Ele aumenta, a embeleza, a sublima. A vida cria o conflito, o teatro o resolve e nessa solução, a vida tem aumentado seu patrimônio moral."

"A televisão, depois do baby doll, é a maior invenção do homem."

"Eu me considero simplesmente um ator honesto, sempre procurei ser fiel à minha arte."

"Não, não, sei exatamente o que sou, mas sei também exatamente o que dou".

"Há um grande número de atores que me dão a impressão de pneus. Sim, de pneus, desses de automóveis e caminhões. Todos fabricados em série. Bons, mas todos iguais."

Sobre a Casa dos Artistas: "uma sociedade que trata seus artistas como mendigos, confessa, implicitamente, ignorância, incultura, no domínio de seus próprios destinos."

Leia mais sobre Procópio Ferreira:

http://acd.ufrj.br/pacc/odisseo/tbrandao.html

"Procópio Ferreira e a técnica do ator", por Tania Brandão
Profª Doutora da Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio.

E-mails para a coluna:
franciscomalta@hotmail.com