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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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MÚSICA ERUDITA? EXPERIMENTA!

Mauro Dellal
Aluno do 6º período de Letras
Campus Rebouças

Recebi de algumas pessoas várias reclamações a respeito de um comercial da cerveja Skol, em que alguns jovens são selecionados, à força, para irem a uma ilha chamada "quadrada". Lá, enquanto bebem uma cerveja de marca duvidosa, dançam ao som de um minueto, dança antiga de gestos contidos e muito utilizada em sinfonias e suítes nas épocas clássica e barroca, respectivamente. Enquanto isso, na ilha redonda, ao som de puro rock' n roll, para os felizardos que permaneceram no paraíso onde reina a Skol, a alegria é desenfreada e redonda, que é o modo como a Skol passa pela garganta.

O desespero dessas pessoas tem a ver com o fato de o comercial ser, na opinião deles, preconceituoso com a música erudita por vinculá-la a algo chato, monótono e sem alegria. Alegam os descontentes que, do modo como foi exposto, o comercial prejudica o gênero erudito na música e que esta fica cada vez mais distante das pessoas. E olha que mesmo sem essas manifestações, a distância já era astronômica. Mas os reclamantes, que têm certa razão, estão fazendo tempestade em copo d'água e direcionando suas raivas para o lugar errado.

Ora, quem já viu um comercial de produtos requintados já deve ter percebido que, em alguns deles, quando há música de fundo, esta é quase sempre uma peça famosa da música erudita. Quando não, mesmo que seja de cunho popular, a obra escolhida faz parte daqueles clássicos da MPB que, por sua concepção, beleza e importância, já garantiram seu lugar na eternidade, o que sempre acontece com a boa arte. Ninguém duvida de que para compor o clima de uma peça de propaganda, que visa a um público dito especial, não há gênero melhor do que o erudito. Por outro lado, já pude assistir a um comercial de analgésico em que um grupo de pagode 'infernizava' uma banhista na praia, quando um gigantesco comprimido esmagava os pagodeiros causando sensação de alívio imediato na pobre mulher. Portanto, peças publicitárias que exploram produtos utilizarão os gêneros musicais apropriados, e esses sempre virão acompanhados das características e aspectos existenciais de cada grupo de seguidores. Os da música erudita são os mais sacrificados, sem dúvida; e é por isso que eles estão indignados com o comercial que estão chamando de anticultural, por verem o objeto de sua paixão ridicularizado. Um deles alega que o governo gasta muito dinheiro para manter conservatórios e escolas de música... Opa! É aí que as coisas se invertem.

O que os governos, tanto municipal, estadual e federal gastam com a música erudita é ínfimo. Para se ter uma idéia, a ÚNICA orquestra sinfônica mantida pelo governo federal é a Orquestra Sinfônica Nacional, com sede em Niterói. Vive a penúria das entidades governamentais sem prestígio e privilégios. Muitos músicos de qualidade abandonaram a orquestra devido aos baixos salários e outros, pura e simplesmente, pela qualidade artística. Na televisão, os poucos programas que exploram o gênero ou estão em canais desprestigiados ou nos da TV por assinatura. Também não há, com exceção da rádio MEC, outro veículo radiofônico que se dedique exclusivamente à música erudita, nem mesmo a MEC, que faz uma mistura em sua programação. Mas já houve emissoras que prestavam esse serviço aos cariocas: a rádio Jornal do Brasil e a rádio Opus 90. Essa última tinha, ainda, a pretensão de formar público apreciador do gênero e mantinha uma programação interessante para os iniciantes, apresentando os principais movimentos de uma peça grande (como uma sinfonia, por exemplo) para não 'assustar' ou 'chatear' esse possível admirador. Como se vê, o problema vai além de um simples comercial, de mau gosto ou não; está na forma como a cultura é tratada nesse país, onde orquestras são consideradas luxo. Mas não o são. Um conjunto orquestral é um instrumento vivo, uma manifestação grandiosa e por mais que a tecnologia avance, é impossível que máquinas reproduzam o que o som de uma orquestra ao vivo representa.

Há quem defenda que as grandes orquestras saiam de suas casas de espetáculo e se apresentem para o povo. Contudo, isso é feito constantemente pelos grupos sinfônicos da cidade. Se observarmos, veremos que no histórico dessas orquestras estará escrito: levar a música de concerto para as praças, escolas e comunidades carentes. Porém, o que vale nessas apresentações é muito mais um aspecto de show do que um concerto; geralmente produzido para marcar a presença de algum político ou entidade pública. Para 'alegrar' e motivar o público, são programadas peças de fácil aceitação; mas isso não faz um espectador transformar-se num aficionado do gênero. Quando muito, consegue-se pinçar uma meia dúzia de pretendentes. O que as instituições deveriam fazer é proporcionar acesso à música de concerto, pois essa necessita de condições especiais para surtir efeito. Não é num palco ao ar livre, com, geralmente, uma sonorização de má qualidade que uma orquestra pode mostrar sua verdadeira competência. A música erudita não é própria para a dança ou para um barzinho à beira da praia. É preciso ter atitude para ouvi-la. Se vamos a um show de rock, vamos tomados do espírito que esse gênero comporta. Assim, para ouvirmos a música erudita, deveremos estar cientes de que não haverá nada além do som, da força que a própria música contém. Não haverá efeitos de luz porque a mensagem estará contida nos temas, nos andamentos, na estrutura. Por isso, esse gênero é carregado de tradições e de regras. Seus instrumentos são acústicos e de alta fragilidade. Assim, há uma aura de requinte que a envolve, marcada pelos trajes a rigor dos músicos e do regente, do mesmo modo como as roupas e comportamento de roqueiros.

Digo isso para deixar claro que esses aspectos não estão, absolutamente, fora de propósito. A erudição em qualquer arte pressupõe complexidade, ou seja: a linguagem está estruturada e não jogada simplesmente. No caso da música, uma sinfonia é uma grande sonata com uma forma fixa estrutural tal qual um soneto. Para se analisar e compreender, quer seja um poema, quer uma sinfonia, há que se ter certo entendimento. É por isso que a música erudita vem acompanhada de programas para que o público tome conhecimento das circunstâncias que envolveram certa obra; muitas vezes obras de dois séculos de existência. Desse modo, a compreensão se dará também num patamar histórico-social, além da subjetividade dos temas e frases sonoras.

Há, então, que se voltar às reclamações para as autoridades (in)competentes, que relegam, há séculos, um gênero pretensamente elitizado a um plano inatingível. Educação e conhecimento são necessários em todas as áreas e a música de concerto precisa de público como em qualquer manifestação artística. Portanto, caros amigos descontentes, relaxem, bebam uma cervejinha, achem graça desse comercial inofensivo e pensem em como trabalhar para que a música erudita tenha mais importância na vida das pessoas. E você, que ainda pensa que ela é chata, EXPERIMENTA!