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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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NAÇÃO E NACIONALISMO EM JOSÉ DE ALENCAR E MARIO DE ANDRADE

Angelo Grisoli
Formado em Letras pela Universidade Estácio de Sá
Mestrando em Teoria da Literatura na UFRJ

"Que país é este? Quem sou eu? Em virtude da minha função social, que lugar ocupo? Por que esta sociedade – a nossa - vai se formando desta maneira e não daquela? Por que é este o senhor? Que tarefa cabe ao senhor? ao índio? ao escravo? E assim infinitamente"1


A passagem acima, do texto de Silviano Santiago, além de representar uma crítica de toda a história nacional, serve como provocação para a monografia que se busca desenvolver a seguir. O que se pode pensar a respeito dos conceitos de nação e nacionalismo em José de Alencar, o escritor de Iracema (ou América para os que não conseguem desassociar o título do anagrama), e Mario de Andrade, o escritor de Macunaíma, poeta, romancista e pensador da modernidade? Talvez seja oportuno frisar que elaboram, de formas antagônicas, concepções que, vagando entre a descrição, os mitos e a ficção, buscam compreender as origens da nação brasileira, paralelamente, ao surgimento do nacionalismo enquanto signo do patriotismo e do autodirecionamento do País.

Mesmo pertencendo a épocas diferentes, um e outro apresentam, como ponto de partida, uma percepção em comum: a hibridez racial e as diversas questões geradas por esse fenômeno no Brasil. Obviamente, seria um grande engano julgá-los escritores similares, contudo seja considerável perceber, em suas obras, a presença de uma temática baseada nos deslocamentos raciais e culturais geradores de uma série de acontecimentos marcantes para se entender o território brasileiro e sua gente. Cabe assim, pelo projeto intencionado aqui, analisar, num breve passeio por suas idéias/temas, as questões que singularizam os conceitos acima citados tomados como rumo dessa reflexão.

Foi concebendo o "filho da dor", Moacir, primeiro brasileiro nascido da miscigenação, que José de Alencar refletiu acerca do resultado do encontro entre a "virgem dos lábios de mel" e o homem branco europeu. Superficialmente, essa junção parece nada mais do que um desses românticos encontros ocasionais do cotidiano literário: a mulher, frágil, pura e delicada se depara com seu protetor para o qual demanda todo o seu desejo. Iracema é a personagem feminina típica do romantismo que padece de saudades do amante, enquadrando-se dentro de uma corrente luso-brasileira cujo início data das cantigas medievais. Todavia, reside nessa união um inexorável relato histórico calcado sob a verve do conflito entre o opressor e o oprimido, definindo as origens históricas e étnicas do Brasil e apresentando a mestiçagem como ponto de partida de qualquer estudo sobre o povo brasileiro.

O romance, precursor da tentativa de se explicar o mito fundador de uma nacionalidade brasileira, simboliza, em primeira linha, uma representação das origens do nacionalismo. Suas dimensões temáticas configuram a existência de um novo conjunto de indivíduos, independente da metrópole, que é o fruto de um acontecimento histórico, isto é, o resultado do encontro entre o "civilizado" e a "selvagem" que vai gerar um terceiro; um filho que encena a grande metáfora das origens brasileiras. Por esse viés, poder-se-ia considerar o romance como a semente de um projeto de pesquisa interminável, que vem sendo longamente discutido por estudiosos. De fato, a plácida oscilação entre o colonizado e o colonizador, que vigora no texto alencariano, resultando num novo indivíduo, converte-se, em análise crítica, numa mescla que não espelha a verdade factual. Na medida em que o romance é lido com atenção, percebe-se uma forte tentativa de apaziguar um processo violento que reverbera pela história. Por que se profere tal colocação?

Pensando além dos princípios indianistas, assunto já tão estudado e razoavelmente desgastado pela crítica, encontra-se no livro uma questão de intransponível vigor no sentido e na tensão criada pela esfera dionisíaca, representada por Iracema (metáfora do oprimido), em choque com a esfera apolínea (metáfora do opressor), representada por Martim. O papel da índia, curiosamente a primeira grande heroína de uma nação patriarcalista e conservadora, remete a agressão ao efêmero ou a uma terra que fora abusivamente desejada e explorada pelos europeus. A construção romantizada da história do povo brasileiro deve, antes de qualquer análise, passar por um filtro desconstrutivo que pressupõe extrair do encontro, entre Iracema e Martim, os elementos norteadores de uma procedência conflitante.

Segundo o enredo, Moacir, que representa a nação brasileira, surge de um desfloramento da virgem apaixonada que se entrega "pacifica e prazerosamente", ao europeu. Em termos gerais, há um subtexto crucial em Iracema. A índia, que se rende ao amor por Martim, num ato de escolha própria, pode perfeitamente simbolizar a terra brasileira que passa a ser de posse portuguesa por livre e espontânea vontade dos índios. Mas será essa a realidade dos fatos? Será possível aceitar que os representantes de uma cultura que fora esmagada entregaram-se aos novos modelos culturais europeus sem problemas? Como numa transição política de um governo para o outro?

A visão romântica de José de Alencar forja um encontro pacífico entre o índio e o europeu, uma vez que todas as dimensões de violência, com relação aos indígenas, não aparecem em seu texto. Observa-se em Alencar uma ordem coerente às ideologias hegemônicas do poder, mesmo não se podendo descartar a preocupação do escritor em exaltar a importância da figura do índio para a formação da nacionalidade brasileira. Historicamente, o que se percebe no romance é um sentimento de nacionalismo que, através da identificação das origens, busca a autoafirmarção. Por mais que eleve a valentia dos índios, concedendo-lhes um lugar de destaque no plano de organização do imaginário cultural da pátria, José de Alencar não deixa de demonstrar uma projeção européia do real. Alegoricamente, o encontro do colonizador com o colonizado retrata, em Iracema, um jogo de cartas marcadas donde o opressor mantém-se, satisfatoriamente, na condição suprema.

De acordo com o livro, num dado momento, finalmente germina a palavra do Deus dos brancos na terra selvagem. Fica claro uma visão da cultura européia e da religião cristã como superiores aos costumes e crenças indígenas. A elaboração de um nacionalismo cultural, constituído de valores duplos, irá sucumbir gradativamente perante a visão européia de mundo do autor. Nesse sentido, a religião serve no romance como paradigma ideal para a compreensão, no plano mitológico, do sistema de aculturação pelo qual os índios passaram e pelo qual os valores nacionais foram transpostos da matriz européia para a colônia.

O que se propõe aqui é pensar na história de Martim e Iracema não só como monumento histórico de uma possível essencialidade dos conceitos de nação e nacionalismo, através de uma visão plácida dos fatos, mas sim como uma narrativa cuja fundamentação funciona como um simulacro da barbárie civilizatória, que em nenhum momento poupou esforços para alcançar seus objetivos. Iracema demonstra um problema em José de Alencar quanto aos limites entre a utopia e a realidade, que permite um questionamento de suas relações com o poder e, além disso, com a arquitetura das ideologias patriarcais no Brasil.

Quando se lê ou interpreta no romance a saga embrionária de constituição da nação brasileira, deve-se ter em mente que a mímese alencariana expõe o leitor a imagens de uma integração harmoniosa por essência. Emerge de seu texto uma falsa concepção histórica disfarçada pelos contornos idealizantes da índia dos "lábios de mel", pela descrição da natureza e, acima de tudo, pela forma passiva que o escritor relata o encontro das duas culturas através das personagens principais. Para tornar mais claro o que se afirma neste trabalho, leia-se a passagem a seguir da professora Lúcia Helena:

(...) Iracema aborda o conflito inerente à sociedade brasileira, desde a constituição do mito da fundação, construída ideologicamente como integração harmônica de contrários, carregando em seu bojo a metáfora da integração genético-biológica dos componentes étnicos e culturais "fundadores" do Brasil. A ambigüidade da heroína chama-nos a atenção para a fratura encoberta pelo símbolo, ao retirar toda a violência da relação entre o descobridor e a terra descoberta, apresentando-a não como a violação que de fato foi, mas como uma aliança de solidariedade e notória prevalência das bases européias porque "mais civilizadas", "mais verdadeiras" (...)2

No entanto, existem ricos aspectos na obra de José Alencar que não devem ser esquecidos. Com a intenção de sublinhar as dessemelhanças culturais e artísticas em relação à fonte portuguesa, ocorre, após a independência do País, que naquele momento se projetava como nação, um vasto investimento no campo das letras. A literatura no Brasil servira como um poderoso veículo de autenticação de uma nacionalidade autônoma do imperialismo europeu que clama, pelo viés do ufanismo nacionalista, seu reconhecimento. A língua nacional surgira, através dos textos literários, repleta de marcas coloquiais que a afasta da norma culta. A linguagem em José de Alencar explicita as preocupações do autor com o caráter nacional do português, ao extrair da realidade uma série de fenômenos lingüísticos, cuja ocorrência ratifica a existência de um povo que transgride e transforma as leis de acordo com sua vontade. Essa linguagem, não sendo em hipótese alguma uma simples imitação do colóquio, revigora o sentido das palavras elevando-as ao patamar de espelho ou marca cultural de uma nova nação.

Por esse prisma, é pertinente concluir que, apesar de construir um quadro de adorno de uma realidade histórica sangrenta, a ficção de José de Alencar, no que diz respeito ao plano lingüístico, reflete a composição entre os conceitos de linguagem e identidade – estruturante do conceito de nacionalidade – que define a atmosfera, em Iracema, de uma nação revigorada por suas singularidades expressivas. O nacionalismo é exaltado em voz alta por uma gente que visa assegurar-se de sua existência, também, pela sua potencialidade lingüística de criação. Haveria ainda muitas considerações a se desenvolver sobre a língua na obra de José de Alencar, tendo em vista que a recriação dos fenômenos lingüísticos se estende por outros dos seus romances, como se percebe em O Guarani e Ubirajara (no qual o índio é reproduzido em sua forma mais natural). É de capital importância, porém, ressaltar que seria necessário um espaço muito maior de argumentação para se apresentar um estudo detalhado, que abarque a complexidade da questão.

Por enquanto, almejou-se apenas delinear um mapeamento de Iracema, talvez o mais simbólico dos trabalhos do autor no sentido de compreensão do mito da fundação do nacionalismo brasileiro. Metaforicamente, o romance é uma tentativa de arquitetar, de maneira otimista, o fenômeno da miscigenação produzida pelo índio e pelo europeu, por meio de uma idealização romântica que visa conceber uma unidade original. O que se iniciará a partir de agora é uma reflexão sobre os conceitos acima aludidos com base no texto de Mario de Andrade, Macunaíma, para, no final deste trabalho, se estabelecer uma tensão temática entre os autores.

Com o fim do romantismo, o índio é praticamente engavetado enquanto tema, vindo a reaparecer no século XX com uma nova face desenhada pelas intenções artístico-culturais dos modernistas. Depois da semana de 1922, os nativos ressurgiram como uma das possíveis representações do todo não mais atuando de forma serviçal ou reduzida perante os europeus. Macunaíma, nome do "índio-herói", demoníaco e malicioso, que serve de título para o romance, seguindo a tradição indianista de cunhar as obras com o nome das personagens protagonistas, é uma das melhores alegorias da metamorfose constitutiva da identidade nacional: um "índio-preto" amazonense que vai se tornando branco. Um aspecto que é muito comentado a respeito dessa obra é a questão da filosofia da preguiça total, no sentido de representar uma marca cultural do povo brasileiro. Entretanto, a ação – aspecto que se encontra largamente presente no texto e nas aventuras do herói – termina por neutralizar essa idéia.

O pensamento aqui elaborado sobre o herói marioandradiano tornou-se um ir e vir por meio do trânsito melancólico, divertido e paradoxal que constitui a imagem da própria figura do herói. Diz-se paradoxal porque, embora possa parecer uma conjuntura estranha unir melancolia e diversão, percebe-se nessa junção uma maneira original e corrosiva de se observar a brasilidade. Haverá melhor pintura do ser brasileiro do que aquela cuja organização contemple, com "a pena da melancolia", o tragicômico teatro da realidade tupiniquim?

Por certo, o projeto de Mario de Andrade fora compor elementos em sua obra que suscitam um minucioso questionamento das concepções tradicionais de brasilidade. Caminhando numa direção contraposta a de Iracema, o autor modernista expõe, em Macunaíma, uma visão que rejeita a essencialidade dicotômica de Alencar, propondo uma identidade coletiva enfocada na multiplicidade de raízes que compõe esse grande fruto da metamorfose que é o ser de nacionalidade brasileira. Condensando uma série de estilos que passeiam por entre o cômico e o trágico, Mario de Andrade não deixou de tecer sua paródia ao passadismo brasileiro, subvertendo espaços geográficos e, num plano mais crítico, o próprio tempo ao transgredir a cronologia dos acontecimentos.

A criação de um herói sem nenhum caráter, desconcertante, desfiando lendas, mitos populares e costumes indígenas, é assim um reconhecimento de traços valorativos da cultura nacional e ao mesmo tempo uma inversão da matéria heróica em seu sentido original, visto que o herói, marioandradiano, não representa um emblema coletivo da coragem e da destreza e sim uma metáfora do que se convencionou chamar "anti-herói". Além de ser representante do contraditório e do repugnante aos olhos unificadores e apolíneos do poder, consolida uma concepção de origem difusa e inominável, negando a perspectiva da síntese binária e idealizante do romantismo. Por essa angulação, é importante ter em mente que "o herói sem nenhum caráter" é um indeterminável indivíduo, que nem bom e nem mau, torna-se uma negação do nacionalismo ufanista.

Estabelecendo a transformação como procedimento formador da identidade, o herói Macunaíma é o "herói de nossa gente" por excelência. É aquele que vaga, o imigrante de nossa terra, o que busca reaver a "muiraquitã": objeto de desejo que pode representar a busca de uma unidade perdida que se transforma num símbolo da fratura heróica. Esse herói errante é de fato o herói que se contrapõe ao nacionalismo unificador. A obra descreve, em suma, uma síntese racial entre várias fontes geradas por outras fontes, valendo-se de estudos sobre o folclore e sobre os mitos nacionais como componentes de um grande banquete de origens; de uma grande nação de desenraizados.

Macunaíma é o romance que se justifica enquanto sabedoria popular medrada pelo espírito máximo do elemento híbrido, cuja representação obscurece qualquer definição unificadora e embrionária do povo brasileiro. Brasilidade, assim, traduzir-se-ia como o produto de uma mestiçagem universalizada pelas figuras do índio, do negro, do europeu e, além disso, dos próprios mestiços que geram outros mestiços. É válido citar, a interpretação de Alfredo Bosi, com o propósito de expandir as diversas interpretações da obra de Mario de Andrade, na qual o crítico promove uma leitura de "Macunaíma" por uma via psicanalítica. Nela há uma correlação interessante entre o processo de metamorfoses, que constitui o arranjo de um quadro de permanentes transformações, e as aventuras pelas quais o herói atravessa a realidade e é atravessado por ela:

(...) Em Macunaíma, a medição entre o material folclórico e o tratamento literário moderno faz-se via Freud e consoante uma corrente de abordagem psicanalítica dos mitos e dos costumes primitivos que as teorias e da "mentalidade pré-lógica" propiciam. O protagonista, "herói sem nenhum caráter", é uma espécie de barro vital, ainda amorfo, a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir, desde o nascimento em plena selva amazônica e as primeiras diabruras glutonas e sensuais, até a chegada à São Paulo moderna em busca do talismã que o gigante Venceslau Pietro havia furtado. Não podendo vencer o estrangeiro por processos normais, Macunaíma apela para a macumba: depois de comer cobra consegue derrotá-lo. É perseguido pelo minhocão Oibê tendo que fugir às carreiras por todo o Brasil até um dia virar estrela da constelação da Ursa Maior. A transformação final é apenas o último ato de uma série de metamorfoses. Em Macunaíma, como no pensamento selvagem, tudo vira tudo (...)3

No campo da linguagem, Mario de Andrade estabelece, em Macunaíma, uma visão crítica e sarcástica da normatividade lingüística que estabelece misturas que vão da gíria a extrema concisão do discurso jurídico, estilizando de uma forma muito pessoal sua comunicação com o receptor. De maneira inovadora, o autor não busca expressar uma fala de uma determinada área do País, e sim vislumbra os caminhos do insólito e da ruptura com a gramaticalização. A caracterização rapsódica da obra ratifica a atmosfera oral, que se expande pelo texto escrito, tornando-se um objeto alegórico da vivacidade da língua. Esta fôra uma grande preocupação das especulações teóricas do escritor paulista, isto é, dignificar o papel das expressões populares como a espinha dorsal da inventividade coletiva, cuja articulação se estendia pela música popular.

(...) Muito da teoria literária e musical escrita por Mario de Andrade na década de 30 centrou-se nesse problema, prioritário para o escritor e o compositor brasileiro, dividido entre um ensino gramatical lusíada e uma práxis lingüística, afetada por elementos indígenas e africanos e cada vez mais atingida pelo convívio com o imigrante europeu. Mario foi assertor de uma linguagem que transpusesse para o registro da arte a prosódia, o ritmo, o léxico e a sintaxe coloquial (...)4

Por meio de uma densa iniciativa de repensar a construção do nacionalismo brasileiro, Mario tornou-se um farol para o modernismo e para a própria história nacional. Em suas memórias, propondo sempre um diálogo entre a tradição e os modernos, estabelece certos parâmetros de especulação sobre a edificação de uma projeção inteligível do conceito de nacionalismo, que por sua ampla extensão, representa até a atualidade um ancoradouro para aqueles os quais o foco de estudos seja pesquisar o caráter nacional do movimento modernista. Paralelamente ao antropofágico ato de "destruição" do formalismo elitista dos parnasianos, o escritor pensa na diversidade da realidade brasileira, tal qual um paradigma de uma nação constituída de filhos coloridos e costumes variados. Com os olhos voltados para um projeto mais audacioso, Mario de Andrade projeta-se como pensador de uma consciência nacional:

(...) o espírito modernista que avassalou o Brasil, que deu o sentido histórico da Inteligência nacional desse período, foi destruidor. Mas essa destruição não apenas continha os germes da atualidade, como era uma convulsão profundíssima da realidade brasileira. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs, é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente a pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional. Nada disso representa exatamente uma inovação e de tudo encontramos exemplos na história artística do país. A novidade fundamental, imposta pelo movimento, foi a conjugação dessas três normas num todo orgânico da consciência coletiva.5

Percebe-se que a organização triádica do projeto marioandradiano dignifica toda a linhagem revisionista da primeira fase modernista que, além de sugerir um experimentalismo artístico, transfigurando a figura do índio por uma via totalmente antagônica a tradição romântica, impõe-se como defensora de uma prática que até a contemporaneidade se encontra fraturada, ou seja, a prática da pesquisa estética enquanto um direito tão necessário quanto qualquer outro. A idéia de uma estabilidade da consciência criadora nacional é, sem dúvida, um posicionamento que intenciona criar uma noção de pensamento caudatário das ideologias pluridimensionais da nação brasileira.

Em meio ao grande número de caminhos a serem trilhados a partir do que se intenciona problematizar nesta monografia, conclui-se que em, última análise, os dois escritores desempenham funções opostas no sentido de compreensão dos conceitos especulados. Enquanto Iracema contém uma prolongada resolução retilínea das bases determinantes das origens do povo brasileiro, plantadas sobre um solo de certezas/definições e coloridas por uma visão de atavio, Macunaíma promove um impasse. Delineando uma visão marginalizada dos conceitos de nação e nacionalismo, Mario de Andrade desconstrói o modelo romântico situando-se, em termos temáticos, entre a selva e a cidade, entre a civilização e a natureza, num movimento curvilíneo que ora retrata a urbanidade burguesa, ora retoma o primitivismo mitológico sem estabelecer nenhuma definição entre esses pólos. Situa-se no embaraço da indefinição, num beco sem saída e que conduz sempre a novos questionamentos.

José de Alencar buscou glorificar o nacionalismo brasileiro, fotografando a terra e o encontro do europeu com índio, por meio de uma descrição que apreende as origens de forma coesa, positiva e unificadora, uma vez que a aclimatação de seu trabalho converge perfeitamente com as doutrinas sistêmicas dos portugueses. Em José Alencar, a nação brasileira constitui-se de uma razão clara e esclarecedora, sendo, suas idéias, caudatárias das propostas dos colonizadores.

Por sua vez, Mario de Andrade agrega elementos cuja relação estabelece um nacionalismo formado por fragmentos raciais e culturais disseminados pela falta de uma raiz embrionária. Pode-se afirmar que a nação brasileira, em Mario de Andrade, é uma nação obscurecida essencialmente desde sua origem, apresentando uma visão oprimida de mundo e uma dimensão irônica do destino. Independente das conclusões aqui alcançadas, é necessário frisar que os textos de ambos os autores, que tematizam este povo chamado brasileiro, servem de referência para que, com sua riqueza material e formal, auxiliem estudiosos e pesquisadores na ordenação social, política e econômica da realidade brasileira. Por fim, não se deve deixar de citar uma questão de capital importância que fora levantada por Eduardo Portella: "como interpelar o texto ignorando o contexto?"6

Através do tempo, a arte dialoga com o real, sendo o artista aquele que faz da arte uma estrada interminável e elaborada com base em sua relação com o tempo e o espaço. Pensar sobre os critérios que levaram um literato a optar por uma determinada postura implica analisar a época em que vivera e sua concepção de mundo. Cabe aos leitores atualizar os textos alencarianos e marioandradianos sem descartarem as transformações históricas que atuam como pontos de tensão em relação à contemporaneidade. Estabelecer um conceito fixo de nação e nacionalismo pode gerar um juízo extremamente equivocado, apesar de haver uma teia de implicações políticas e culturais, por detrás desses conceitos, que busca minimizar a capacidade problematizadora das pessoas, reduzindo-as a meras duplicadoras de um discurso unificador de defesa dos valores nacionais e que nada mas é do que mais uma projeção fetichista do autoritarismo do poder. Ao mesmo tempo, conceber uma síntese desvinculada e dispersa dos conceitos pode gerar um desprendimento ou um desinteresse. Talvez, seja interessante uma desmistificação de todas as ideologias, ditas nacionalistas, para que num jogo duplo, entre a história e a ficção, chegue-se a um consenso. Ou talvez, seja melhor haver um questionamento que trilhe um caminho inovador, sugestionando tanto a essencialidade alencariana, quanto a pluralidade marioandradiana sem ocorrer nenhum cerceamento de ambas as concepções.

NOTAS

1 Santiago, 1982, p.89
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2 Helena, 1993, p.85
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3 Bosi, 1994, p.352
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4 Bosi, 1994, p.354
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5 Berriel, 1990, p. 26
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6 Portella, 1970, p. 16
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