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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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FIM DE FÉRIAS...

José Mauricio da Silva
Aluno do 7º período de Letras
Campus Rebouças

"A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana"
Hjelmslev1


Era infalível. No primeiro dia da volta às aulas, na aula de "Linguagem" – sou do tempo do primário e do ginasial – a Tia... – perdão! Outra reminiscência: naquele tempo, não era "Tia", era "Professora", e com muito respeito!!! Retomando. Na volta às aulas, após as férias, a primeira tarefa era, invariavelmente:

– Façam uma redação descrevendo as suas férias!2

Já que é assim, lá vamos nós... ao "campo"... interior, ar puro, fazendas, plantações, rebanhos, cavalgadas, caminhadas, natureza preservada, alimentação natural, amplidão, céu estrelado, gente simples, paz, quietude, descanso... Mas as férias acabaram e o bucólico ficou para trás. E como "palavra-puxa-palavra", e palavra evoca "sema", voltei ao campo... só que agora ao semântico.

Sobre uma definição para campo semântico pairam as mesmas divergências de visões e linhas de estudo que fazem da Semântica a mais controvertida das áreas de interesse da Lingüística. Quando se trata de estudar coisas como "sentido" e "significação", nós nos aproximamos de temas que são pouco afeitos a um tratamento "científico", tais como "verdade", "realidade" e "ser". Esses temas habitam uma região fronteiriça que diz respeito a todas as ciências, e, portanto, uma espécie de "terra-de-ninguém", onde impera uma saudável liberdade e a Filosofia.

Alguns autores preferem usar o termo "campo associativo" para designar uma série de palavras, como as que utilizei acima para descrever as minhas férias, enquanto em algumas gramáticas não é feita distinção entre um e outro termo. A distinção entre o que poderíamos chamar de uma "família ideológica" e uma "família semântica" me parece mais adequada.

Se um trabalhador rural dos Sem Terra fosse convidado a elaborar uma série de palavras a partir do tema "campo", muito provavelmente, as únicas palavras que pertenceriam às duas listas seriam as cinco primeiras (interior, ar puro, fazendas, plantações e rebanhos). Essas estão ligadas de uma maneira objetiva ao "campo". Na lista do nosso companheiro, com certeza, não iríamos encontrar "paz, quietude e descanso", como na minha não entrou "conflito, insegurança e sofrimento". Eu e o Sem Terra somos sujeitos diferentes, e essas últimas expressões estavam dentro de nós e não no "campo".

Uma definição mais rigorosa dos conceitos de campo associativo e de campo semântico (que ele denomina "campo léxico") nos é fornecida pelo professor Bechara3:

"... campos associativos (estudam as associações de um signo com outros signos estabelecidos por similitude ou contigüidade, tanto dos significantes quanto dos significados, associações motivadas por idéias, crenças e atitudes relativas às 'coisas' ...";

sobre o campo lexical ele diz:

"... é uma estrutura paradigmática constituída por unidades léxicas que se repartem numa zona de significação comum e que se encontram em oposição imediata umas com as outras...".

O exemplo, já clássico, formulado pelo lingüista B. Potier, que nos ajuda a entender a definição acima, é o da série constituída a partir de "assento", o que nos daria uma relação, tal como: banco, poltrona, sofá, cadeira, espreguiçadeira, sela, tamborete, divã etc. Todos tendo uma função comum, mas cada um com traços particulares que os distinguem um dos outros.

Um passeio pela Semântica pode, pelo menos para mim, ser tão agradável e instigante quanto um passeio pelo "campo". No campo da linguagem estamos, como em nenhum outro, próximos da liberdade, basta escolher...

NOTAS

1 HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem, São Paulo, Perspectiva.
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2 Não cabe aqui discutir a validade "didático-pedagógica" (ui!), ou não, desse procedimento. Basta lembrar que ele é muito discutível.
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3 Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa, Editora Lucerna, 37ª edição.
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jmjornalista@uol.com.br