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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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O SONHO

Sergio Narcizo
Aluno do 4º período Letras e analista de sistemas
Campus Méier


O sonho
Salvador Dali

Scar
Martin Raskovsky
(Argentina)

Acho que nós nunca falamos sobre sonhos, já? Você tem algum sonho marcante em sua vida? Não? Sorte sua, quando pensamos que eles nos querem, somos abandonados por eles...

Você acha que os sonhos são os reflexos do seu inconsciente, que é o seu verdadeiro eu que foi perdido, tentando retornar na calada da noite, com esperança de que um dia, quando os soldados que guardam sua cela se distraírem, ele possa se libertar? ou você acredita que são presságios? Não sabe? Nem eu. Quantos médicos, místicos e loucos já se ocuparam desse assunto, e a História ainda não deu razão a nenhum.

Normalmente, eu não me lembro dos meus sonhos, fora alguns pontos isolados, e fico com a maior inveja daqueles que têm sonhos coloridos, cheios de aventuras, amor, sexo... Na verdade, desse tipo só me lembro de um em que eu estava voando sobre um campo florido, passava lagos, rios, vales e montanhas e estava muito feliz – até hoje, tenho dúvidas se foi um sonho; e de um outro sonho, na minha adolescência, onde apenas vi um rosto de mulher jovem, pele muito clara, cabelos longos, escuros e levemente ondulados, uma verdadeira deusa por quem fiquei, algo assim, extremamente envolvido, mesmo depois de acordado. Eu estava caminhando e ela também, tínhamos a mesma direção, mas em sentido contrário, paramos nos olhamos e eu acordei. Realmente, não me lembro detalhes do seu rosto, sou um péssimo fisionomista, às vezes penso que já a conheci, às vezes tenho dúvida.

Mas, na verdade, houve dois sonhos que me marcaram muito e que me perseguiram, distintamente, em duas fases de minha vida. Um, na infância, e o outro quando eu já me encontrava adulto. Há quem diga que são pesadelos – o da infância, talvez, mas o outro, quando eu o vivi, parou de me assustar e nunca mais voltou (Que pena! Agora que iríamos começar a conversar...).

No sonho de minha infância, eu me via sendo acompanhado por minha madrinha até a casa de uma de suas amigas. Era uma porta à beira de uma rua, com uma longa escada reta que eu começava a subir, sem notar que já estava só. A escada terminava em uma porta e, ao abri-la, havia uma cama com uma velha bruxa deitada. Eu tinha muito medo. De repente, não sei como, a bruxa me atirava pela janela, que nesse momento era a janela do prédio em que eu morava, e, ao cair, em cada andar que eu passava uma pessoa estranha estava na janela dos andares abaixo para me aparar; então essa pessoa me balançava e me atirava de novo, em um movimento que mais parecia um balé, e assim sucessivamente até eu acordar apavorado. Os adultos me diziam que sonhar que estava caindo era sinal de que eu estava crescendo, fisicamente, é claro.

Conforme eu fui chegando à adolescência, esse sonho foi me deixando, até só me restarem os sonhos acordados dessa fase, exceto aquele com a mulher que eu contei. Lembra-se como era bom viajarmos por todo o mundo, vencermos todas as guerras, termos a absoluta certeza de tudo que nos cercava? Podíamos até definir o que os outros sentiam, como nos achávamos diferentes e ímpares, agindo exatamente igual a todos de nossa tribo. Tínhamos um "padrão de individualidade". Mas esses são outros sonhos.

Porém houve um sonho que começou no final da minha adolescência e se repetiu esporadicamente durante muitos anos, e que realmente me causava pavor. Era assim:
De repente, eu me encontrava sozinho no meio de um nada absoluto – não aquele nada existencial, sartreano, o pote a ser preenchido, era um nada concreto. Mas se não havia nada, o que me apavorava a ponto de contorcer meus órgãos internos, de saber que era um sonho, mas não conseguir acordar? Muitas vezes, após um esforço sobre-humano, conseguia machucar-me, fisicamente e assim acordar.

Poucas vezes falei sobre o assunto, uma delas foi com um psicólogo, amigo, que começou com elucubrações freudianas (teria preferido as lacanianas) que não ajudaram muito, mas preservei a amizade.

Depois de tantos anos sem entender o que tanto me apavorava, um dia eu vi. Naquele nada concreto e absoluto estava o olho que não existia. Durante todo esse tempo ele estava lá me olhando, e eu sabia disso: o que eu não sabia era quais eram suas intenções para comigo. Às vezes eu achava que ele era bom, às vezes que era mau, mas eu nunca estava seguro. Tinha medo do seu bote.

O que me deixou triste é que depois de todo esse tempo de convivência, quando eu o vi ele foi embora e não quis falar comigo. Sinto sua falta.

Quem era ele? O que queria?

Você sabe muito bem quem é e o que quer; apenas não conseguimos lhe dar um nome: o jeito é chamá-lo de Inominável.