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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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RESENHA DO LI

BAUMAN, Zigmunt. "A construção social da ambivalência". In:---. Modernidade e ambivalência. Trad. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, pp. 62-84.

Maria Amélia Ferreira dos Santos
Jornalista e aluna do 5º período de Letras
Campus Rebouças

Zigmunt Bauman, um dos mais instigantes produtores da atualidade, estabelece neste capítulo da obra o confronto entre a existência de amigos e inimigos, como oposições que ordenam simultaneamente o mundo em que vivemos, entendendo os primeiros como criação da pragmática de cooperação, enquanto os segundos são criados pela pragmática da luta. Assim, aponta para o estabelecimento de um confortável antagonismo, a que vem se opor de modo conflituoso o estranho, pertencente à categoria dos indefiníveis e que envenenam a ordem com a suspeita do caos.

Ao analisar o papel dos estados nacionais modernos, que coletivizam amigos e inimigos, ele afirma o empenho da estrutura estatal em eliminar (ou tentar eliminar) os estranhos. É, pois, essa dicotomia (amigo / inimigo) a oposição que sustenta toda a vida social; daí o autor enfatizar a questão da indefinição do estranho, que encerra a própria necessidade de sociação: sendo o indefinível nem uma coisa, nem outra, ele é uma ameaça ao poder ordenador das oposições e ao poder ordenador dos narradores das oposições.

Partindo dos conceitos de clareza cognitiva, oposta à da paralisia comportamental e da incapacitação classificatória diante do que nos é estranho, o autor sedimenta suas reflexões no pensamento de Wittgenstein, quando nos afirma que compreender é saber como prosseguir. Bauman analisa a organização social, interpretando-a como a sedimentação do esforço sistemático de reduzir, minorar a freqüência dos problemas hermenêuticos e de, assim, trazer alívio ao desgaste causado com o enfrentamento desses problemas. A separação territorial e funcional surgem, então, como métodos de segregação, reforçando o mundo familiar e fazendo persistir a "área cinzenta", como denomina, habitada por estranhos.

O fenômeno da estranheza é visto por Bauman como aquele que solapa o ordenamento da atemporalidade do mundo, evidenciando a "mera historicidade" da existência, porque o estranho entra no mundo, na vida sem, na verdade, ter a ela pertencido originalmente. Do mesmo modo, solapa o ordenamento espacial do mundo, na medida em que está "fisicamente próximo" e "espiritualmente presente", subvertendo a ordem de união entre amigos e de distância entre inimigos. Ainda mais: rompe com a divisão segura e ordenada da existência, quando pode ter (ao menos em tese) dois lugares para ficar: sua moradia originária e a residência temporária, transformada em território doméstico. Na trajetória do estudo de Bauman, o mundo ordenado não sabe como prosseguir ao deparar-se com o estranho, pois não é o que sequer será definido, ou passível de definição: é o indefinível, o ambíguo, a ambivalência.

No horizonte de análise de Bauman estão os estados nacionais modernos, coletivizadores de amigos e inimigos, como todos os outros "grupamentos sociais autoperpetuantes", do passado e do futuro, que assumem uma outra função – esta específica – de eliminar (ou tentar eliminar) os estranhos.

Assenhoreando-se de estudos sociais modernos sobre o estigma, Bauman aponta para a ampliação do conceito, notadamente quando uma característica relativa a uma certa categoria de pessoas passa a ser observada, documentada até tornar-se irrefutável. Em primeiro lugar, ela é apresentada ao público e, em seguida, é lida como um traço evidente de uma falha velada, de iniqüidade, de baixeza moral. Uma categoria, uma vez estigmatizada, dificilmente conseguirá negar esta identidade sobre a qual os sócios são alertados e avisados. Aqui, o autor faz uma referência ao pensamento de Kant, que afirmara "confiantemente": "o homem é meramente o que a educação faz dele". Talvez cruel, mas lucidamente o autor conclui que o estigma impõe-se como uma limitação ao poder transformador da cultura, onde os liames entre a verdade interior e os sinais podem ser negados, mas não podem ser rompidos; os sinais exteriores podem ser maquiados, mas não suprimidos. Construído e institucionalizado socialmente, o estigma torna-se o conveniente instrumento para afastar-se a viscosa e não oportuna ambigüidade do estranho.

O convite liberal à assimilação, segundo o autor, reflete uma das contradições mestras da modernidade e somente reforça a superioridade e benevolência dos nativos, enquanto reafirma a inferioridade, a indesejabilidade, a inadequação da forma de vida do estranho. A construção das idéias em torno da "domesticação pela aculturação" nos remete à armadilha em que cai o indivíduo: ele sempre carregará a marca de "estranho" como um peso nas costas, jamais escapando de sua filiação ao grupo dos estranhos. Assim, embora aculturado, ele permanece preso à condição de ambivalência.

Importante salientar haver uma convergência entre os pensamentos de Jacques Derrida e Bauman. Derrida nos alerta para a construção de uma nova política, que incorpore o conceito de "hospitalidade", concedida a qualquer um e não ao cidadão. "É necessário transformar a política, para que a hospitalidade não seja regulamentada pelo Estado." E ainda acrescenta: "quanto aos imigrantes, não deve haver um limiar de tolerância, nem uma assimilação". Bauman, por seu turno, nos adverte que a ambivalência é uma construção social da modernidade e, como tal, resultado de uma "doença endêmica da pressão assimilatória e dos sonhos irreais de reclassificação, admissão e aceitação".

A proposição do autor é atual e instigante, gera os necessários desconforto e angústia nos leitores, abre ao debate e à reflexão para uma antropologia do diferente, a partir da análise da ambivalência que permeia a modernidade. E podemos, sem dúvida, estender o pensamento à compreensão da língua e da literatura.