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EDIÇÃO 7 20 de fevereiro de 2004
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CARNAVAL EM NICE

Maria Amélia Ferreira
Jornalista e aluna do 5º período de Letras
Campus Rebouças

O carnaval foi, durante muito tempo, o maior acontecimento turístico de Nice, embora hoje outros vários eventos internacionais estejam dando um ritmo mais intenso à vida da cidade, tais como o Festival de Jazz de Nice, as competições esportivas (o triatlo, a semi-maratona), além da intensa vida artística e cultural. Mas o Carnaval de Nice, ainda que dividindo a cena com outras atividades, continua famoso.

Originalmente, essa festa pagã é a última antes do período de abstinência e de "cozinha magra", o que justifica as suas extravagâncias e transbordamentos. Foi na Belle Époque que o Carnaval de Nice conheceu o seu apogeu; na época, era o maior carnaval do mundo. Mas sua história começou em 1294, com a viagem de Charles II, Conde da Provence, Duque D'Anjou, a Nice para alguns dias alegres de Carnaval.

Bailes, mascaradas, exibições de jograis, malabaristas e de mímica, banquetes nas ruas constituíam as celebrações medievais. Os bailes, da nobreza, dos artesãos, dos mercadores, dos pescadores, dos trabalhadores eram organizados nos principais centros urbanos. Para os foliões irem a uns e a outros, começaram a aparecer as máscaras e os "disfarces convenientes".

Depois, no século XVIII, a festa tornou-se mais "aristocrática". As cidades cresceram, a população aumentou e uma certa distância passou a separar os privilegiados – nobreza e burguesia – das demais classes sociais. Assim, os bailes suntuosos abrigavam os governantes e outros notáveis, enquanto as festas campestres e populares eram organizadas a cada domingo (a partir do primeiro domingo da Quaresma), em um bairro de Nice. Em 1830, realizou-se o primeiro corso de gala. A bordo de calèches 1 e de viaturas, eles desfilavam em ricas fantasias. Na ocasião, uma batalha de flores, de bombons (les coriandoli) e de confetes começou.

Desde então, o hábito de lançar pequenos projéteis se instalou como alegria essencial ao carnaval. Buquês de flores, bombons, confeitos de amêndoas e charutos para a elite; feijão, farinha, confete 2, conchas e ervilha entre os pobres. A guerra de 1860-1870 interrompeu o carnaval, porém, em 1873, o carnaval voltou às "origens d'antanho". A comissão de festas organizou desfiles de carros, cavalgadas, mascaradas, com distribuição de prêmios. Nice passou a ter o carnaval mais célebre do mundo, sendo modelo para outros carnavais, como os do Rio de Janeiro, Nova Orléans, Québec e Viareggio (Itália – ver nossa coluna de italiano, neste número) e todas as cabeças coroadas, tais como o Príncipe de Gales e o Imperador do Brasil, que foram a Nice apreciar o Carnaval.

Mas o Carnaval de Nice voltaria a conhecer interrupções, com as Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Mesmo assim, algumas mudanças foram realizadas ao longo dos tempos, como em 1921, quando apareceu a luz elétrica no carnaval, na decoração.

Até hoje, a festa, com toda a alegria inerente ao carnaval, é movida a distintas tradições, como as batalhas de flores, no Promenade des Anglais. A cerimônia começou no ano de 1830, quando o rei Charles-Félix viajou a Nice. A batalha de flores é um hábito da Cote d'Azur, para recepcionar as figuras ilustres. Em 1874, o cavaleiro Jean Cuggia, autor do carro da paz, consumiu em um só veículo cerca de quinze mil buquês de flores. Em 1876, a primeira batalha de flores no Promenade des Anglais teve lugar.

Hoje, um corso de batalha de flores se constitui de um desfile de carros, onde moças lançam ao público os buquês de flores. Os carros medem cerca de seis metros e a decoração é feita a mão, com pétalas de flores coladas uma a uma, na noite e na manhã que precedem a batalha. Rosas, cravos, gladíolos, mimosas, dálias, lírios estão entre as flores que enfeitam os vinte carros, em média (cada um com cerca de cinco mil flores), arrumados por floristas. Atendendo a seis modelos distintos, todos podem se expressar através da escolha de flores, cores e arranjos. Bonecos gigantes e outras estruturas infláveis vão acompanhando os carros, de onde se jogam flores para o público. Enquanto isso, o povo, artistas de rua e escolas de circo cercam o cortejo alegre e intenso.

Durante duas semanas diversos eventos ocorrem na cidade, entre eles: procissão de barcos, desfile de carros alegóricos (e a grande tradição dos cartunistas do passado ainda é mantida pelos artistas atuais, com o humor dirigido às cenas da economia e da política), iluminação multicolorida na Place Masséna, além de bandas de música e trupes.

O Carnaval de Nice é temático, isto é, a cada ano um tema é escolhido para caracterizar as brincadeiras, alegorias e decoração – pastiches dos eventos políticos e sociais – na sátira local. Como em qualquer festa de carnaval, esses temas representam o imaginário e a mitologia populares, seu "mundo de inversão" e o seu "imaginário fantástico". O grotesco é o seu meio de expressão. Geralmente, o tema é anunciado com antecedência e os carnavalescos passam a conceber a decoração da cidade.

No ano de 2004, as festividades vão do dia 13 a 25 de fevereiro. Em sua 120ª edição, foi escolhido o tema "Le Roi de la clonerie" (Rei da clonagem), "em referência ao desenvolvimento exponencial das técnicas científicas, à evolução da tecnologia e das mentalidades, assim como à dificuldade de se impor limites", segundo afirmam os organizadores do evento.3 Em 2002, por exemplo, o tema foi a adoção do Euro, pela Comunidade européia. Assim, atendendo ao tema deste ano, "Le Franc Roi" ("O Rei Francês", que corresponde ao nosso Rei Momo) deverá vir caracterizado com crianças, que representarão os primeiros seres clonados.

Um outro elemento importante é a música, que desempenha papel primordial na animação dos foliões. Ela traduz o caos simbólico e a alegria da "ordem às avessas". Em Nice, as bandas de música e fanfarras espalham-se pela cidade, criando um clima contagiante por onde quer que se passe. Em 1905, foi criado o Hino Oficial do Carnaval: a cada ano faz-se um concurso e, como nas nossas escolas de samba, cantores (aqui, "puxadores") apresentam as concorrentes. O resultado é que algumas delas mantêm-se populares através dos tempos, como, por exemplo, "Viva Carnaval", "Es Carnaval!" (1909), "Velou, Velou!" (1922). Com o tempo, o jazz foi ganhando relevo e a participação de alguns cantores da música pop, como o nosso Ministro Gilberto Gil, Mireille Mathieu, Patrícia Kass, Bill Baxter, Serge Lama e outros.

No último decênio, a influência do carnaval brasileiro, caribenho e latino-americano em geral, começou a se fazer sentir. E, mais ainda: começaram os desfiles, pela cidade, das escolas de samba, das orquestras metálicas do Caribe, grupos de "salsa", e outros.

Leia mais sobre o Carnaval de Nice no endereço: http://www.nicecarnaval.com.

Endereço para correspondência:
amelia.fer@globo.com