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EDIÇÃO 6 19 de dezembro de 2003
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A maga das oito: Janete Clair

Por Francisco Malta
Ator
Aluno do 6º período de Letras
Campus Rebouças

Quando o assunto é novela, ninguém consegue ficar alheio. Uma grande maioria gosta, acompanha e comenta entusiasmada. Outros lamentam não poder assistir como gostaria, mas também comentam e se atualizam através dos periódicos. E uma terceira fatia da população praticamente é insultada quando a conversa descamba para o capítulo do dia anterior. Sempre a telenovela no Brasil foi assim: alguns a favor, outros contra. Mas o público sempre comparece.

Segundo uma classe, não há nada mais desagradável do que elevar a patamares dignos de discussão uma sub-arte, produto de um veículo menor, ninho de atores incapacitados a serviço da mente estúpida de um escritor de quinta categoria.

Novela é cultura, em termos de Brasil. Autor de novela sabe o que faz e os atores, via de regra, dão conta do recado. A não ser... quando insistem em levar adiante uma idéia patética.

Mas quando se fala de telenovela no Brasil é impossível não citar o nome de Janete Clair. A ex-radioatriz e autora de muitos sucessos da época do rádio chegou à Globo em 1967, após uma passagem muito breve pela Tupi. Pouco tempo depois virava a "Maga das Oito". Não à-toa, Janete Clair ganhou o título que a consagraria. Ninguém como ela foi capaz de dominar a química do horário mais nobre das novelas, no qual passou a brilhar a partir de Véu de noiva, a novela que marcou um novo estilo de produção na TV Globo. A partir daí, foi uma coleção de sucessos, de Irmãos Coragem e Selva de pedra a Fogo sobre terra, de Pecado capital a O Astro, de Pai herói a Eu prometo.

Carinhosamente chamada de "usineira de sonhos" por Carlos Drummond de Andrade, Janete se defendia: "É pecado você dar uma distração ao povo brasileiro? A vida já é tão dura, a gente já luta tanto. Com exceção da novela, o resto é tudo ruim. Então, vamos alegrar povo". Na noite de 23 de janeiro de 1973, em plena ditadura, o Ibope registrou praticamente 100% dos televisores ligados na Rede Globo. O País parava para assistir ao último capítulo da novela Selva de pedra e descobrir o destino do romance entre Cristiano (Francisco Cuoco) e Simone (Regina Duarte). A autora da façanha era Janete Clair - responsável pela criação de uma linguagem própria para a teledramaturgia brasileira.

A autora deixou dois pupilos que também são venerados em todo o Brasil. O escritor Mauro Ferreira acaba de lançar o livro Nossa Senhora das Oito - Janete Clair e a evolução da telenovela no Brasil (editora Mauad). Para Mauro "a Glória [Perez] é mais próxima pelo estilo passional. Ela pode sacrificar a coerência em função da emoção. Em O Clone, o personagem ia ao Marrocos e voltava em dois dias. Já o Gilberto herdou os conflitos bem amarrados, personagens que, mais tarde, revelam uma ligação do passado com outros". Braga tem da novelista a crítica social, as cenas de ação, o mistério. 'Quem matou Odete Roitman?', de sua Vale tudo (88/ 89), recriava o 'Quem matou Salomão Hayala?', de O Astro, escrita por Janete Clair em 78. Perez ficou com os romances impossíveis, dilemas da ciência. Seus O Clone e Barriga de aluguel (90/91) têm como antepassado O homem que deve morrer (71/ 72), que falava de um transplante de coração, cirurgia nova no Brasil da época.

Os originais da obra de Janete, guardados por Dias Gomes até sua morte, estão atualmente no guarda-roupa de um de seus filhos, Alfredo, 43. É uma pilha interminável de pastas, com originais datilografados pela escritora nas únicas duas máquinas que usou na vida. Os papéis sofrem ação do mofo e de traças. 'Tentamos parcerias para guardar o material em local adequado. Seria ótimo se algum instituto nos ajudasse a preservá-lo', diz Alfredo.

O último capítulo da vida de Janete Clair teve como cenário o saguão do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no dia 16 de novembro de 1983. Lá, a autora de novelas mais popular de todos os tempos foi velada, seguindo para o cemitério São João Batista. No caminho, uma multidão saudosa aplaudiu e chorou. "Pela primeira vez, uma escritora estava tendo um enterro que o país se acostumou a ver apenas com os galãs da tevê. Ela tinha tantos fãs quanto os atores que suas novelas ajudaram a consagrar", afirmou, recentemente, o jornalista Artur Xexéo, autor da biografia Janete Clair - A usineira de sonhos.

Quando morreu, Janete Clair tinha 58 anos.