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EDIÇÃO 6 19 de dezembro de 2003
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Nelson Rodrigues - entre as Marias idealizadas e as Evas denegridas

Caroline Rohan
Aluna do último período de Letras
(Português/Literaturas)
Campus Rebouças
Em dezembro, irá defender a sua monografia,
cujo tema é a obra de Nelson Rodrigues

As personagens femininas nas obras teatrais de Nelson Rodrigues tinham uma presença muito marcante e se apresentam através de duas vertentes: a Maria "mulher idealizada" e a Eva "mulher denegrida". Essas personagens também transitam entre essas duas personalidades, e isso nos dá a idéia de que não há mulher somente pura, nem mulher especificamente denegrida, pois ambas retém um pouco de cada característica.

Nelson Rodrigues foi um autor que trabalhou muito as protagonistas femininas em suas peças. Em 1941, já em sua primeira peça, A mulher sem pecado, a personagem principal Lídia era uma mulher recatada que sofria a obsessão do marido - que achava que ela o traía. Logo em seguida, o autor teve grande sucesso com a estréia de Vestido de noiva, em 1943, cuja personagem principal era Alaíde, uma mulher que tinha o sentimento de culpa por ter roubado o namorado da irmã. Daí por diante, vieram muitas protagonistas como, por exemplo, Valsa nº 6, com Sônia; Dorotéia, com a personagem-título; Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, com Ritinha; Toda nudez será castigada, com Geni, entre outras.

Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues usou nomes de mulheres em seus romances publicados em folhetim como: Meu destino é pecar (1944), Escravas do amor (de 1945), Minha vida (de 1946), todos publicados com o pseudônimo de Suzana Flag. (pseudônimo de Suzana Flag). O Homem proibido (1949) e A mulher que amou demais (do mesmo ano, com o pseudônimo de Mirna).

Vê-se a transição da mulher "devassa" para a "esposa" em Toda nudez será castigada, em que a personagem Geni, uma prostituta, se envolve com Herculano, um empresário bem estabelecido. Herculano, em seu primeiro encontro com Geni, diz a ela: - Ninguém te humilha! Você está debaixo de tudo! Você é um mictório! Público! Público! (RODRIGUES, Nelson. Teatro quase completo de Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966 p. 280). Depois dessa humilhação contra a meretriz, Herculano se apaixonou por ela, que era estimulada por Patrício, irmão de Herculano, a se casar com o empresário. Com isso, Geni começou a cobrar o casamento: - Está tirando a roupa? Não tira a roupa! Cai fora! Sou de qualquer um, menos de você. Você só toca em mim casando! Só toca em mim casando!" (RODRIGUES, Nelson. Teatro quase completo de Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 1966 p. 299). Esse é um exemplo da transição de "Eva", mulher de lupanar, para "Maria", a esposa, pois dentro da perspectiva da moral cristã e da sociedade patriarcal, a mulher só caminhava nesses dois estigmas: prostituta ou esposa. Geni foi maltratada, humilhada por Herculano, sendo chamada até de "mictório público", porém, logo em seguida, por culpa da moira, o grande empresário se apaixona pela meretriz.

Até o momento em que Herculano se casou com Geni, esta era mal vista pelas três tias solteironas do empresário, por ser uma prostituta. E na discussão com Herculano uma das tias cogita:

- Serginho soube que você estava aqui com uma mulher. Uma vagabunda. Quis ver com os próprios olhos. E viu você e essa (não lhe ocorre a palavra), os dois, nus, de noite, no jardim, nus. Você e essa. O menino fugiu. Entrou num café, sei lá, num botequim. Pela primeira vez, bebeu. (p. 334)

Logo em seguida, por interesses familiares, essa perspectiva das três tias solteironas muda completamente, pois agora Herculano iria se casar com Geni e esta faria parte da família. Houve um mascaramento, um velamento da identidade de Geni pela três tias soleironas de Herculano, pois estas tinham de colocar Geni dentro dos parâmetros da fiel família burguesa, tentaram até "mudar", "esconder" o passado da mundana. Vejamos isso através do diálogo das tias de Herculano:

TIA Nº 2
(A medo) - Geni está com uns modos tão bonitos que nem parece uma mulher que (pára, a medo).

TIA Nº 1
(Autoritária e líder das outras) - Mulher que o quê? (ameaçadora) Eu não admito que na minha presença.

TIA Nº 2
(Apavorada) - Estou falando baixo.

TIA Nº 1
- O que é que você ia dizer de Geni?

TIA Nº 3
- Geni agora é da família.

TIA Nº 2
(Tiritando de timidez) - Mas eu ia elogiar Geni. (querendo agradar a outra) A gente olha pra Geni e não diz que ela foi da zona.

TIA Nº 1
- Você está louca?

TIA Nº 2
- Eu, louca?
TIA Nº 1
(Acusadora) - Sim, sim. Você é a mais velha de todas. (rápida e incisiva) Sabe o que é artério-esclerose? (para a outra) Não é, mana?

TIA Nº 3
- Está com artério-esclerose!

TIA Nº 1
- Geni nunca foi da zona. Honestíssima! Você é que pôs isso na cabeça, porque está fraca da memória. Artério-esclerose!

TIA Nº 2
(Quase sem voz, apavorada) - Não me internem! Eu não quero ser internada!

TIA Nº 1
(Incisiva) - Então, não repita, nunca mais, que Geni foi da zona. Geni se casou virgem.

TIA Nº 3
- Virgem.

TIA Nº 2
- (Doce, humilde e sofrida) - Geni se casou virgem.

O que podemos concluir é que a mulher dentro da sociedade patriarcal e burguesa era rotulada a partir dos dois estigmas, como já disse antes, de Maria e/ou Eva, e no caso de Geni em Toda a nudez será castigada mostra justamente que a personagem estava transitando entre esses dois estigmas. E concluímos que esses vertentes são conduzidas pela sociedade.

Para entendermos o porquê dessa simbologia dentro de nossa sociedade, é preciso que conheçamos um pouco da história social da mulher. Nos primórdios da civilização, as mulheres viviam em sociedades matriarcais, eram líderes e governavam as comunidades sem o menor intervenção dos homens. Nessa época, as mulheres faziam cultos à fertilidade, através de rituais sexuais para a deusa, sendo então comparadas a ela. Eram independentes e extrovertidas sexualmente. O sexo, nessas comunidades, era um ritual à deusa e representava a força da vida.

No entanto, essas sociedades não puderam viver em paz por muito tempo, pois os grupos de nômades regidos por homens invadiram os territórios governados pelas mulheres. Com isso, houve mudanças na religião, não havendo somente a presença da deusa, mas agora também dos deuses. Os homens começaram a oprimir os rituais sagrados das mulheres, reprimindo-as sexualmente, para assim tirarem a força sagrada que as elas tinham.

Deve ter sido neste ponto da história da humanidade que as mulheres começaram a ter o sentimento de culpa relacionado ao sexo. Em virtude disso, mais tarde, a Igreja também se aproveitou desse tipo de opressão para internalizar ainda mais esse sentimento na mulher.

Surge, mais ou menos no segundo milênio a.C., as "prostitutas sagradas" que eram encarregadas de fazer os antigos rituais de fertilidade, nos templos. Os homens que estavam no poder não queriam as mulheres comandando nada e cada vez mais as tolhiam. As sacerdotisas dos templos viraram prostitutas. Porém, nessa época, as mundanas não tinham o estigma que têm atualmente, porque eram consideradas sagradas e tinham um enorme prestígio dentro da sociedade. "A prostituição sagrada era um ponto focal no ritual religioso" (ROBERTS, Nickie. As prostitutas na história. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992, p. 23).

O trabalho das meretrizes tinha um enfoque civilizador, porque elas davam a música, a dança e a alegria aos homens, estabelecendo assim o amor e o prazer da vida, ligando eles com os deuses, através dos rituais sexuais que elas faziam, assim os civilizava.

A partir do momento que o poder se desloca para as mãos dos homens, a sociedade passou a ter uma estrutura hierárquica e, com isso, nasce a sociedade patriarcal.

As prostitutas-sagradas começaram a perder aos poucos o seu prestígio e inicia-se, então, o surgimento de uma divisão social entre a esposa e a meretriz, pois como já disse, a sociedade patriarcal era extremamente hierárquica e preconceituosa. E a partir disso, instala-se uma forma de casamento em que o marido era dono da esposa e dos filhos. Com isso, o papel da dócil mulher se firmava junto com o da devassa prostituta.

Ou seja, o papel que a mulher vem tomando, ao logo dos séculos, foi fruto da sociedade patriarcal na qual estamos inseridos. Nelson Rodrigues, através de seu teatro, enfoca o papel da prostituta como sendo uma mulher realizada, vivida, experiente, filósofa, conselheira, humana, esperta, portanto, em momento algum, o autor denegriu a imagem da mundana. Sendo elas apenas seres humanos como qualquer outro, tendo suas frustrações, suas virtudes, o sentimento culpa, a perversidade, as vaidades, as inseguranças e até mesmo a moralidades, entre outros fatores, que todos nós enquanto seres humanos sentimos.

Nelson Rodrigues retratou também isso em sua peça Viúva, porém honesta (1957), em que Madame Cri-Cri, uma mundana, foi chamada junto com os médicos (otorrino, psicanalista) e o diabo, pelo diretor de um famoso Dr. J.B. de Albuquerque, para resolver o problema da filha dele, que ficou viúva sem poder sentar. Madame Cri-Cri faz o papel de conselheira dos médicos e de Ivonete, como o próprio Diabo do Fonseca afirma: - Madame a senhora é um gênio!

Na época em que Nelson escreveu as suas peças, o estigma da prostituta parecia ainda mais forte do que está atualmente. Podemos tirar proveito disso para traduzirmos que o autor, com sua sensibilidade, pode perceber que a mulher, ao trabalhar, teria mais vivência de mundo e, assim, muito mais perspicácia para resolver problemas cotidianos. Isso já não poderia acontecer com esposa presa a costumes religiosos, à moralidade, à família, aos filhos, aos padrões da sociedade e à culpa, pois essas condutas ficaram enraizadas na alma feminina durante muito tempo.

Não podemos esquecer que a primeira profissão da mulher foi a prostituição, pois como já havia dito, a sociedade tinha um grande preconceito sobre a mulher, conduzindo esta sempre para os deveres domésticos e quem fugisse disso ficava sob certos estigmas. Sendo assim, as mundanas nas histórias de Nelson Rodrigues simbolizam a independência da mulher, que estava começando a se solidificar na sociedade no começo do século passado.

Ivonete, a filha de Dr. J.B., foi uma menina criada dentro de um colégio de freiras, era detentora de uma grande pureza, chegando até ao ridículo. Ou seja, essa menina foi criada dentro dos padrões da moral e dos bons costumes que estavam enraizados dentro da sociedade cristã. Uma mulher presa em um convento não conhece a vida, não terá a malícia que a sociedade atual requer. Como a própria Tia Assembléia comentou sobre Ivonete:

Mas ela é tão sem maldade que pensa, até hoje, que mulher pode casar com mulher!

Num diálogo entre Cri-Cri e Tia Assembléia, discute-se a integridade da mulher. Na visão do autor, não há uma separação do que é certo ou errado, pois sabemos que o ser humano tem múltiplas personalidades e não há ninguém especificamente casta ou devassa.

Cri-Cri
- Todo mundo tem sexo na cabeça!

Dr. J.B.
- Madame, vou apresentar: minhas cunhadas. Não repare: elas não se casaram... Esta é Madame Cri-Cri, minha conselheira...

Tia Assembléia
- A senhora não é uma que tem casas abertas?

Madame Cri-Cri
- Mais ou menos. O senhora é mulher honesta?

Tia Assembléia
- Honestíssima!

Madame Cri- Cri
- Tem úlcera?

Tia Assembléia
- Por que, madame?

Madame Cri-Cri
-Oh, só acredito em mulher honesta com úlcera... O virtude dá azia, úlcera... Mas eu não tem preconceito. Eu falar com mulher honesta... mulher honesta não é pior do que as outras.

Na peça Vestido de noiva (1943), Alaíde foi atropelada, teve traumatismo craniano e por isso começou a entrar num estágio de alucinação, tendo a memória fragmenta e, portanto, muito confusa. Então, a personagem se divide entre dois planos: o plano da memória e o plano da alucinação. No plano da memória, encontra com Madame Clessi, uma cocote de época que vivera e fora assassinada na casa dos pais de Alaíde.

Madame Clessi representa tudo o que Alaíde desejaria ter sido em vida e também, por estar no plano da memória, serve para situar as alucinações de seu inconsciente confuso. Alaíde havia lido em vida o diário de Clessi, que ficara esquecido no sótão da casa dos pais de Alaíde, com isso a moça recatada começa a se espelhar na vida da mundana. Clessi passou a ser um mito para Alaíde, pois tinha liberdade de escolha e era uma mulher extremamente independente. Podemos deduzir que a meretriz serviu como uma conselheira de Alaíde durante o seu estado agonizante entre a vida e a morte.

A personagem Ritinha de Bonitinha, mas ordinária (1961) também transita entre as duas esferas estancadas pelas sociedade. Ritinha era uma professora que sustentava suas irmãs e sua mãe, que ficara maluca por ser acusada de um roubo na empresa que trabalhava. Ritinha era uma mulher muito séria e se preocupava com as irmãs e, principalmente, com a virgindade delas. Ritinha conheceu Edgard e se apaixonou por ele, mas este iria se casar com Maria Cecília, filha do dono da empresa em que trabalhava. Edgard leva Ritinha ao cemitério, para dar o beijo de despedida para a vida de casado, lá os dois entram num túmulo vazio e Edgard pede o último beijo à moça. Esta faz a seguinte declaração ao rapaz:

(alto e insolente) - Você quer um beijo? (com violência) - Olha! Te dou o beijo e o resto! Tudo! Mas de graça, não!

Edgard
- De graça não?

Ritinha
- Três mil cruzeiros. É quanto eu cobro. Dou mil cruzeiros à dona e fico com o resto.

Edgard
(apavorado) - Olha p'ra mim!

Ritinha
(virando o rosto) - Edgard

Edgard
(desesperado apanhando o rosto da pequena entre as mãos) - Quero ver a sua cara.

Ritinha
(chorando) - Edgard, eu! eu!

Edgard

(feroz) - Fala!

Ritinha
- Eu continuaria se fosse outra. Mas escuta. De você, eu gosto. A professorinha é uma máscara. Eu sou outra coisa. (num desespero maior) - Vou com qualquer um por dinheiro! Não me compare à sua noiva. Eu não chego aos pés da sua noiva.

Podemos concluir que as personagens femininas de Nelson Rodrigues estão sempre nessas duas esferas estigmatizadas pela sociedade: ou são Marias recatadas, esposas, castas, sem voz ativa, reprimidas, sofridas ou são Evas vividas, safas, com voz ativa, realizadas, perspicazes.

BIBLIOGRAFIA

1) RODRIGUES, Nelson. O teatro completo de Nelson Rodrigues, 1: peças psicológicas/ organização Sábato Magaldi. RJ. A mulher sem pecado, Vestido de noiva, Valsa nº 6, Viúva, porém honesta, Anti-Nelson Rodrigues, ed. Nova Fronteira, 1981.

2) RODRIGUES, Nelson. O teatro completo de Nelson Rodrigues, 2: peças míticas/ organização Sábato Magaldi. RJ. Álbum de família, Anjo negro, Dorotéia, Senhora dos afogados, ed. Nova Fronteira, 1981.

3) RODRIGUES, Nelson. O teatro completo de Nelson Rodrigues, 3: tragédias cariocas I / organização Sábato Magaldi. RJ. A falecida, Perdoa-me por me traíres, Os sete gatinhos, Boca de ouro, ed. Nova Fronteira, 1981.

4) RODRIGUES, Nelson. O teatro completo de Nelson Rodrigues, 4: tragédias cariocas II / organização Sábato Magaldi. RJ. O beijo no asfalto, Otto Lara Rezende ou Bonitinha, mas ordinária, Toda nudez será castigada, A serpente, ed. Nova Fronteira, 1981.

5) RODRIGUES, Nelson. O teatro quase completo, IV. O beijo no asfalto, Otto Lara Rezende ou Bonitinha, mas ordinária, Toda nudez será castigada, ed.Tempo brasileiro, 1966.

6) PEREIRA, Victor Hugo Adler. Nelson Rodrigues e OBScena contemporânea. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1999.

7) MAGALDI, Sábato. Panorama do teatro brasileiro. 4ª ed. São Paulo: Global, 1999.

8) LINS, Ronaldo Lima. O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia. Rio de Janeiro, 2ª ed, ed. Livraria Francisco Alves, 1979.

9) PEREIRA, Victor Hugo Adler. Nelson Rodrigues e OBScena contemporânea. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1999.

10) ROBERT, Nickie. As prostitutas na História. Tradução Magda Lopes - Rio de Janeiro: Record: Rosa dos tempos, 1998.

11) História da vida privada no Brasil. Vol. 3, coordenação geral da coleção Fernando A. Novais; organização do volume Nicolau Sevcenko - Cap. 5 Recônditos do mundo feminino - Marina Maluf e Maria Lúcia Mott, São Paulo: Companhia das Letras, 1988.