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EDIÇÃO 6 19 de dezembro de 2003
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África essa nossa (des)conhecida - entre Tarzã e a produção cultural

Por Norma Lima
Doutora em Literatura Comparada pela UFF
(Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa)
Professora dos cursos de Letras da Universidade Estácio de Sá
Consultora da Fundação Cesgranrio

A Edward Said

Ao pensar no título deste trabalho para o Encontro com a África, promovido no campus Nova América pelos alunos do 6º período de Letras, com o apoio da coordenadora Ângela Fabiana, pretendi discutir dois aspectos: o da construção de um imaginário que projeta culturas para outras sob a perspectiva do eixo paradigmático e do reflexo disso na experiência de sala de aula, ao se ensinar estas Literaturas, desconhecidas para muitos alunos e, ainda, carregadas de mítica.

Compreender de que maneira a África é representada no Brasil - via olhar do colonizador, até 1975, ou atualmente pela cultura de massa, através da qual são veiculadas imagens relativas à miséria, à AIDS, à violência, é entender que, nestas representações, estão afastadas as suas produções culturais e literárias, devido a um mecanismo que Edward Said muito bem analisou no clássico Orientalismo,1 que, adaptado para a questão dos estudos africanos, nos faz compreender os países africanos de língua portuguesa (objeto do nosso interesse) como uma comunidade de interpretação, onde, no período colonial (e agora, também) não era interlocutora da Europa, mas sim, apenas, o seu Outro silencioso.

Ao se lançarem nas viagens que colonizaram terras, os navegadores portugueses alimentaram, na divulgação dos seus feitos heróicos, toda uma visão terrível e apaixonante da aventura trágico marítima, na qual havia o espetáculo dos mastros arrancados, dos cascos destruídos pela tempestade, o pavor e os gritos dos náufragos, a engenhosidade dos homens que tentam se salvar, e depois a longa e arriscada marcha dos sobreviventes pelas terras desoladas da Àfrica, os ataques dos negros e das feras, a fome e a sede.2 Por ocasião da descoberta do Brasil, a propósito, lembremos que este foi retratado como a própria materialização do paraíso. Percebido como ilha, esta leitura estava sintonizada com o ideário dos Descobrimentos que as associavam ao mito da bem-aventurança, como bem colocou Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso,3 ao afirmar que a conquista destas regiões maravilhosas só poderia ser acessada após se passar por inúmeras situações de perigo. É preciso recordar que, durante séculos, o Atlântico foi considerado incapaz de ser percorrido por embarcações, fato revertido pelo empenho dos cartagineses e dos árabes, sendo convertido, no século XV, no principal centro de interesse econômico europeu.

Ao colonizar povos recém-descobertos, o colonizador fundou o eurocentrismo, fazendo com que os colonos ingressassem na sociedade de mercado, mas somente na condição de escravos, portanto, como elementos passivos, fadados à permanecerem à margem e a receberem a orientação dos detentores das técnicas, que salientavam a soberania portuguesa. Soberania, esta, que vai legitimar um olhar sobre os seres considerados inferiores, por pertencerem a uma economia de subsistência e não de mercado; por deterem, inclusive, a cultura oral e não a escrita.

Deste modo não é difícil perceber que o registro destes povos foi realizado de modo arbitrário, de forma a passar as interpretações que os europeus detinham sobre eles. Em termos de uma produção literária de expressão portuguesa, foi somente a partir de Claridade - revista de arte e letras,4 que ocorreu uma legitimação do discurso africano que passa a contar a sua própria história, não mais tendo-a contada por aquele que o subjugara, ensinando-lhe a Língua Portuguesa, somente para que este colonizado escrevesse o que o colonizador gostaria de ler.

Naturalmente que tal constructo do imaginário sobre a África demorará a ser destruído em termo de ensino destas Literaturas, porque ele ficou comprometido, no Brasil, durante anos, com um profundo preconceito acadêmico que tendia a ver tais produções como um produto menor, panfletário, sem importância dentro do canône dos estudos literários. Para tal contribuiu, significativamente, a situação ditatorial instalada no Brasil pós-64, que retirou esta disciplina do currículo de Letras, por considerá-la subversiva, pois que estas produções denunciavam a situação vivida pelos povos africanos, na qual inexistia liberdade. Não é difícil entender o porquê de terem sido temidas, naquele momento. Deste modo, foram tachadas, injustamente, como panfletárias, destituídas de valor estético, por muitos que a julgavam (e julgam) sem, contudo, nunca a terem lido.

Neste ponto, vale a pena traçarmos um pequeno histórico sobre o desenvolvimento do ensino destas Literaturas. Quando começaram a ser divulgadas em Portugal, nos fins dos anos 70 e início dos 80, estas Literaturas eram, então, praticamente desconhecidas. Coube ao crítico português Manuel Ferreira tal mérito, inclusive o de estender a circulação destas obras para a grade curricular das universidades, criando a disciplina, obrigatória a partir do ano letivo de 1974/1975. Anteriormente a isso, a disciplina esteve proibida, por Salazar, de ser ensinada. A partir desta data, ainda recém-criada, ela encontrou resistência de alguns setores acadêmicos por, segundo Manuel Ferreira, a universidade ser lenta, parada, renitente e reticente em relação ao novo, que desencadeia uma reação e/ou muitas vezes, rejeição à nova realidade.5

No Brasil, a disciplina é ministrada desde os anos 70 na Universidade de São Paulo. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi implantada em 1986, seguida de outras iniciativas como as da Universidade Federal Fluminense, da Universidade do Estado de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica (MG) e, mais recentemente, as das Universidades Estácio de Sá, Gama Filho e Cândido Mendes.

Embora estejamos observando o aumento do interesse pelas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, os problemas de bibliografia e material de apoio não foram sanados. Continuamos, em 2003, a elaborar textos para os alunos em cópias xerográficas a fim de suprir a falta de livros. Cabe ressaltar que, embora essa prática não seja recomendada pelo MEC, não há interesse efetivo das editoras brasileiras em publicar os autores africanos e/ou a bibliografia crítica de tais obras. Esta realidade foi assim definida pela professora Tânia Macedo, da UNESP:

A situação advinda da falta de bibliografia em um Curso de Letras tende a ser algo kafkaniano, em função do círculo vicioso que se instaura: às editoras não interessa a publicação de material didático na área, já que são poucos os consumidores. Por outro lado, na falta de livros disponíveis, reside a pouca divulgação das Literaturas de Língua Portuguesa e, conseqüentemente, a quase inexistência de interessados nelas.6

Mais do que uma ramificação ou um duplo da Literatura Portuguesa, as Literaturas Africanas se afirmaram com um caráter próprio. Produto de uma sociedade colonizada durante séculos e, portanto, desestimulada à criação, elas conseguiram encontrar o próprio caminho, principalmente no transcorrer do século XX, quando saíram da situação colonial para uma outra perspectiva: a de questionarem a sua condição colonial até adquirirem a liberdade. Em tempos de altas tecnologias, enquanto as editoras não publicam estes livros, serve-nos de consolo a facilidade de entrarmos em contato com os autores, via internet. Mas ainda esperamos pelo momento em que o nosso trabalho com estas Literaturas possa ser mais sistemático, longe do clima de improvisação e, sobretudo, vistos com olhos menos tarzanicos, desprovidos de um estúpido preconceito canônico.

Notas:

1. SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

2. CHANDEIGNE, Michel (Org.). Lisboa Ultramarina: 1415-1580, a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p. 70.

3. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. 6ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 20.

4. FERREIRA, Manuel. (Org.) Claridade - revista de arte e letras. 2ª ed., Lisboa: ALAC, 1986.

5. _________________. O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano Editora, 1989, p. 262.

6. MACEDO, Tânia. Um nó, muitas pontas: algumas reflexões sobre o ensino de literaturas africanas de língua portuguesa nos cursos de Letras do Brasil. In: SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. I Seminário das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996, p. 74.