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EDIÇÃO 6 19 de dezembro de 2003
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ENTREVISTA COM FLÁVIO R. TAMBELLINI

Por Francisco Malta
Ator
Aluno do 5º período do curso de Letras
Campus Rebouças

Quem é Flávio R. Tambellini, para os que não o conhecem

Filho de Flávio Tambellini (fundador do Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica - GEICINE - e do Instituto Nacional de Cinema - INC, na década de 60, além de diretor de filmes como "Beijo", a primeira versão filmada para a famosa peça de Nelson Rodrigues "O beijo no asfalto"), Flávio R. Tambellini, também tornou-se produtor e diretor de TV e cinema.

O filme "Bufo & Spallanzani" é o primeiro longa-metragem, como diretor, de Flávio Tambellini, renomado produtor nacional, que reuniu um elenco de estrelas e levou para as telas um best seller da literatura policial brasileira. Com roteiro adaptado pelo próprio Tambellini e Patrícia Melo, com a ajuda de Rubem Fonseca, o filme foi o grande vencedor do Festival de Cinema Brasileiro de Miami do ano passado.

ENTREVISTA

1. Como você vê a retomada do Cinema Brasileiro? Afinal, pelos indicadores, tem aumentado o público, talvez nem tanto como desejado, mas o salto parece indicar aprovação.

FLÁVIO: Com certeza o cinema brasileiro atravessou momentos de altos e baixos. Desde que eu me entendo, o meu pai fazia cinema e tal. Momentos de euforia e momentos de crise sempre existiram. Tem sempre aquela manchete: euforia - o cinema indo bem. E, depois, a depressão. Sempre o cinema, aqui no Brasil, é uma atividade quase ciclotímica. Mas eu acho interessante que dá para perceber que isto está se revertendo e há uma continuidade. A coisa mais importante na atividade cinematográfica é uma continuidade de feitura de filmes, porque isso esquenta o que está em torno do cinema. A distribuição, a exibição, a qualidade de pós-produção, porque o cinema se auto-investe. Você tem filme, tem investimentos, tem novos filmes. Então... parece que agora o processo está com a cara de ser contínuo e mais definitivo.

2. A idéia de violência, com pouco mais ou menos de realidade, sempre gera filmes que atraem o público, como foi o caso de "Cidade de Deus" e "Carandiru". Seria o cinema como que um espelho da sociedade? Um auto-reconhecimento do país refletido na tela?

FLÁVIO: Eu acho que o cinema no Brasil... os temas também são de interesse cíclico. No momento de "Cidade de Deus", e logo depois "Carandiru", havia uma curiosidade tão grande do espectador, do público, de entender o que é que estava acontecendo. O que é que é isso? Como é que é o tráfico? No específico "Cidade de Deus", como é que surge o tráfico nas favelas? Então, veio assim... Fora a qualidade do filme, a linguagem do filme também pegou muito o público jovem. Acho que existiu uma curiosidade em saber disso. A mesma curiosidade que havia no "Carandiru". O que é isso? Como é que funciona o presídio lá dentro? Então... claro que a vantagem de um cinema feito no próprio país é se refletir, é se mostrar. No filme americano, você não vai ver a nossa realidade, nem no filme francês. Enfim... o cinema nacional, ele tem esse viés de poder olhar, e especificamente na questão da violência, não acho que vá continuar, acho que é um determinado momento. Agora você tem os filmes mais leves, tipo: "Lisbela e o Prisioneiro", "Os Normais", que estão tendo público. O que não impede que daqui a pouco venha um filme sobre violência e atraia espectadores. Eu acho que é mais do que uma questão de violência: é uma questão do entendimento do que está acontecendo.

3. Você acha realmente que a imagem que o cinema brasileiro está levando para o exterior é de violência e de miséria? Isso ouvimos principalmente da classe política. Qual a sua opinião sobre isso?

FLÁVIO: Eu acho uma prova de civilidade e grandeza você mostrar o seu lado ruim, seus problemas. Só quando você está maduro, você faz isso; então, assim, na época do Cinema Novo também, com "Vidas Secas", aconteceu assim. Você falava assim: Ah! tá mostrando... Então, acho que na verdade existe também o interesse lá fora de ter conhecimento disso. Quer dizer, o interesse é recíproco. Ou, então, às vezes acontece alguma coisa até um pouco... exótica, queremos ver o Brasil dessa maneira. Uma vez eu encontrei com o Ruy Guerra num festival de Cannes, ele tinha passado "O Estorvo", ele falou uma frase engraçada: "A nós não é dado o direito da crise existencial". Então... o que essas pessoas criticam, elas esquecem que ao mesmo tempo em que está mostrando uma violência (essa violência que existe), está mostrando uma qualidade na produção de filmes, uma capacidade industrial de realizar filmes competitivos: só quem está bem faz isso. Quer dizer, então: o filme não chega só mostrando o fervo, mostra o filme com a qualidade boa, com atores bons, com a música boa. Isso é o Brasil também.
Essa representatividade do Brasil está aí, intrinsecamente ligada ao filme.

4. Então o que está faltando ao cinema brasileiro para que ele tenha uma maior projeção internacional?

FLÁVIO: Essa questão de cinema lá fora é complexa. Primeiro um domínio, muito violento, forte, do cinema americano. Hoje, qualquer filme de outra nacionalidade enfrenta uma dificuldade, porque existe um predomínio do cinema americano. Em muitos países, atuam com 80 a 85% do mercado. E você ainda tem os filmes nacionais. Então, os espaços são pequenos. Eu acho que o que falta... é uma questão da barreira da língua. Isso existe. Um filme com subtítulo, ele já tem um mercado menor, então assim é uma série de fatores. Mas o importante é você ir abrindo espaços para o filme. Nós temos um enorme mercado aqui, na América do Sul, em que os filmes não passam. Somente há pouco tempo começou a passar filme brasileiro na Argentina. Temos que explorar isso, filme brasileiro na Argentina, no Chile. Enfim... trilhar outros caminhos. Quase não passa filme brasileiro em Portugal, nem na Espanha, então acho que é um processo contínuo, árduo; não existe uma fórmula, o importante é estar sempre fazendo filmes.

5. Em termos técnicos, o cinema brasileiro não tem se aproximado perigosamente da linguagem da TV, diferente da Europa, por exemplo?

FLÁVIO: Eu acho que nós estamos aqui falando de filmes da Globo. Filmes, talvez mais como filmes que são feitos de pessoas que vêm da televisão, ou então são programas tipo "Os Normais", que são feitos adaptados para cinema, mantendo uma linguagem de televisão. Não acho que a grande maioria do cinema brasileiro... também não estou querendo ser contra, estou colocando o que eu acho que vem de outras fontes. Teve uma época também que se criticou muito cinema brasileiro que era feito por publicitário. Existia uma turma do meio: Conspiração, O2 (Fernando Meirelles), o próprio Walter Salles, que fez uma época. Besteira! Quem tem talento e qualidade, né?...

6. O que você acha dessa estética "clean" do cinema atual, em que mesmo aqueles filmes feitos nos morros e favelas têm a linguagem e a fotografia dos comerciais? Seria um mecanismo para viabilizar a produção?

FLÁVIO: Acredito que a maneira de novos mecanismos de produção vem sendo... parece que agora o governo Lula acordou para a questão do cinema. Os novos mecanismos de incentivo à produção, à distribuição que estão surgindo, isso com certeza democratiza mais para a feitura do filme. A questão da distribuição e exibição é mais complicada, porque você tem que enfrentar os filmes de grande bilheteria americana e tentar ter um filme de grande bilheteria (nacional). Então, às vezes, o filme de bilheteria obedece a um padrão mais aceito, talvez televisivo. Mas eu não acho que isso vá sendo uma tendência majoritária. Acredito que tem muita gente nova, muita gente estudando cinema, se preparando, muita pergunta, gente de talento, e as pessoas vão ocupar o espaço... e vão existir os filmes influenciados pela televisão, pelo estilo publicitário. Acho que vai ter de tudo.

7. Muitos criticam a liberdade da adaptação, como foi o caso, por exemplo, da minissérie "Os Maias", em que outras obras de Eça de Queiroz foram usadas, além da que nomeou a produção. Como você entende essa questão? O roteirista pode inventar ou isso seria uma traição à obra original?

FLÁVIO: Bem... eu quero dizer assim... onde nós estamos com problemas ainda no Brasil é na área de roteiro. Surgiram alguns roteiristas, mas ainda assim a formação de roteiristas para televisão é muito maior. Roteiro de cinema é completamente diferente de roteiro para televisão, roteiro de teatro. É uma área que nós temos que desenvolver mais. O que existe são adaptações livres. Você pode mexer... No caso do Eça de Queiroz, você não tem que pagar direitos, porque é domínio público. Daí, pode alguém pegar o Eça de Queiroz e transformar numa Opereta Rock. É completamente livre. Eu, pessoalmente, acho complicado você pegar um autor tão milimetricamente elaborado e misturar. Mas isso daí não é proibido. Em questões de livros, adaptação de livros, eu já produzi alguns, dirigi. Depende do contrato que você faz com o autor.

8. Falemos um pouco sobre o universo de Rubem Fonseca, que é muito rico. Por que você o escolheu? O que é mais importante na adaptação de um livro para roteiro: fidelidade à história ou interpretação?

FLÁVIO: No caso do Rubem, quando eu adaptei, mexemos muito na história original. Mas eu mexi na história com o próprio Rubem. Então, brinco assim: olha, "mexemos, mas com você, não pode reclamar". Ele juntou personagens. E quem adaptou primeiro comigo foi a Patrícia Mello. Também é uma escritora admiradora do Rubem, que tinha o Rubem como mestre. Então, na adaptação do Rubem, quis tratar o Rubem como um autor clássico, apesar dele ser atual. Eu quis respeitar o universo dele. Eu acho que o Rubem é igual ao Nelson Rodrigues, o Jorge Amado: tem aquele universo, personagens recorrentes, o delegado incorruptível, a mulher grãfina. Eu achei que não devia mexer muito nisso, eu queria transportar para a tela o universo do Rubem. Então, eu mexi um pouco nos diálogos. Foi uma opção que eu tive. Eu escolhi essa. Poderia ter feito uma leitura de Rubem. Mas fiquei mais interessado em manter o universo, o espírito da obra. Tem filmes que fazem uma releitura e fazem super bem.

9. Nesse caso, entra a sensibilidade e a criatividade do roteirista...

FLÁVIO: É porque Nelson Rodrigues falava que morria de medo quando via os autores de vanguarda mexer no texto dele. E falava: Meu Deus! Você tem que separar, até com Shakespeare. Se você tem uma inteligência autoral e pega certa idéia que está estabelecida e mexe com isso, avança isso, é bacana! Agora, se você quiser ser melhor do que o autor, é complicado.

10. Um bom roteiro pode ser considerado um trabalho literário, artístico?

FLÁVIO: Pessoalmente, acho que não. Claro que você pega um roteiro de filme, "Apocalipse Now", por exemplo: o roteiro é humano, denso, dentro teve elaboração. Tem "n" exemplos até em roteiros de Fellini, Bergman. Mas o roteiro obedece a algumas regras. E muitas vezes as pessoas se confundem, lêem o roteiro, que é bom de ler, e dizem: "olha, li um roteiro que daria um filme ótimo". Às vezes, não. Porque tem regras que você tem que obedecer, tem personagens, o crescimento do personagem, que não pode desaparecer por muito tempo, a questão do conflito, a questão de mostrar aquilo através de imagens e não ficar preso ao texto. O Cinema é imagem. Às vezes, você pega um roteiro em que tudo é falado e explicado através do diálogo. Mas você tem o recurso da imagem. São duas coisas diferentes.

11. Anteriormente, você falou sobre a crise de roteiros e roteiristas. Podemos perceber que existe uma lacuna aqui no Brasil no que tange a formação de roteiristas. Você não acha que falta uma especialização?

FLÁVIO: Absolutamente, Francisco. Acho isso uma lacuna, porque laboratório das idéias são os roteiros. Tiveram... existem alguns cursos de roteiro. Teve esse Syd Fyld, que é autor de livros sobre roteiro. Já veio aqui, deu vários cursos e tal. Mas falta... falta uma cátedra: Roteiro. Vamos estudar os grandes roteiros, as regras de roteiro. Evidentemente que o roteiro tem fórmulas. Outro dia, estava lendo um livro, "Táxi driver", que é considerado um bom roteiro. O roteirista o escreveu em dez dias. E é um roteiro bom. Então, depende também da criatividade e do talento. Mas tem algumas regras, algumas questões que têm que ser estudadas.

12. Vamos falar sobre o seu trabalho como diretor. Quem foram os grandes mestres do cinema que o influenciaram?

FLÁVIO: Olha... eu, quando garoto, gostava muito do cinema americano independente, diretores até egressos da televisão que foram para o cinema. Eram os caras da nova esquerda americana. Depois, Copolla. Scorsese foi o cinema que eu aprendi, quer dizer, eu cresci vendo esse tipo de filme: "Blow-up", do Antonioni, foi o que me marcou. Aí, tinha os filmes clássicos americanos, assim década de 40, eu gostava muito dos filmes italianos... Fellini. Os filmes japoneses. Acho que todo mundo que faz cinema tem uma influência meio múltipla. Difícil você fazer um filme, ficar obcecado por um cineasta.

13. Você sente influência de algum diretor em particular em suas obras?

FLÁVIO: Olha, no "Buffo" a gente brincava com isso... Existia um tipo de filme de cinema independente nos anos 40, nos EUA, que eram os filmes B. Eram os filmes feitos em poucas semanas, com sobras de estúdios dos grandes filmes, que tinha assim um clima noir, que a gente até brincava, que o Breno Silveira, fotógrafo, falava "a gente vai fazer um "noir tropical". Mas eu acho que essas idéias também estão muito diluídas. Você vê tanto filme! De repente, há um filme que não é tão bom, mas te marca por alguma coisa. No Brasil, assim... nos filmes que eu produzo e tal, a gente também é influenciado pela maneira de fazer o filme. Uma criação mais coletiva. Não fazer um filme numa escala industrial em que as pessoas são departamentalizadas.

14. Como diretor, qual a parte do filme que você sente mais sua, ou seja, onde você acha que a sua direção faz mais diferença? É com os atores?

FLÁVIO: Você, num filme, você tem alguns casamentos. Quando você está começando, aquele casamento é com o roteirista. Depois, você trabalha com a direção de arte. Na hora de filmar, com o fotógrafo; depois com o editor. Você tem várias parcerias. Eu acredito que o cinema é uma atividade coletiva; mesmo os diretores mais autorais, eles são... você ouve opinião o tempo inteiro. Então, você tem que ver as opiniões que são boas para o filme. Não se fechar. E, ao mesmo tempo, não perder a sua verdade. Eu acho que a grande história dos filmes é com os atores. Eu acho porque, se você sente que tem o respeito dos atores, você estabelece o canal. É ótimo.

15. Na edição, você muda algo da idéia original?

FLÁVIO: Com certeza, com o roteiro do filme você faz até a edição. Na filmagem, você muda muito. Existe até um movimento nos EUA, onde os roteiristas querem estar na filmagem e na ilha de edição para manter a integridade do roteiro. Só que o roteiro é uma coisa meio flexível. Às vezes, durante a filmagem, o ator fala um texto de uma maneira que escrevendo muda. Olha, quando você está filmando, você percebe que aquela cena que você está fazendo já foi dita em outra cena (a mesma coisa). Então, você vai... às vezes tem idéias novas. E depois, na edição, você pode inverter uma história, mudar a ordem. Fazer montagem paralela. Não que isso aconteça, quer dizer, tem uma hora que você brinca com o roteiro.

16. Drummond já dizia que "escrever é cortar palavras". Mineiramente nos adverte que um texto bom é um texto "enxuto". Creio que no cinema também ocorre isso. Estaria eu correto em afirmar que a pressa em benefício de um produto pode comprometer o resultado?

FLÁVIO: Eu acho que o cinema tem uma divisão muito nítida. É muito produto. Nós, hoje, estamos consumindo muito produto: não são filmes, são produtos. Um produto comercial. É um produto que vai atingir isso. O "Matrix", o terceiro, vai atingir esse público, "Os Normais" é um produto. Então, você tem esse produto, trabalha em cima da data, do prazo de entrega... tem que lançar na época tal, que é quando as crianças vão estar de férias. Esses filmes trabalham com isso, você vai pegar um filme mais requintado que trabalha com mais idéias do que um pensamento. Realmente, uma pressa, um corte... às vezes, você tem que ter filme pronto para tal festival. Aí você corre... corre e não tem aquele tempo de respiração. Depois, então, você corta o filme. O filme fica pronto e você pensa: "É. Aqui, eu poderia ter mudado isso". Então, com certeza, por outro lado, o fato de você ter prazo é bom, porque no cinema você pode ficar ali divagando, então eu acho que tem que ter um meio termo.

17. Você, como produtor: que tipo de filme te interessa investigar, oferecer ao público?

FLÁVIO: Eu vou dizer assim (é até um erro): eu nunca coloquei o público na frente. Na verdade, os filmes que eu produzi, eu achei que a história era bacana, tinha alguma novidade e que eu poderia estabelecer uma parceria com o diretor. Eu gosto de produzir ligado à questão do diretor. E sempre considero a questão do público, assim, uma icógnita. Nunca soube direito. Hoje, eu penso mais. Ou você faz um filme mesmo e produz para o mercado e tal, ou é muito difícil você saber que vai bater no público. Até no próprio "Carandiru", em que fui co-produtor, eu nunca pensei que fosse ter um público grande.

18. E quanto às parcerias? Quais as vantagens e desvantagens?

FLÁVIO: Eu acho o seguinte: tudo tem vantagens e desvantagens. Até que ponto você hoje consegue fazer um filme completamente fechado em você mesmo? Vou fazer um filme que eu tenha total recurso. Vou fazer um filme como eu quero, da maneira que eu quero. E daí? Você tem que tomar cuidado, ou o filme vira obra-prima, ou pode virar um filme, que você, tendo um esforço ilegível, não tenha onde passar. Vai passar no Laura Alvim? Essa que é a questão! As distribuidoras americanas têm vantagens e desvantagens. As vantagens é que elas têm o poder de barganha com as distribuidoras. Uma produtora americana, que vai lançar um filme de muito sucesso, como ela tem o seu filme, fala: olha, tem o "Matrix", tem um filme brasileiro, quero o trailer colado. Uma coisa comercial. Por outro lado, na hora de lançar assim seu filme, fica combinado um fim de semana. Deu público? Se não vai atingir... É número. É cruel. Uma produção pequena, como "Amarelo Manga", ou qualquer um que você consiga manter o filme em poucas salas, evidentemente, que você consegue falar de um filme com o boca-a-boca maior. Mas muitas vezes o lançamento é pequeno e depois de duas semanas o filme morreu. É um jogo complicado, porque cinema, a produção é uma parte do filme. Depois, vem a distribuição e a exibição. São atividades capitalistas. A verdade é essa: o lucro é visado. Como lidar com isso? Todo cineasta já sofreu com isso.

19. Que conselho você daria para quem quer seguir uma carreira de diretor de cinema?

FLÁVIO: Bem... Primeiro é estudar, se preparar, fazer faculdade de cinema, mesmo que a faculdade não seja um nível ótimo, mas só de você já tomar uma decisão de fazer uma faculdade, se direcionar para isso, é muito importante. Segundo, é ver muito filme. O que eu vejo, e às vezes eu fico impressionado, é uma galera nova que não viu nada ... Viu filme americano e não viu nada de Fellini e Bergman. Acho que tem que ver bastante filme. Filme brasileiro também. O terceiro é começar a buscar estágio, começar no momento a buscar estágio ali... Ver na prática aquilo. O interessante da faculdade de cinema - e toda vez que eu trabalho em um filme, eu coloco um assistente (estagiário) - é que você vê que é uma opção. O cara quer fazer cinema. O cinema, às vezes, atrai muita gente diletante. Ah! Eu vou fazer cinema! Acha que é glamuroso, porque é cinema. Quando chega lá, vê que é outra história; acho que isso (a prática) dá outra dimensão. E a pessoa se posiciona como quem quer fazer cinema. E se tiver chance e tiver recurso, fazer alguma coisa fora, um aperfeiçoamento.

20. Para finalizar, Flávio, quero retomar uma fala sua, em que você diz que o seu pai também foi um cineasta. Qual a primeira imagem que você guardou do cinema? O que ficou gravado na sua memória afetiva?

FLÁVIO: Eu tenho, Francisco... É muito para trás isso. Eu nasci em São Paulo. Eu morava num bairro residencial... Na verdade, era um condomínio de jornalistas, meu pai era jornalista e eu me lembro de uma sessão de cinema que só tinha no bairro. Era com um lençol pendurado e um filme projetado no lençol!... Me lembro disso: um lençol pendurado. E tinha um problema de vento às vezes, nem me lembro qual o filme, só me lembro dessa imagem do filme projetado no lençol.

Conheça mais sobre o entrevistado, visitando o endereço:
www.imdb.com/name/nm0848542

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