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EDIÇÃO 6 19 de dezembro de 2003
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Renascer

Por Ana Paula Smolka
Ex-aluna do curso de Letras da Estácio
Campus Rebouças

Em época de Natal, nada melhor do que falar sobre nascimento e amor. Falemos então de quando eu nasci, ou melhor, renasci. Esta é a sensação que se tem quando se é mãe. Claro, não apenas esta. Quando minha filha nasceu, vi-me bem no meio de um turbilhão de emoções que se misturavam e alternavam em questão de minutos. Alegria, tristeza, medo, insegurança, mas, acima de tudo, a sensação de que eu ia explodir, sufocar por causa de um volume desconhecido e enorme dentro do meu peito. Queria falar com alguém para talvez assim me livrar daquilo, ou, pelo menos, descobrir o que era; mas como explicar?

Sobretudo quando olhava minha filha deitadinha no berço, ou quando a pegava no colo enquanto ela me observava com aqueles enormes olhos de Hamtaro.* Nesses momentos sentia esse volume. O que será isso? Perguntava-me. Deixaram de me contar muitas coisas sobre maternidade, mas se tivessem contado, talvez não fizesse diferença. Afinal, sobre esse sentimento não deixaram de me falar. Sim, já haviam me falado, mas sentir? Ah, sentir é outra coisa... É intenso, profundo e sofrido você sentir isso pela primeira vez, pelo menos até se acostumar. Era como o leite descendo, leite de mais para boca de menos. Mamas cheias, volumosas, doloridas, cheias de leite para alimentar meu bebê. E peito cheio, dolorido, me angustiando e sufocando até eu descobrir que aquilo era amor. O tão comentado amor de mãe. E eu que nunca pensei que pudesse amar assim.

Até a produção de leite se estabilizar de acordo com o que o bebê necessita leva um tempo e é um período bem doloroso, tanto físico quanto emocionalmente. O mesmo aconteceu com o amor que eu senti por aquela criaturinha tão pequenina e indefesa, mas ao mesmo tempo, tão valente, que venceu a hipertensão da mãe e a subnutrição placentária, tirando tudo isso de letra. O amor se estabilizou no meu peito; já não me sufoca, não me martiriza, apenas jorra. Jorra com força na direção da minha menina, do meu marido e de todos que se aproximam de mim. Porque você se torna uma pessoa melhor, com mais esperanças, mais feliz. E quando estamos felizes, queremos ver todos felizes, queremos fazer o bem. Ainda agora me pergunto se o que sinto não é amor demais. E respondo-me: não, amor nunca é demais.

Um Natal cheio de amor para vocês.

* Hamster personagem de desenho animado japonês.