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EDIÇÃO 5 29 de novembro de 2003
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BIOGRAFIA - DANTE ALIGHIERI

Dante no exílio

Nascido em Florença (maio ou junho de 1265), Dante pertenceu a uma família de pequena nobreza, graças ao título de cavaleiro, outorgado a seu trisavô Cacciaguida, pelo imperador Conrado III. A família, de condição modesta, vivia do comércio local, de câmbio e pequenos empréstimos: uma típica família florentina dos séculos XII e XIII. As reviravoltas da Cida política foram a causa do exílio de Bellincione, o avô de Dante.
Aos 5 anos de idade perdeu a mãe. Tempos depois morre o pai, comerciante que fez maus negócios. Dante, então, torna-se chefe de família, aos 16 ou 17 anos. Recebera instrução que se ministrava aos jovens florentinos de sua condição social: instrução primária – gramática e retórica – na casa de um pedagogo, e, depois, o ensino do "trivium" e do "quadrivium" na escola da igreja episcopal.

Dante parece não haver se interessado pelos negócios comerciais da família. Muito cedo, ele se consagra à poesia: o soneto "A ciascun'alma presa" que encabeça a Vita Nuova, parece ter sido escrito em 1283. Nos estudos, dedica-se, de início, aos literários, filosóficos e teológicos (1290-1294). Depois de passar, talvez, pela Universidade de Bolonha (1287), ele freqüenta intelectuais florentinos, particularmente Brunetto Latini (consagrado escritor florentino) e Guido Cavalcanti (que lhe possibilita ingressar numa camada da sociedade inacessível a sua pequena nobreza), recebendo bastante influência na obra. Assimila a retórica clássica e medieval, a cultura francesa, a poesia cortês siciliana e toscana.
Em 1289, as obrigações militares interrompem a sua atividade literária, já que toma parte nas batalhas de Campaldino e de Caprona. Em 1290, reinicia os estudos, voltando-se para a filosofia, principalmente Cícero e Boécio, e para a teologia, na escola de religiosos de Santa Croce e de Santa Maria Novella.

Os interesses de Dante, no entanto, não se limitam aos estudos. Em 1295, aos trinta anos, passa a tomar parte na política florentina, à beira da guerra civil. A motivação foram as novas medidas que devolviam os direitos civis aos nobres, com a condição de que se inscrevessem numa corporação. Dante inscreve-se imediatamente na dos médicos e farmacêuticos. Até o ano de 1300, participa ativamente da vida política de Florença, tendo assento em diversos conselhos e é encarregado de missões diplomáticas importantes.
Dante faz-se notar pela política firme contra os "magnati" e pela oposição aos Pretos, os quais, como seu chefe Corso Donati, sustentavam na Toscana as ambições políticas do Papado. O engajamento político não retirará Dante da criação poética: ele compõe a Vita Nuova (1293-1295).

Em 1300, é eleito membro do Colégio dos Priores. Neste cargo ficou 2 meses, juntamente com outros 5 priores que exerciam o colegiado do poder executivo de Florença. Seu priorado á assinalado por sangrentos motins, que causam o exílio dos principais chefes dos Pretos e dos Brancos – entre estes últimos achava-se Guido Cavalcanti. Porém, como a entrada em Florença de Charles de Valois, que fora enviado pelo Papa para pacificar as dissensões entre as facções adversárias – os Pretos e os Brancos –, o partido dos Pretos triunfa e toma o poder. Dante, que pertence ao partido dos Brancos, derrotado, acusado de corrupção, improbidade administrativa e oposição ao Papa.

De acordo com os relatos, Dante, que havia ido a Roma para uma audiência com o Papa, não teve oportunidade sequer de retornar antes de sua condenação, em janeiro de 1302. Sentenciado a uma pena pecuniária, a dois anos de prisão e à perda dos direitos civis e, principalmente, a justificar-se perante um tribunal por sua ação política contra os Pretos, Dante não teve a ingenuidade de apresentar-se: era o exílio. Condenado à morte por contumácia, em março de 1302, nunca mais iria rever Florença.

Em 1304, Dante rompe definitivamente com os Brancos exilados, ao dar-se conta de que eles estão animados apenas pelo facciosismo. Até 1309, vive entregue a uma vida errante pelas cidades de Forlì, Bolonha, Treviso, Pádua, Veneza, Lunigiana, no Casentino e em Lucca. Com a falta de dinheiro, é obrigado a recorrer a empréstimos de um meio-irmão, Francesco, um modesto comerciante. Os primeiros anos no exílio, entretanto, são preenchidos com enorme trabalho de criação literária: canções doutrinais e morais, cartas em latim; o tratado filosófico O Banquete – uma obra inacabada, composta de três odes, um ensaio lingüístico, De Vulgari Eloquentia (1303-1304), em que defende a língua italiana; Convívio (1304), obra projetada para 15 volumes, sobre a importância da cultura, mas da qual só escreveu 3; e, ao que parece, é em 1304 que começa a Divina Comédia.

De 1309 a 1312, o poeta alimenta esperanças na empresa do Imperador Henrique VII que, desejando pôr termo às ambições do Papado, prepara sua ida à Itália. Dante escreve-lhe três cartas em latim, empenhando-se na viagem. A morte de Henrique VII, em 1313, fazem desmoronar as esperanças.

A partir de 1315, fixa-se em Verona por dois anos, na corte de Cangrande della Scala. Ali faz a revisão de "Inferno", divulgado desde fins de 1314, escreve "Purgatório", que começa a circular em 1315 e começa o "Paraíso". Nessa ocasião redige a carta de dedicatória do "Paraíso" a Cangrande e a "Monarchia" (1317). Em 1316, recebe o perdão do exílio e é convidado pelo governo a retornar a Florença, mas as condições impostas são humilhantes, semelhantes àquelas reservadas aos criminosos. Dante rejeita o convite. Em represália à sua negativa, recebe nova condenação, dessa vez extensiva aos filhos.

Em 1318, deixa Verona, que é agitada por conflitos políticos. Vai para Ravena, na corte de Guido Novello da Polenta. É nesse momento que conclui o "Paraíso" e quando escreve "Quaestio de Aqua et Terra", versão pouco alongada da aula ministrada pelo poeta sobre a questão de não poder a água, em altura, superar a terra imersa. O cenário de intelectuais e de seus filhos, condenados que tinham sido à morte, permite-lhe se dedicar ainda à escrita, redigindo duas "Éclogas".

Em 1321, ao regressar de uma embaixada, desempenhada em Veneza por conta de Guido da Polenta. Dante adoece e é vencido pela malária. Morre em Ravena na noite de 13 para 14 de setembro de 1321. Foi sepultado na Igreja de São Francisco.


DANTE E BEATRIZ:

Segundo o relato da Vita Nuova, Dante, já órfão de mãe, ainda criança – aos nove anos de idade – conhece Beatriz, da mesma idade, por quem se apaixona. Nessa época, os casamentos são motivados por alianças políticas entre as famílias. Aos doze anos, Dante já está prometido em casamento a uma moça da família Donati.

Quando o pai falece, Dante reencontra Beatriz, por quem nutre um amor platônico, intenso e infeliz. Mas ela, assim como ele, também já está prometida em casamento. Assim, em 1285 (aos 20 anos de idade, portanto), Dante se casa com Gemma di Manetto Donati, com quem teria quatro filhos: Jacopo, Pietro, Giovanni e Antonia. Sua filha se tornaria freira e assumiria o nome de Beatriz.

Em 1287, com 22 anos, Beatriz casa-se com o banqueiro Simone dei Bardi. A forma como Dante encara o amor por sua musa, entretanto, não se modifica: ela será a dama por quem ele estará apaixonado até o fim de seus dias. Embora quase nada se saiba sobre ela, parece não haver existido nenhuma relação séria entre ambos.

Em 1290, aos 24 anos, Beatriz morre, prematuramente, deixando Dante inconsolável. Do período imediato à sua morte, pouco se sabe, a não ser que teria se entregado a uma vida dissoluta. Depois de uma mudança radical, passa a dedicar-se à filosofia e literatura, e o amor platônico por sua musa está expresso em Vita Nuova ("A Vida Nova"). Escrito por volta de 1293, é uma coleção de sonetos e canções dedicados a Beatriz, complementados por um comentário em prosa, que elucida o leitor sobre as circunstâncias em que os poemas foram escritos e o estado de alma do poeta. Essa obra revela influência dos trovadores do sul da França, já que o trovadorismo na região começou a florescer nos séculos XII e XIII.

Data deste período (1293-1295), época em que escreve Vita Nuova, o desvio do reto caminho, de que se declarará culpado – o que fornece o ponto de partida da narração de A Divina Comédia, mas sem nunca especificá-lo. Presume-se que se trate de uma tríplice infidelidade: à recordação de Beatriz (como o comprovariam os sonetos escritos para Fioretta, Pargoletta e Petra), à doutrina do amor sublimado, ao "dolce stil nuovo".

Quando Dante falece, junto ao leito de morte encontra-se a filha Antonia, a freira Beatriz.

Alguns críticos buscam na obra de Dante elementos biográficos, porém estudos revelam que as aparentes confissões, na verdade, correspondem a esquemas literários e procedimentos de composição. O caráter retórico da obra impede que se estabeleça uma relação entre obra e realidade biográfica. Assim, os encontros de Dante e Beatriz, aos 9 e depois aos 18 anos, na nona hora do dia, não têm o menor valor histórico: trata-se apenas do mito poético de Dante e o seu itinerário interior.