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EDIÇÃO 5 29 de novembro de 2003
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A LINGUAGEM, SUA IMPORTÂNCIA E SEUS SIGNIFICADOS NA EDUCAÇÃO – UMA REFLEXÃO FILOSÓFICA

Por Marcos Kiperman (*)

"– Eu pensava que era pobre.
– Depois me disseram que eu não era pobre, era necessitado...
– Daí, disseram que era pejorativo pensar em mim mesmo como necessitado.
– Então, disseram que carenciado produzia uma imagem negativa. Eu era desprivilegiado...
– Continuo a não ter um tostão. Mas tenho agora um grande vocabulário..."
(de um cartoon de Jules Feiffer, 1965)

É evidente que os impactos dos meios físico, social e econômico são fatores importantíssimos na perpetuação da cultura e do status de pobreza. Mas há também padrões ambientais e educacionais que se encarregam de prejudicar ainda mais as poucas oportunidades e perspectivas das crianças pobres, nascidas de famílias que produzem alta incidência de fracassos escolares e que tendem a perpetuar a própria condição nos filhos, devido em parte a hábitos educacionais decorrentes de sua formação cultural.
Para essas crianças, seria adequado falar em privação cultural, carência cultural, deficiência cultural?

Discutir tais expressões supõe, antes, definir o sentido dado à palavra "cultura" neste trabalho. Ela é entendida aqui como a maneira de um grupo social encarar a vida, o que inclui tradições, valores e costumes que, na maioria das vezes, possuem longa história. Portanto, a realidade é que as pessoas das camadas mais desfavorecidas possuem cultura própria, e bem rica. Mas, para sua desgraça, não é a mesma cultura dos grupos dominantes da mesma sociedade onde vivem e onde terão que competir.

No momento em que uma dessas crianças sai do ambiente familiar e passa a freqüentar a escola, depara-se com uma instituição organizada, mantida e regida pela classe média, que possui padrões culturais bem diversos dos que lhe foram dados e dos que continuará a assimilar no seu ambiente. Inicia-se então para elas um processo de marginalização que é realizado inconscientemente, através do desconhecimento total dos professores – na grande maioria pertencentes à classe média – sobre a população de alunos com a qual estão lidando. Não percebem que essas crianças, muitas vezes, nem chegam a entender seu vocabulário; desconhecem o que elas receberam em casa até a idade de 7 anos, pressupõem que os alunos possuem o mesmo cabedal de experiências de seus filhos ou parentes. Acreditam, ainda, que os valores, ideais e costumes são os mesmos, principalmente com respeito à educação, à autoridade, aos castigos e recompensas, à competição, à cooperação e às ambições intelectuais.

Outro fator altamente marginalizante é o currículo, que também ignora as necessidades dessas crianças, já que é organizado para alunos de classe média. O processo termina, em geral, com a classificação daquelas crianças na categoria de excepcionais, ou de deficientes mentais, devido a sua dificuldade para aprender e adaptar-se em comparação aos outros, vindo elas a engrossar as fileiras dos repetentes e o número assustador de evasões escolares.

Vê-se, portanto, que os termos "carência" e "privação" são inadequados. Dão idéia de falta de cultura, quando isso leva ao preconceito odioso: "Gente que não tem alguma coisa que os outros têm é gente diferente. Diferente de nós..." E levam também à suposição de que existe algo inerente e imutável em determinado grupo, quando, na verdade, este está sendo vítima de um processo.

O mesmo se aplica à expressão "deficiência", além de trazer carga pejorativa muito grande, é comparativo de forma negativa. "Deficiente cultural" seria aquele que tem pouco daquela cultura que alguns estabeleceram como a melhor, a mais desejável e a mais satisfatória para todos.

Parece, pois, que a expressão mais adequada, para indicar a condição que decorre da privação das mesmas oportunidades e desenvolvimento que a camada dominante da população considera ideais é "marginalização cultural", indicadora de um processo que está sendo sofrido e não de uma condição negativa degradante e estática (como sugerem as outras três expressões consideradas).

Levantar o problema da terminologia não é preciosismo nem requinte acadêmico. Na expressão escolhida está implícita uma tomada de posição a respeito do problema. Essa posição pretende evitar uma atitude de superioridade, e principalmente de paternalismo, ao se estudar ou se trabalhar com grupos desfavorecidos, paralelamente, leva ao estudo objetivo das características, valores e componentes da cultura em questão, à procura dos fatores pelos quais ela se diferencia da cultura dominante. E, enfim, conduz à descoberta dos problemas que as crianças provenientes de lares marginalizados enfrentam nos momentos de impacto entre padrões culturais.

(*) Marcos Kiperman é professor titular da Universidade Estácio de Sá, mestre em Educação, além de professor da UERJ.