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EDIÇÃO 5 29 de novembro de 2003
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ENTREVISTA: ANA KFOURI & ALICE 118

Entrevista concedida a Fábio Fabrício Fabretti (*) e Vinícius Rangel (**)

PERGUNTAS A ANA KFOURI

1. A leitura dramatizada, muito desenvolvida e explorada ultimamente, tem oferecido não só opções de entretenimento ao público como também laboratórios aos artistas em geral. E você foi uma das precursoras desse movimento. É essencial fazer esse "estudo cênico" antes de levar o texto para o palco?

Não diria essencial, pois os caminhos do processo de criação de cada um ou de cada grupo são trilhados a partir das necessidades de cada pesquisa, das indagações e inquietudes de cada vontade de realização cênica. O que é rico nesse processo das leituras abertas ao público, desse estudo cênico, como você bem chamou, que promove a aproximação entre ator e espectador, é uma via de mão dupla: estimula o interesse do público em participar do processo do fazer artístico, em comungar com o artista esse espaço limite entre leitura e cena, entre ensaio e espetáculo e, por outro lado, possibilita ao artista novas reflexões sobre a pesquisa em desenvolvimento, sobre o texto, a cena e seus possíveis desdobramentos.

2. O projeto artístico que você coordena, as "Quartas-feiras Cênicas", no SESC Tijuca, realizando leituras com jovens atores e autores, surgiu através do seu centro de estudo experimental? E como surgiu esse projeto?

O Centro de Estudo Artísitco Experimental é um espaço dedicado à experimentação e à investigação artística. Compreende várias atividades (oficinas, espetáculos, leituras, solos, debates) que têm como princípio a integração de artistas, estudantes, intelectuais e leigos em torno da arte e de sua importância e conseqüência na vida cotiana das pessoas. O projeto "Quartas Cênicas", proposto e organizado por Daniela Amorim, querida parceira, surgiu no segundo ano de funcionamento do projeto, totalmente afinado com o perfil do CEAE. O projeto "Quartas Cênicas" tem se dedicado à produção dramatúrgica contemporânea e, em especial, à dramaturgia brasileira contemporânea, tornando-se um celeiro importante de jovens escritores que apresentam, atualmente, grande demanda de trabalho e precisam de espaço para seus textos serem conhecidos.

3. Dentre as leituras realizadas, algumas já se transformaram em espetáculos?

Sim. O caso das peças Blecautes e Esconde- Esconde, de Paul Auster, dirigidas, respectivamente, por Pedro Brício e Cadu Fernandes, fizeram temporada no próprio CEAE, no projeto Palco de Experimentação, entre outras, que foram encenadas em outros espaços. Ano que vem, pretendemos dedicar um mês do Palco de Experimentação a encenações de algumas leituras do evento, numa Mostra das Quartas Cênicas.

4. O site www.anakfouri.com está no ar e nele consta um banco de dados com textos de novos autores teatrais. A idéia de divulgar o trabalho deles é, de certa forma, uma preocupação com o ingresso de novos profissionais na área artística?

Sim. Acho muito importante divulgar o trabalho dos jovens dramaturgos, assim como pensar em projetos que viabilizem a prática de sua produção textual. Nesse sentido, o Roberto Alvim está realizando um projeto importantíssimo na cidade do Rio de Janeiro, na Sala Paraíso, do teatro Carlos Gomes, chamado Nova Dramaturgia Brasileira. Esse projeto promove debates, intercâmbio com dramaturgos internacionais, leituras, encenações, entre outras atividades.

5. A CTM (Companhia Teatral do Movimento) é mais uma idéia sua, desde 1991. Unificar textos literários com teatro quebra com alguns tabus artísticos, provando que a arte é sempre arte, não importando a forma. Como tem sido essa experiência?

Tem sido uma experiência vital, fundamental, provocadora e promovedora de novas reflexões e novas práticas sobre o fazer teatral. A troca com os atores, a aprendizagem conjunta em cada pesquisa, em cada nova empreitada. A coragem de modificar, reformular, atender e escutar às nossas inquietudes e aos nossos desejos cênicos e de vida têm garantido a continuidade e a renovação do nosso trabalho.

6. Você acredita que a internet pode ser o veículo ideal para que novos talentos revelem e apresentem o seu valor?

Não. É só mais um veículo, que não pode ser ignorado no mundo contemporâneo. Mas o melhor veículo será sempre o do face a face, o do corpo a corpo, o do contato direto do público com o artista, do ator com o espectador.

7. A sua mais recente montagem, dirigindo e produzindo o grupo teatral Alice 118, em cartaz no SESC Copacabana, é um mergulho no ser. O "roteiro" do seu espetáculo, em um caso como o de Comoção, foi concebido no decorrer dos ensaios ou, ao preparar o elenco, já havia algo formado a respeito do que você pretendia apresentar?

Havia um forte desejo em realizar uma pesquisa cênica a partir dos momentos em que a voz (ou a palavra) não é a nossa melhor expressão frente aos acontecimentos da vida. Foi uma pesquisa totalmente prática, realizada a partir de improvisações dirigidas, no intuito de investigar as tensões, as contradições e a poesia de cada momento, onde nos calamos por vontade, por tristeza, alegria, plenitude, fatalidade, entre várias outras possibilidades. Elaborei um roteiro, a princípio, que foi modificado milhares de vezes e muitas vezes esquecido. A concepção do espetáculo estava viva, presente o tempo todo nos ensaios. O roteiro não era uma necessidade vital para a prática, mas tive o cuidado de ir atualizando durante o processo de criação. O interessante é que têm coisas que estão desde o roteiro original, como a morte da boneca, a cena do etc., a perda dos membros da família evidenciada pelos retratos, entre outras. E várias cenas novas foram surgindo no desenrolar dos ensaios e o espetáculo foi se impondo pela prática de uma maneira absoluta.

8. Como é trabalhar com a equipe do Alice 118?

É me renovar a cada dia; me sinto jovem, cheia de força e energia, com coragem de lutar e seguir a estrada com eles por muito tempo. Somada à intensidade, à inteligência e à disponibildade dos atores, estão os importantes parceiros de criação, como André Sanches na cenografia, Wilson Reiz na luz, Rodrigo Lima na música, Veruscka Gírio, na programação visual, além das presenças fundamentais de Márcia Dias, na consultoria de projeto, e Christine Braga, na produção.

9. Recentemente você atuou em uma primorosa versão da peça Molloy, de Samuel Beckett. Como foi essa experiência, uma vez que a sua verve de dirigir normalmente sobressai mais?

Bem, foi uma volta aos palcos depois de 10 anos afastada como atriz. A culpa é toda da Isabel Cavalcanti (risos), que me fez esse convite irrecusável. Foi uma experiência e tanto, e percebo a importância de ter voltado para o palco na condição de atriz (fora o inenarrável prazer), repensando e buscando melhorar minha atuação como diretora.

10. Atualmente, está em voga adaptar textos literários para o palco. Exemplos disso são várias montagens teatrais baseadas em romances ou poemas, por exemplo. Como você analisa esse fenômeno? O teatro tem o poder de aproximar o público em geral da literatura impressa?

Acho maravilhoso que a literatura ganhe os palcos. É muito instigante trabalhar com textos não-dramáticos, não-escritos originariamente para o teatro. Perceber a "funcionalidade" de certos textos da literatura no palco. Ninguém encena Clarice Lispector, Hilda Hilst ou Rubem Fonseca. O que está no palco é o resultado cênico provocado por suas idéias, palavras e reflexões. Ou seja, é preciso entender esse deslocamento do texto literário e percebê-lo dentro do novo contexto, o teatral.

11. Existe algum clássico do teatro que você sempre sonhou encenar e ainda não teve a oportunidade?

Como diretora, não. Como atriz já desejei fazer Lady Macbeth, (personagem de Macbeth, de William Skakespeare), e D. Eduarda, da peça Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues.

12. Quais são as maiores dificuldades que você enfrenta para fazer teatro num País como o nosso?

A falta de uma política cultural que contemple os vários modos de produção teatral, em especial, os grupos e companhias, que têm como princípio o trabalho de continuidade e, pelo nosso lado, a falta de união e mobilização dos artistas. Felizmente esse quadro começa a se modificar.

PERGUNTAS AO GRUPO ALICE 118

1. O que vocês podem nos dizer sobre a Ana Kfouri?

Uma grande companheira. Uma mulher e uma artista muito generosa, corajosa e grande realizadora. Um encontro fundamental nas nossas vidas.

2. Como surgiu o grupo?

Surgiu de uma montagem de Nelson Rodrigues, dirigida por Ana Kfouri, que foi nossa professora no último ano da CAL. Eu Sou Mais Nelson estreou vencendo o 2º Festival de Inverno de Santa Teresa. Depois participamos do Festival de Teatro da Universidade Veiga de Almeida, do Fringe, em Curitiba, e não paramos mais.

3. Por que o nome "Alice 118"?

Ensaiávamos na casa da família da Joana Cabral, atriz do grupo, situada na rua Alice 118. A casa estava desocupada e por um bom tempo foi nossa sede.

4. Comoção comove e comunga. Faz-nos viajar para dentro de nós mesmos. Esse processo ocorre com vocês também, nos ensaios ou no palco?

Em ambos.

5. De que forma se dá a relação entre vocês?

A partir de uma identificação com o trabalho, a gente se aproxima cada vez mais, renovando nossos laços de confiança, amor e cumplicidade.

6. E quais os planos futuros do grupo?

Viver intensamente o momento Comoção. Viajar e continuar dando vida a um projeto que acalantamos e ensaiamos por quase um ano e meio e que precisa agora do público.

Mais informações sobre o trabalho de Ana Kfouri no endereço:
www.anakfouri.com

(*) Fábio Fabrício Fabretti é autor, professor e, atualmente, cursa o último período de Letras (Português / Literaturas), da Universidade Estácio de Sá. Entre os seus trabalhos de pesquisa, inclui-se o livro Cartas – Caio Fernando Abreu, organizado por Ítalo Moriconi (Ed. Aeroplano/2002). Elabora, no último período do curso de Letras, a sua monografia "O gótico e as cartas de suicídio na literatura". Participa do projeto de Iniciação Científica "Literatura, Educação e Altas Tecnologias", pelo NTA – Núcleo de Tecnologias Avançadas. E escreve para a coluna de contos Ficxação desse site.
E-mail para contato: ficcionista@terra.com.br

(**) Vinícius Rangel é aluno do último período de Letras (Português / Inglês), da Universidade Estácio de Sá, campus Rebouças. Foi um dos redatores do livro Presidentes do Brasil, organizado por Fábio Koifman e publicado, em 2002, pela Editora Rio. Atualmente, está desenvolvendo algumas pesquisas, entre elas seu projeto monográfico de final de curso, "O doce & o amargo do Secos & Molhados" e o projeto de Iniciação Científica, "Literatura, Educação e Altas Tecnologias", pelo NTA – Núcleo de Tecnologias Avançadas. É responsável pela coluna de teatro do Rede de Letras, Persona.
E-mail para contato: viniciuspersona@hotmail.com

Caso você queira dirigir alguma pergunta à coluna ou ao entrevistado, escreva para:
gilda.dieguez@ig.com.br