Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 5 29 de novembro de 2003
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Coluna de Espanhol
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Livros Recomendados
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 
SEBOS AQUECEM MERCADO DE LIVROS

Por Ivan Silva Jr. (*)

Em cinco anos, número de sebos no Rio cresceu 62%

O brasileiro lê pouco. Não quero que você, leitor, por dar-me a honra desta leitura, fique indignado comigo. Não sou Um inimigo do povo1. Os números da pesquisa "Retrato da Leitura no Brasil"*, divulgada há dois anos, confirmam a afirmação. Segundo o levantamento, o público de leitores no Brasil é formado por 26 milhões de pessoas. Desse contingente, apenas 17,2 milhões têm acesso efetivo a livros, ou seja, nada menos do que nove milhões não lêem porque não têm dinheiro para gastar com livros, ou porque moram em cidades onde não existem livrarias e bibliotecas.

Ainda assim, diante de números desalentadores, cresce no País o mercado das lojas que vendem livros e revistas usados, os sebos. Será um Sonho de uma noite de verão2? Pode ser. Em 1998, o Rio de Janeiro tinha 35 estabelecimentos desse tipo. Atualmente, são 57. Os números, se não são tão surpreendentes, pelos menos indicam que o interesse pela leitura intensifica-se.

Somam-se a esses estabelecimentos, segundo o Guia dos Sebos no Brasil, do autor Jorge Brito (jorgebrito@tba.com.br), pessoas físicas ou bancas onde se vendem livros, revistas, discos e CDs usados e/ou raros. "O local ou endereço pode ser uma banca de jornal, ou simplesmente um calçadão, ou ainda um endereço na Internet", relata Brito, no prefácio do guia.

Esse é um retrato dos sebos, ou da forma como eles se apresentam, nas diversas cidades do País. Dos 421 títulos listados por Brito no livro, uma vantagem cativa o leitor: os livros e revistas são vendidos por preços bem mais em conta do que nas grandes livrarias.

O preço, a propósito, é um dos fatores que tem levado os consumidores aos sebos. Antônio Carlos Secchin, professor de Literatura Brasileira da UFRJ e autor do livro Guia Comentado dos Sebos da Cidade do Rio de Janeiro, em matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo, no mês de agosto, é categórico em relação a venda de livros nos sebos: "todo mundo deve ter um bem cultural barato". O livro de Secchin traça um panorama dos sebos em 13 capitais brasileiras. Na quarta e última edição, o guia do professor teve de abranger mais três cidades devido ao número considerável de lojas inauguradas. "Acho que há uma crise. Mas as pessoas até gostam de ler, elas só não têm dinheiro para comprar livros novos", comenta Secchin.

Além do preço convidativo, os sebos reservam outra peculiaridade: a possibilidade de se encontrar verdadeiras raridades. Foi vasculhando as prateleiras de um sebo na zona sul da cidade que o diretor de teatro Alexander Willian Smith encontrou uma edição de As Flores do Mal, de Baudelaire, autografada pelo autor. Freqüentador de sebo que se preza não fica menos de uma hora numa loja. E foi "garimpando" e tirando a poeira de alguns exemplares antigos que Smith encontrou, por acaso, algumas partituras do compositor francês Charles-Camille Saint-Saenz (1835-1921). "Encontrei sem querer. Acabei usando a peça num espetáculo de teatro. E o melhor foi que eu só tinha ido apenas comprar um livro e sai com uma preciosidade", conta orgulhoso o diretor.

Enganam-se os que pensam que os sebos não são recomendados aos alérgicos à poeira. Vários deles têm sido abertos na cidade cuja decoração e arrumação das prateleiras não deixa nada a desejar às grandes livrarias. O sebo "Baratos da Ribeiro", por exemplo, que fica em Copacabana, é atualmente um dos mais freqüentados exatamente por não ter as características que se imagina de um sebo: empoeirado; livros espalhados pelo chão; desarrumação nas prateleiras. Lá, o cliente encontra organização nas estantes, boa iluminação e mais de 40 mil exemplares, que podem ser adquiridos também pela Internet. E o negócio está dando resultado. De 2000 para cá, os sócios da "Baratos da Ribeiro" abriram quatro sebos na cidade. "O mercado de sebos cresceu porque as pessoas não têm dinheiro para comprar livros novos", destaca Maurício Gouveia, que divide a sociedade do estabelecimento com mais cinco pessoas.

Sebos virtuais, uma realidade irrefutável

A Internet é outro caminho que o leitor pode recorrer na hora de comprar um livro bom e barato. Apesar dos números serem reduzidos, já que das 421 lojas relacionadas no Guia dos Sebos, de Jorge Brito, apenas 30 possuem página na Internet, vários deles estão invadindo a grande rede para expor suas mercadorias.

A Livraria Osório (livronet.com.br), de Curitiba, foi o primeiro sebo a receber pedidos e consultas via e-mail, em 1996. Hoje, para facilitar a navegação do internauta, os títulos estão dispostos num catálogo, divididos em 64 assuntos, e as obras recebem tratamento detalhado quanto as suas características. Para se ter uma idéia do que representa a Internet para os donos da loja, 60% do todo o faturamento é gerado pela venda on-line. "Recebo cerca de 100 consultas diárias pelo computador e despacho de 10 a 15 pacotes de livros diariamente para todo o Brasil", registra o argentino Alejandro Rubio, proprietário da loja.

A tendência do uso da Internet pelos sebos começou a se firmar com o movimento internacional do setor. Segundo matéria veiculada no suplemento de fim de semana do jornal Gazeta Mercantil, em setembro, o panorama de vendas de livros usados pela Internet abrange, inclusive, grandes fornecedores: "A própria Amazon (amazon.com), líder mundial de vendas de livros via Internet, criou em seu site um espaço dedicado aos rare and used. Atualmente, são mais de 30 mil livros em oferta no catálogo on-line, formado por obras localizadas em diferentes lojas do ramo e atualizado diariamente".

O texto do jornal segue indicando outros valiosos instrumentos para quem procura oportunidades especiais, particularmente em língua inglesa: "Bibliofind" (bibliofind.com) e o "Advanced Book Exchange" (abebooks.com), são sites que agrupam acervos de centenas de sebos canadenses, australianos, ingleses, sul-africanos e até brasileiros. Há também a versão européia do serviço, a Bibliorare, uma associação para a pesquisa de livros e documentos preciosos que mantém o Portal do Livro Raro, divulgador em detalhes de ofertas e agenda de leilões das principais livrarias e antiquários da Europa".

Origem dos sebos
Alfarrabistas são essenciais para pesquisa histórica

Os primeiros sebos surgiram no século XVI, na Europa. Foi o período cujo interesse por documentos e escritos antigos ganha fôlego. Os mercadores, então, passaram a vender a pesquisadores papiros e documentos. Esses comerciantes passaram a ser chamados de alfarrabistas, nome que os acompanha até hoje em países como França e Bélgica. A atividade de alfarrabista, ou sebista, é considerada de fundamental importância para historiadores e pesquisadores em geral.

No Brasil, sebo tornou-se a forma popular para designar livraria onde se vendem livros usados e raros.

A palavra "sebo" vem do tempo em que não havia energia elétrica. As pessoas, para poderem ler durante a noite, o faziam à luz de velas amareladas, sujando e engordurando os livros. Daí veio o termo "ensebado", "sebento", gerando, mais tarde, o termo "sebo".

NOTAS:

1 Um inimigo do Povo, de Henrik Ibsen - R$ 3,00 - sebo Baratos da Ribeiro

2 Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare - R$ 5,00 - sebo Baratos da Ribeiro

* A pesquisa "Retrato da Leitura no Brasil" foi patrocinada em conjunto pelo Sindicato Nacional dos Editores de livros (SNEL), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), pela Associação Brasileira dos Editores de Livros e pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Papel e Celulose. Acompanhe alguns números do levantamento:

Público de leitores no Brasil - 26 milhões (esse número é equivalente aos leitores somados de Espanha e Portugal, ou 11% a mais do que os leitores franceses).

Os 26 milhões representam apenas 30% dos 86 milhões de leitores em potencial existentes no País (pessoas com mais de 14 anos e alfabetizadas).

Entre os que vivem nos grandes centros metropolitanos, somente 12 milhões estavam lendo no momento da pesquisa.

Entre as idades de 14 a 19 anos, 45% afirmam que lêem regularmente. Esse índice cai progressivamente à medida que aumenta a idade do brasileiro.

Apenas 24% mantém o hábito da leitura quando passa dos 40 anos.

Apenas 20% dos entrevistados compraram em média 5 livros não-didáticos em 2000.

47% tem no máximo dez livros em casa.

O número de exemplares que repousam sobre a estante de dois terços dos brasileiros não passa de 25.

Na próxima edição, você vai conhecer a feira itinerante de livros usados que percorre as praças da cidade do Rio.

(*) Ivan Silva Jr. é aluno do 5º período de Letras, campus Rebouças (noite). É também jornalista.

Endereço de e-mails para a coluna:
ivansilvajr@ig.com.br