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EDIÇÃO 3 29 de setembro de 2003
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Música: a língua em sons.
Um breve histórico parte II
O Barroco

Mauro Dellal

Na primeira edição deste jornal, comecei a fazer um breve relato da história da música. Pretendia continuar na segunda edição, porém, o episódio ocorrido com Gerald Thomas, quando da estréia da ópera Tristão e Isolda, no Municipal do Rio, motivou-me a escrever sobre o assunto. Hoje, volto ao tema para tentar situar o leitor no barroco musical, época bastante conhecida dos alunos de letras quando estudamos as literaturas brasileira e portuguesa.

Como esta coluna pretende ser sucinta, vamos exemplificar o período – e os que virão também – elegendo um compositor que o retrate de forma ampla, não sendo impossível que outros sejam citados quando assim necessitar.

O barroco na música está em perfeita consonância com os ditames da época, que compreenderia desde 1600 até 1750. Assim como na literatura, a idéia é universal, ainda longe da forma romântica onde as fronteiras de cada povo ou região serão traçadas de maneira a individualizar e promover a nacionalidade. No barroco, as idéias estão entrelaçadas e a evolução sonora se usará disso para criar obras de beleza pura. Tanto esse modelo quanto o que virá a seguir – o classicismo – estão sustentados por uma volta ao modelo greco-romano da arte: o clássico. A diferença está na forma que usam para a criação das obras musicais.

Nessa época, a escrita musical ganha a cara que tem até hoje: cinco linhas e quatro espaços – o pentagrama musical.

Antes, havia inúmeras linhas (chegando mesmo a ter dez), o que dificultava a escrita. Além disso, a estrutura dessa linguagem se amplia na medida que se livra da harmonia "seca" da renascença com a maior liberdade da escala musical. A época traz, ainda, duas novidades: o surgimento da ópera e o modelo de concertos para um instrumento solo e acompanhamento de orquestra. Para se ter uma idéia, Vivaldi (que muitos consideram o inventor do gênero) compôs perto de 200 obras, sendo a mais famosa As quatro Estações uma peça com quatro concertos para violino e orquestra de cordas que retratam as estações do ano. É comumente executada na íntegra; na seguinte ordem: primavera, verão, outono e inverno; mas não são, em absoluto, concertos descritivos onde as sensações de cada estação são mostradas de forma a que os sons retratem de forma concreta as nuances de cada uma.

Não! A música barroca apenas idealiza a matéria; e não é pouco, já que a intenção é justamente não tornar real, mas, sim, dar uma forma abstrata, porém nítida na mente humana. Por exemplo: no concerto dedicado ao verão, no segundo movimento, em andamento lento, o compositor cria um matiz sonoro de ritmo arrastado e sonolento dispondo-nos uma idéia absoluta de calor e marasmo ao mesmo tempo, nos atinge em cheio com uma sonoridade tão clara (devido ao tom da música) que não nos deixa dúvidas da imagem do sol quente. Tudo isso são impressões que estão em nosso subconsciente e lá tomam uma forma decididamente universal, pois é uma sensação humana.

E não é justamente isso que um poema barroco nos mostra? Peguemos como exemplo este poema de Antônio Barbosa Bacelar.

À morte de uma dama

Sombras de um claro sol que me abrasava,
Cinzas de um doce fogo aonde ardia,
Ruínas de uma boca em que vivia,
Cadáver de uma vida que adorava,

Quem te trocou, senhora? O tempo estava
A teus pés, em teu rosto o sol nascia,
De tua vista se compunha o dia,
De tua ausência a noite se formava.

Pois como pôde o tempo pressuroso,
O dia breve, a noite fugitiva
Mudar um corpo e rosto tão fermoso?

Mas tanto sol e luz, tão excessiva
Ardendo de contínuo, era forçoso
Trocar-se em cinza morta a flama viva.

Não é uma idealização da morte? Da transformação do corpo antes vivo em matéria morta? A intenção é realmente buscar a forma única do objeto; e para isso, o autor utilizou-se de uma linguagem torta, sinuosa, ornamentada e até mesmo contraditória.

Exatamente assim funciona uma partitura barroca. Inversões de frases musicais, contraste claro-escuro, melodias independentes que escapam uma após a outra (a fuga musical) e ao mesmo tempo se cruzam e formam um manto sonoro poderoso e belo, ornamentos em excesso para enfeitar a frase melódica. É a arte explicando-se por si mesma, sem nenhuma outra função que não seja a de formar um corpo rígido, rebuscado e único. Apenas som, música.

Disse ao terminar a coluna que introduziu esse histórico que a música que conhecemos hoje deve muito a um homem em particular: Johann Sebastian Bach. Realmente, ele, juntamente com outro alemão, que fez sucesso em Londres, elevaram ao máximo o barroco musical.

Este outro músico, George Friederich Haendel, é o compositor de uma das obras sacras mais imponentes da história da música: O Messias, que inclui o célebre coro Aleluia; muito tocado quando se quer incutir uma idéia de que algo que custou a acontecer, finalmente tem seu desfecho. Vejamos um exemplo da escrita barroca, desta vez com Haendel. Em uma de suas óperas – RINALDO – há uma ária que se chama "Lascia ch'io pianga..." que quer dizer: deixe-me chorar. É uma canção muito triste que tem a seguinte estrutura: uma nota longa – uma nota curta – uma pausa (ausência de som. Tão importante quanto uma nota musical), igual à nota longa e outra nota curta e assim por diante. Isso causa uma sensação de um choro soluçado e mais uma vez é somente uma idéia e não há concretização do sentimento.

Ainda nessa ária, que já sabemos se tratar de um pranto de dor, o modo da escala é o modo dito MAIOR, sempre usado, falando simploriamente, para expor um ambiente sonoro de alegria e júbilo em oposição ao modo MENOR, que retrata mais freqüentemente matizes de lamento. Eis, então a mágica barroca. Mas, voltemos a Bach.

Quem imagina que esse gênio da música era reconhecido em vida, engana-se e muito. Considerado um organista excepcional, sua música – dinamicamente rítmica – fazia parecer, na visão do romantismo do século 19, um monótono exercício mecânico; por isso, Bach foi esquecido por, mais ou menos, 100 anos, até que outro importante compositor – Mendelssohn – o "ressuscita" para o mundo. Atualmente, por força das grandes gravadoras, a prateleira nas lojas de discos com as obras de Bach só é enfrentada por aquela com as obras de Beethoven. Talvez, nossos ouvidos mais acostumados com os sons modernos e conflitantes estejam mais adequados a essa música de "máquina".

Não há como negar a influência dele no jazz e na própria música brasileira. Os Swingle singers, um grupo musical de muito sucesso, celebrizou o compositor cantando seus temas com acompanhamento jazzístico ou apenas enfatizando o "swing" próprio de sua música. No Brasil, Villa-Lobos construiu em torno da música do compositor de Leipzig uma série chamada Bachianas Brasileiras, que exploram as semelhanças entre o estilo de Bach e certas características de nossa música. Bach mostrou o caminho a seguir e coroou sua época com uma enorme quantidade de obras. Ainda hoje, após mais de trezentos anos de seu nascimento, continuamos a nos admirar com sua música extremamente bem feita; verdadeiros monumentos ao espírito humano.

Veja primeira parte de Música: a língua em sons.

E-mails para a coluna:
maurodellal@hotmail.com