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EDIÇÃO 3 29 de setembro de 2003
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Se língua é vida e a vida é complicada...

Pela professora Michele Eduarda Brasil de Sá (*)

Às vezes, as crianças nos fazem perder a paciência quando chegam àquela idade das perguntas. Um miudinho tira da manga: "por que é que cachorro não fala?" Ou então, "por que a gente tem dois olhos, dois ouvidos, mas só um nariz?" Para esgotar a paciência de qualquer um: "por que é que cadeira tem esse nome?" Essa última, no estilo Marcelo, Marmelo, Martelo, traz à vítima do inquisidor infantil uma tremenda vontade de ponto final – sem o compromisso, é claro, de saciar completamente a curiosidade do pequenino, já que ele vai começar por cadeira, depois vai para relógio, depois farofa...

Isso acontece porque crescemos e não nos damos conta de quão ardilosa uma língua pode ser, dada a riqueza do seu vocabulário. Ainda que nossa língua-mãe fosse outra, teríamos dificuldades com palavras "multiuso", com expressões que não fazem sentido ao pé da letra, com a falta de lógica que determina certas construções. Crescemos e nos esquecemos de que um dia já nos assustamos quando, por exemplo, ouvimos dizer que nossa avó picou um dente de alho ou que veio um pé de vento. Como reagir tranqüilamente ao fato de ser chamado de pinto no lixo quando se está desfrutando de grande alegria? Como, numa cidade grande, pode ser normal alguém se despedir dizendo que vai pegar o caminho da roça?

Vejam só a que tipo de ciladas estamos expostos: dizer que algo é formidável, por exemplo, pode ser demonstrar-lhe tanto medo quanto apreço. O cachorro, o melhor amigo do homem, virou sinônimo de traidor. Chuchu, que é muito sem-graça, passou a designar coisa ou pessoa bonita ou legal. Aliás, nem tudo o que é legal é determinado por lei e, do jeito que a coisa vai, isso já não faz muita diferença.

E mais: matar pode ser algo ótimo, tratando-se de sede, fome, saudades, tempo e, dependendo do dia de calor de quarenta graus no Rio de Janeiro, aula. Algo forjado pode ser um grande engodo, mas também uma obra de arte de raro talento. Humilde é um caso sério. Adquiriu um tom meio pejorativo, e acabou ficando confusa – há muita gente pobre e soberba, e muita gente simples com muito dinheiro em sua conta bancária. Para encurtar a prosa, temos os homônimos todos, perfeitos ou não, os irmãos gêmeos e trigêmeos que nos embaralham, junto com seus primos parônimos.

O pior é estar à mercê das palavras que são uma coisa, mas parecem outra. Diz o provérbio que toda regra tem exceção, mas eu, particularmente, nunca vi um aluno jubilado pular de felicidade. Ter um bom capital não deve ser o principal objetivo na vida de ninguém. Casar-se não significa, necessariamente, sair da casa dos pais, nem ter a sua própria, ainda mais com o valor dos imóveis hoje em dia. Lagar não é lugar de lagartixa se esconder. Enfim, esses casos superabundam – sem nenhum trocadilho.

O implacável tempo passa, as palavras – como os homens – lhe resistem. Carro já foi um dia puxado por bois ou cavalos (que não eram cavalos-vapor). Galera, apenas uma embarcação movida pelos braços de muitos remadores, estimulados pelo grito de seu líder, que lhes ditava o ritmo. O grito que move as galeras hoje é de outra natureza: "Mengo!" "Vam'bora!" "Demorou!". Foi-se o tempo em que arrastão era só um tipo de rede de pesca, em que um xarope era sempre bom para tosse, em que falar grego era simplesmente conhecer a língua de maior prestígio.

Por isso, da próxima vez que uma criança que está em processo de conhecimento de mundo lhe fizer uma pergunta do tipo "por que é que a gente veste as calças, mas calça os sapatos?", saiba que ela está só começando a entender que muita coisa não pode ser entendida – ou é de difícil explicação. Se língua é vida e a vida é complicada... Você já pode supor o desfecho desse silogismo.

(*) Profª Michele Eduarda Brasil de Sá
Professora Assistente de Língua e Literatura Latina (Faculdade de Letras/UFRJ)
Mestre em Língua e Literatura Latina (Faculdade de Letras/UFRJ)
Bacharel em Letras – Português-Latim e Português-Japonês (Faculdade de Letras/UFRJ)
Bacharel em Direito (Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas)

Cartas para a autora, Professora da UFRJ, pelo e-mail:
gilda.dieguez@ig.com.br