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EDIÇÃO 3 29 de setembro de 2003
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RESENHA DE UM CAPÍTULO DO LIVRO URBANISMO, DE LE COUBUSIER

Por Fernando José Barbosa (*)

LE CORBUSIER. "O caminho das mulas". In: Urbanismo. Trad. Maria Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

O urbanista francês Charles Édouard Jeamneret, conhecido mundialmente pelo seu apelido Le Corbusier, em sua obra Urbanismo desenvolve uma teoria de relação entre a personalidade humana e a cidade onde o indivíduo perdura. A partir de sua afirmação o homem caminha em linha reta porque tem um objetivo, sabe onde vai, decidiu ir a algum lugar e caminha em linha reta (1991: 04), Le Corbusier especifica em seu segundo capítulo, que o homem rege seu sentimento através da razão, usa da inteligência para construir regras e que produzir é preciso obedecer as regras de conduta. Eis a razão pela qual o homem seria considerado um ser determinado. Paralelamente, o autor faz uma comparação entre a objetividade de vida do ser humano e a total falta de objetividade das mulas e enfatiza essa relação quando diz: a mula ziguezagueia, vagueia um pouco, cabeça oca e distraída, ziguezagueia para evitar os grandes pedregulhos, buscar a sombra, empenhar-se o menos possível (1991; 04). Dessa maneira, Le Corbusier nos leva à conclusão de que a mula não pensa absolutamente em nada, senão em ser inteiramente despreocupada.

Le Corbusier nos lembra, também, que, na antigüidade, as mulas traçaram os caminhos de todas as cidades do continente europeu, pois as primeiras estradas, caminhos, os primeiros burgos e casas, iam surgindo paulatinamente, como conseqüência dos trajetos por onde as carroças passavam, ou seja, as cidades nasceram ao longo dos caminhos das mulas. O autor nos proporciona a grande possibilidade de observar algumas plantas arquitetônicas das principais capitais do continente europeu – como Paris, Roma, Berlim e Madri – e ainda podemos realmente constatar que no centro dessas capitais as ruas e avenidas são curvas e sinuosas. Obviamente, após alguns séculos, devido a excelentes projetos arquitetônicos dos maiores urbanistas da história, possibilitou-se a construção de ruas retas e objetivas nas áreas externas, ou, até mesmo, a reurbanização de algumas já existentes.

Hodiernamente, não podemos imaginar como seria o trânsito de uma cidade, se todas suas vias fossem curvas e sinuosas. Como ficaria suas redes de esgotos e água – para consumo pluvial? E a construção dos imóveis? A vida seria, no mínimo, extremamente caótica, pois estaríamos vivendo a barbárie pós-moderna.

Mais uma vez devemos lembrar a intencionalidade do autor ao afirmar que a rua curva é o caminho das mulas, já a rua reta é o caminho dos homens. Pois se a rua curva é o resultado da vontade arbitrária, da indolência e da animalidade, e a reta é uma reação, uma atuação, o resultado de um domínio de si, seria contraditório aceitar o fato de a Europa ter sido a mãe de inúmeros célebres nas mais diferentes áreas do conhecimento – na arte, na literatura, na filosofia, na arquitetura da nossa história, na política, nas ciências exatas etc.

Destarte, questionamos se seria a arte realmente uma conseqüência da ordem? Se levarmos em consideração essa afirmação como única verdade, teríamos que excluir o Surrealismo da lista das correntes literárias, já que a mesma não possui ordem, porém a consideramos como uma manifestação de arte. Também poderíamos levantar a hipótese de a arte ser uma desordem organizada, uma vez que esse processo de interpretação é exclusivamente individual, pois dependendo do ângulo de visão de cada indivíduo, o que pode parecer estar em ordem, talvez seja uma desordem generalizada.

Analisando também a nossa natureza, temos, às vezes, a sensação de ainda estarmos vivendo na Era do Caos, uma vez que a natureza se apresenta aos nossos olhos de uma forma caótica. Vejamos, por exemplo, o perfil dos lagos e mares, o recorte das montanhas, toda disposição da superfície terrestre, tudo, geograficamente falando, não passa de confusão. Talvez sem intenção, ou não, Le Corbusier quebra com toda teoria dogmática da criação do mundo, pois como a natureza não passa de um aspecto acidental, seria incoerente afirmarmos que seu surgimento partiu da intencionalidade.

O autor defende também, que somente o ângulo reto é o instrumento necessário e suficiente para agir (1990: 19); portanto, serve para fixar o espaço com um rigor perfeito e harmonioso, resultando na ordem humana. Sendo assim, a gravidade parece resolver-se aparentemente para nós, o conflito das forças para manter o universo em equilíbrio, pois, segundo a idéia de Le Corbusier, através da gravidade, mantemos uma vertical, e em relação ao nosso plano formamos uma horizontal. Conseqüentemente, essas duas constantes formam dois ângulos retos, mantendo, assim, o equilíbrio do mundo.

Seguindo a linha de raciocínio que o urbanista francês nos remete, podemos concluir que, para trabalhar, o homem necessita de constantes, sem constantes não poderia dar um passo adiante do outro. Se do ar olhamos a terra desordenada vemos que o esforço humano para manter a ordem é idêntico ao longo de todos os séculos e em todos os pontos analisáveis. A ordem é indispensável, caso contrário, os atos humanos não teriam nenhuma coesão. Quanto mais perfeita é a ordem, mais o ser humano fica à vontade, com segurança. Dessa forma, Le Corbusier conclui que nos graus mais elevados da criação tendemos a mais o pura ordem, é isso a verdadeira obra da arte (1991: 19).

(*) FERNANDO JOSÉ BARBOSA é aluno do Curso de Letras – 4º período, Campus Rebouças.

Cartas para a coluna: jmjornalista@uol.com.br