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EDIÇÃO 3 29 de setembro de 2003
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BRASIL, 503 ANOS, DROGADO, PROSTITUÍDO...

Fábio Fabretti*

"O Brasil nunca foi ao Brasil".
Maurício Tapajós & Aldir Blanc

Há pouco tempo, recebi uma proposta para realizar um trabalho inesperado, durante o período de um mês, fora do Brasil. Uma brasileira, radicada na Europa, convidou-me para auxiliá-la na pesquisa de sua biografia. A primeira pergunta que (me) fiz, foi: "Quem é você?". Pois biografias interessam aos leitores quando são interessantes, no pleonasmo mais cruel que se possa ter. Ela me respondeu: "Eu sou alguém. Apenas." E acrescentou, a algumas boas milhas de distância, pelo fone: "Alguém que tem algo a dizer".

Soube, então, que a futura-nova-autora pretendia escrever o seu primeiro livro narrando a sua trajetória: a de ser uma mulher ainda jovem, proveniente da Amércia do Sul (mais especificamente de Petrópolis, Estado do Rio), de raça negra (e linda), vivendo com sua família (ela, uma empregada africana, o marido alemão e os filhos miscigenados), por um razoável acúmulo de anos no país germânico, cercada pela urbana (predominância) das cores pálidas e dos cabelos (naturalmente?) loiros. Ela queria falar sobre o estrangeirismo. Sobre vidas fora das suas vidas.

Seduzido pelo desafio, ou pelo prazer da árdua tarefa, visto que a remuneração não era lá tão atrativa, parti em busca da aventureira missão na herdeira terra dos vikings. O desconhecido sempre nos causa, de algum modo, um estranhamento. Inevitável. Bom ou ruim. Inesquecível ou deletável, mas causa. As descobertas, costumeiramente, deixam-nos seqüelas internas. E até externas, se duvidar. Quando meu avião taxiou em uma cidade chamada Stuttgart (que, segundo logo me informei, significa jardim onde se criava cavalos da raça Stutt), fui parar em um bairro a meia hora do centro da cidade, chamado Sonnenberg (que, logo também me informei, quer dizer Montanha do Sol). Instalei-me no lar-doce-lar da mais nova pretendente ao cargo de escritora, junto de sua família.

A casa (como as demais) tinha o telhado triangular, arquitetado para que a neve escorresse nos dias de inverno algoz, e cerceada por um jardim de cercas vivas, padrão da comunidade európeia interiorana. Antagonicamente, os moradores da parte central (por falta de opção ou mesmo por preferência) viviam em apartamentos a-la-Copacabana que se alastravam dos sótãos aos porões. Tudo envolto daquele peculiar clima comportado e civilizado do primeiro mundo.

O tal bairro da minha anfitriã, por ser afastado da cidade, tinha um número controlado de residências, dividindo o resto do espaço com uma infinita plantação de tudo o que se pode imaginar. E, nesse (real) imagiário, havia campos de girassóis (vívidas lembranças van-goghiana), flores diversas (que as pessoas colhem e deixam, em caixinhas vedadas, o dinheiro pago por elas), frutas (onde somente o plantador colhe), árvores e gramados (que esperam pacíficos pelo churrasco dos seus proprietários aos finais de semana). E é nesse espaço típico de um filme noir que os habitantes sonnenbergianos fazem seus coopers matutinos e vespertinos, bem como suas caminhadas noturnas, acompanhados por seus fiéis cachorros, como manda todo bom e digno europeu.

Mas, saindo da vida rural e entrando no mundo concreto – ou de concreto –, Stuttgart foi destruída na Segunda Guerra mundial e reconstruída pelas gerações seguintes. Portanto, a cidade de ares americanizados mantém, "vezenquando", uma ruína que fragmenta a dor do passado ou uma construção medieval que sobreviveu. Os cachorros transitam livremente pelos bares e restaurantes, ao lado dos seus donos. O chopp é servido quase na temperatura ambiente e possui sabor amargo, quando não é fundido com suco de laranja ou limão. A onda é Coca-Cola misturada com Fanta e, ser fumante, na Europa, é pouco menos que um filme de terror. Compra-se cigarros em máquinas (e máquinas não possuem calor humano. Quem compra um maço de cigarro tem lá os seus rituais e, seja quais eles forem, começam quando entramos em um botequim, padaria ou loja de conveviência e recebemos o cumprimento de um balconista). No aeroporto de Frankfurt, os fumantes aglomeram-se em uma sala (que é um pedaço de uma sala), abrigando cerca de quinze ou dez pessoas, feito abutres ao redor da carniça, isto é, de um cinzeiro.

Jamais poderia consentir passar pela Alemanha sem conhecer os vestígios deixados pela minha ídola de adolescência: Christiane F. Quem leu Eu, Christiane F., treze anos, drogada, prostituída... e foi punk nos anos oitenta, saberá o que quero dizer. A linda garota de Berlim tornou-se ícone de toda uma geração, simbolizando as alegrias e as amarguras de uma juventude trans-viada. E assim trilhei pela famosa Estação Zoo (que, descobri, traz esse nome por conduzir obviamente ao Zoológico). Vasculhei cada banheiro da pixada e maltratada estação de metrô, obervando com atenção cada rosto, cada canto, em busca, talvez, de alguma familiaridade. De tornar real o meu imaginário.

Estar na Alemanha, berço da música gótica e da literatura romântica, com a imagem marcada de uma Nina Hagen se esgoelando ao microfone, um Goethe romacista vomitando ébrio em um muro na cidade universitária de Thümbing (hoje com uma placa de bronze dizendo: "Goethe vomitou aqui") e Schiller, dramaturgo ultra-sensível, homenageado em pedra numa praça que serve de concentração ao término do Gay Pride alemão. Isso sem esquecer da estátua de Gutemberg, o criador da imprensa, ostentado em bronze numa praça na cidade fronteiriça alemã-francesa de Strasburg. A cidade das gárgulas sorridentes.
E, para finalizar o roteiro cultural turístico, o Café Odeon, em Zurique, a capital suíça, ponto de encontro (e de porres) de Goethe, Hermann Hesse, Marx e Thomas Mann, atualmente um dos locais mais cults dos gays.

Mas, na verdade, o que mais me impressionou nesse tour à Alemanha, foi, com sinceridade, o Brasil. A saudade. A auto-afirmação da minha identidade de ser um cidadão do terceiro mundo. Quem sabe induzido pelas centenas de camisas verde-e-amarelas da seleção brasileira, que via perambulando pelas ruas e metrôs, vestindo os (acreditem) corpos europeus. Ou por tanto pensar na antiga residência do Senhor Machado de Assis, no Boticário, hoje transformada em uma Pizzaria. Ou a casa em que viveu, na juventude, a fogosa Carmem Miranda, situada no pé do morro de Santa Tereza, atualmente condenada a ser engolida por uma encosta de terra, que ameaça desabar sobre ela a qualquer instante.

É realmente lastimável que não valorizamos os futuros ou passados talentos do nossos trópicos. É entristecedor que não nos preocupemos em manter viva as suas lembranças. Mas, mesmo que uma avalanche de terra cubra a humilde residência da saudosa Carmem, ou a extinta moradia do Bruxo do Cosme Velho tenha acabado em pizza, cuidado, gente. Como disseram Maurício Tapajós e Aldir Blanc, em "Querelas do Brasil": "O Brazil está matando o Brasil."

Ou somos todos suicidas?


* Fábio Fabretti é formando do último período de Letras (Português-Literaturas). É escritor, assistente de pesquisa, roteirista e dramaturgo.