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EDIÇÃO 3 29 de setembro de 2003
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Modos de Traduzir

Maria Amelia Ferreira (*)

Retomamos Charles Baudelaire (1821-1867), depois de percorridos caminhos de sua biografia e feita breve incursão em sua obra Les fleurs du mal, lançando agora um olhar sobre a tradução da poesia de Baudelaire para a língua portuguesa.

Necessário se faz tecer algumas considerações sobre a questão da tradução. A tradução impõe-se como fundamental, sobretudo a dos escritores clássicos, quando em nosso País a realidade é de domínio de uma só língua, não se levando em consideração algum conhecimento de línguas estrangeiras que desservem à leitura e entendimento pleno de textos densos, mormente ao pensarmos em escritura, em literatura. Diante da falta da tradução, nossa experiência e horizontes, enquanto homens no mundo e do mundo, estariam de muito e profundamente empobrecidos e esvaziados. Se nos faltassem Homero, Goethe, Dante, Shakespeare, Cervantes, Dostoievski, Kafka, Edgar Allan Poe, Thomas Mann, Flaubert, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Pablo Neruda, Garcia Lorca, T. S. Eliot, para citar apenas alguns nomes, nos seria negada a recepção da mais variada, rica e possível matéria de pensar. De igual modo, não estariam privilegiados em outras línguas os nossos grandes prosadores e poetas Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cecília Meireles.

Outra questão pertinente à tradução é a do conhecimento da "língua de partida" e da "língua de chegada". É importante conhecer bem a "língua de partida", suas particularidades e nuances, mas é também fundamental que o tradutor possua o domínio profundo da "língua de chegada" a fim de que possa estabelecer as equivalências e buscar as correspondências entre o que foi escrito e o que será reescrito.

O grande tradutor de poetas da língua inglesa, Abgar Renault é citado pelo acadêmico Ivan Junqueira, quando diz: "Em rigor e sem exagero, a tradução exige um esforço mais extenso e intenso do que a criação propriamente dita". Renault acrescenta, com inteira propriedade que em tradução não se trata de traduzir palavra por palavra, e sim, antes de tudo, recuperar a idéia do artista.

O poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos tinha a tradução como um trabalho de construção poética e motivo de reflexão teórica, uma vez que o fez de forma sistemática, tendo dedicado grande parte de seus ensaios à tradução.

Há uma calorosa e antiga discussão sobre a natureza da tradução. Seria ela uma recriação, onde se preserva a idéia lida do artista, uma tarefa impossível, um arremedo da criação ou ainda seria uma (in)tradução? Em razão das particularidades da língua, do necessário conhecimento das línguas de "partida" e de "chegada", da grandeza da arte de fazer poesia, fica a tradução como uma leitura profunda, onde o tradutor, perseguirá a harmonia, a conjugação das duas matrizes, mas, evidentemente, haverá uma recriação em tensão com o ato criador primeiro, que se dá pela própria experimentação da linguagem. E é tudo isso que faz da tradução uma matéria excepcionalmente grande.

Embora tenha séculos de prática, a tradução ganhou força entre nós no século XX, sendo inconteste o nome de Manuel Bandeira como o excepcional tradutor de poesia. No Brasil, Charles Baudelaire ganhou traduções esparsas de seus poemas desde 1871. Destacam-se duas traduções integrais de Les fleurs du mal. Uma de Jamil Almansur Haddad e outra de Ivan Junqueira. A primeira, do poeta paulista, Jamil Haddad, data de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro, dentro da Coleção Clássicos Garnier. A segunda, editada pela Nova Fronteira em 1985, do poeta e ensaísta carioca, Ivan Junqueira, tradução essa incluída nas obras completas de Charles Baudelaire, pela Nova Aguilar. Uma terceira tradução, do poeta Guilherme de Almeida, As flores das flores do mal, traz, por escolha pessoal vinte e um poemas de Baudelaire, editados pela Ediouro, de 1944, com introdução do poeta Manuel Bandeira. Com tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, aparecem Petits poèmes en prose Pequenos poemas em prosa, pela Editora Nova Fronteira. Tem-se também notícia da tradução de As flores do Mal evada a efeito pelo escritor Ignácio Souza Moitta, com data de 1971.

Deixemos a tradução falar da compreensão da tradução. A escolha recai em o soneto "A une passante", da seção "Tableaux parisiens", traduzido pelos três poetas em épocas diferentes: Jamil Almansur Haddad, Guilherme de Almeida e Ivan Junqueira. São três criações diferentes, eleitas diferentemente, mas igualmente ricas em suas marcas particulares.

Jamil Haddad, que além de Baudelaire traduziu As líricas, de Safo, O canto dos cânticos, de Salomão, O Decamerão, de Boccaccio, entre outros clássicos, traduz respeitando a métrica e a rima existentes no original.

Ivan Junqueira cultua a tradução como uma forma de instrumentar-se no que toca ao seu ofício e faz tradução com fidelidade formal, ao mesmo tempo, buscando a imagem essencial, mantendo a métrica e esquemas rítmicos de que se valeu o poeta como declara em entrevista concedida a Cláudio Aguiar, em maio de 1997, em Fortaleza, e ajuntando que muitas vezes pensou em desistir de tal tarefa. Junqueira empreendeu a tradução de Les Fleurs du Mal em quase cinco anos.

Para Manuel Bandeira, o poeta Guilherme de Almeida realizou como ninguém o "tour de force" ao fazer a tradução de As flores das flores do mal, conseguindo traduzir "até os diamantes" existentes nos versos de Baudelaire. No prefácio, o tradutor Guilherme de Almeida declara : "... no meu processo de recriação, não há propriamente luta de poeta contra poeta, de um contra outro idioma, e sim uma automática justaposição, passiva conformação, espécie de 'entente cordiale', de tácita e recíproca sujeição." O poeta rejeitava os termos tradução e versão e usava, deliberadamente, recriação, reconstituição, transmutação, transfusão, declarando como extenuante o labor de oito anos dedicados a recriar As flores das flores do mal.

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse ,
Une femme passa, d' une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de stautue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair...puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'eternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! "jamais" peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

Tradução de Jamil Haddad

A uma Passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago, e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!

Tradução de Ivan Junqueira

A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Tradução de Guilherme de Almeida

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

(*) Maria Amélia Ferreira é aluna do Curso de Letras, IV período- Campus Rebouças.

Endereço para correspondência:
f.amelia@openlink.com.br