Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Coluna de Espanhol
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Livros Recomendados
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 
GRADUAÇÃO X PÓS-GRADUAÇÃO:
O QUE HÁ DEPOIS DO FIM?

Por Angelo Grisoli


A condição humana demonstra, por experiências diversificadas, o quão conflitante é a relação de prazer e desgosto perante as mais inesperadas situações cotidianas. A título de exemplificação, geralmente, ao término de qualquer projeto de vida, seja tanto profissional ou sentimental e cujo esforço fora evidente por parte do sujeito (ou dos sujeitos) atuante(s), ocorre, naturalmente, uma densa sensação de vazio e prostração interior. Obviamente, esse tipo de situação descrita seria aplicável às mais simples e complexas situações da vida, como um rompimento amoroso ou o indeferimento de uma causa defendida. Todavia, buscamos aqui demonstrar a questão num sentido mais específico. Isto é, demonstrar a origem desse vazio proveniente da conclusão de um curso de graduação universitária. Chocados? É isso mesmo. Em princípio, pode parecer um tema superficial – sem muita densidade; entretanto somente aqueles (sem elitizar a proposta) que já passaram por esse momento tem a dimensão paradoxal do fato.

Quando ingressamos em um curso universitário, de forma apaixonada, buscamos aprimorar aquilo que num dado instante passado despertara-nos para um mistério que talvez já estivesse dentro de nós de maneira velada. Buscamos sublinhar que, não só por conta de futuras projeções financeiras, mas, principalmente, por conta do impacto sugestivo que uma idéia ou uma prática se apresenta aos nossos olhos é que compreendemos o drama vivido por um universitário ao alcançar a conclusão do curso. Assim, nos vemos, dia após dia e inconscientemente, tomados ou dominados por um cotidiano acadêmico que nos torna praticamente "institucionalizados", ou seja, vivemos, sem saber, uma relação de amor e ódio com a universidade.

Se por um lado desejamos a todo custo concluir nosso objetivo, quando chegamos ao fim, nos percebemos fatalmente traídos por nossa cega vontade de voltar, pois estamos tão adaptados aos embaraços e situações corriqueiras da faculdade que, curiosamente, se torna estranho nos vermos divorciados daquela realidade. Não estamos aqui buscando criar nenhum tipo de reinterpretação da "síndrome de Peter Pan", adaptada à vida universitária. Porquanto, nossa intenção, além de sublinhar a problemática vivida pelos recém-formados, é também de levantar a necessidade de se estabelecer um diálogo de maior amplitude entre os alunos e as universidades, com intuito de estimular e orientar os "pré-formados" no caminho das enigmáticas pós-graduações.

Digo "enigmáticas", porque, em termos gerais, o que recebemos de informações sobre elas é muito pouco frente à seriedade implícita nos possíveis desdobramentos de uma carreira profissional. Faz três semanas, ou talvez quatro, que nos deparamos com uma admirável cena: quando, por alguns instantes, descansávamos de algumas aulas dadas, um colega (professor de História) e eu, recém-formado no curso de Letras, ouvimos três outros professores se digladiando numa discussão sobre as diferenças entre uma pós-graduação lato sensu e outra strictu sensu. Ao término daquele embate, visto o tom exaltado com que discutiam, chegaram à conclusão de que não tinham recebido de suas respectivas Universidades as devidas informações esclarecedoras.

O que propomos é, em linhas paralelas à conclusão dos cursos, que se crie, a partir da fase final da graduação, um espaço tanto de direcionamento, quanto de estímulo maior, por parte das instituições, aos alunos, já que neles reside o embrião das grandes descobertas e a efetiva manutenção da chama do conhecimento. Tendo em vista que sobrevivemos em meio ao caos das grandes metrópoles, o que contemplamos na contemporaneidade é um novo fenômeno da barbárie civilizatória: vemos, indiscriminadamente, uma grande parcela dos formados atuarem em áreas completamente opostas às suas devidas carreiras e, pior ainda, atuando em posições extremamente subalternas. Ou seja, o aprimoramento através de cursos de pós-graduação já não é mais uma opção e, sim, uma obrigação para aqueles que visem uma projeção maior dentro da ordem ditatorial e suicida do mercado.

Recordemos um filme produzido por Hollywood para concluirmos nosso texto, cujo título em português é Um sonho de liberdade. A história se passa num presídio, onde alguns detentos delineiam o enredo a partir da dramaticidade de suas vidas e dos sonhos que almejam alcançar. Um deles, já um homem idoso e há algumas décadas aprisionado naquele lugar, vê-se convidado a se retirar de lá por conta da aceitação de seu pedido de condicional. Paradoxalmente, sua reação é de negação total da proposta, a ponto de se tornar agressivo com um de seus colegas.

Por fim, é obrigado a aceitar, vindo a se suicidar algum tempo depois, já em "liberdade", pois percebe que já não mais saberia, depois de tanto tempo aprisionado, se adaptar ao mundo e às suas modificações. Logo, a mensagem que gostaríamos de destacar do filme é a seguinte: vivemos obrigados a nos adaptar a uma sociedade que nos impõe a inclusão sistêmica numa, ou mais de uma, grande corporação, a fim de garantir nossa sobrevivência. Quando já "experientes", não mais tão ingênuos ou sistematicamente lucrativos ao poder, somos lançados no coliseu com nosso "canudo", tendo que enfrentar em critérios de igualdade os outros guerreiros, com suas espadas banhadas pelos títulos conquistados em outras terras. Por esse viés, não haveria algo de muito similar entre o embrião materno e o tão amado e odiado percurso de graduação?

Pensamentos.

Cartas para a coluna pelo e-mail:
angelogrisoli@yahoo.com.br