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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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TRISTE TRISTÃO?
Gerald Thomas causa controvérsias em sua recente montagem de Tristão e Isolda

Richard Wagner sempre foi um artista questionado. Colecionou brigas, polêmicas e inimigos. Para a recente montagem de sua ópera "Tristão e Isolda", de 1865, era necessária uma voz tão polêmica quanto a dele. Para a tarefa, foi convocado o diretor Gerald Thomas, que voltou de Londres especialmente para a montagem.

Gerald estava há dois anos sem trabalhar no Brasil e já tinha encenado essa ópera de Wagner em 1996 em Weimar, Alemanha. O controvertido encenador já tinha montado outras versões de Parsifal e O Navio Fantasma, nos anos 80. Para essa montagem de Tristão e Isolda, que teve sua estréia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e que nunca tinha sido montada no Brasil, optou-se em fazer uma leitura pós-moderna do texto – o diretor incluiu novos elementos em cena; a história se passa simplesmente dentro do consultório de Sigmund Freud! Sim, caro leitor, é isso mesmo: o pai da Psicanálise entra na história graças ao instinto criador do encenador.

A proposta dessa montagem, que tem quatro horas de duração, é de um Wagner sob o olhar analítico de Freud, alcançando o delírio. O elixir que Tristão e Isolda bebem é simplesmente substituído por cocaína, o que para ele é um exercício de metalinguagem, pois o psicanalista era usuário da droga. "Eu tenho que brincar com que é clássico. (...) Chega de mentirinha!" – bradou o diretor em recente entrevista ao Jornal do Brasil.

Era de se esperar que a recatada platéia carioca não aplaudisse a montagem de pé. Acostumada a textos "globais" e de fácil apreensão, fica difícil para esta compreender, por exemplo, por que a ação se passa entre um desfile de moda e uma sessão de análise.

Segundo Gerald Thomas, o mundo está tomado pela artificialidade e pela falta de discussão, por isso ele fez tal modificação. O resultado não poderia ter sido outro: vaias ostensivas abalaram o Municipal do Rio, em sua noite de estréia. E Gerald respondeu abaixando as calças, simulou gestos obscenos e virando-se de costas para o público. A atitude do diretor chocou a mídia, o público e as autoridades. O chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, chegou a abrir um processo contra Gerald Thomas acusando-o de atentado ao pudor. A secretária de Cultura, Helena Severo, e a governadora do Rio, Rosinha Matheus, intercederam por ele. Mesmo assim a polêmica já estava lançada.

O diretor se justificou dizendo: "Gosto, sim, da vaia orgânica, que expressa uma reação espontânea. Mas a ensaiada não tem graça". Em termos de público brasileiro, que já vaiou calorosamente modernistas, tropicalistas e, até, Nelson Rodrigues, este neste mesmo teatro, não seria nenhuma novidade que Gerald Thomas também não fosse. Porém, a polêmica foi tão grande que nos últimos dias da exibição de Tristão e Isolda os ingressos já haviam se esgotado.

Aproveitamos a ocasião para endossar as palavras de Gerald, publicadas em sua coluna semanal do JB de 15 de julho de 2003:

"Críticos, detratores e inimigos em geral: podem sacar as suas canetas e armas. (...) E já que vocês vão me metralhar, que o façam com dignidade!"

Gerald Thomas lançou a polêmica no nosso adormecido ambiente cultural. Fez com que aflorasse a dignidade e a mediocridade de muitos críticos, quando estes resolveram comentar o acontecimento da noite de estréia, na mídia em geral. Em nome dos amantes da arte teatral, esperamos que a dignidade prevaleça, não apenas em relação ao polêmico encenador, como também em relação à arte como um todo.

Texto de Vinícius Rangel Bertho

Leia também a coluna OUVIDO LETRADO, que trata da ópera Tristão e Isolda.
Leia mais sobre a peça em Tristão e Isolda.
Leia mais sobre Wagner.

Cartas para esta coluna:
viniciuspersona@hotmail.com