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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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O QUE É A "ÓPERA DO MALANDRO"

A Ópera do malandro, de Chico Buarque de Holanda, estreou em julho de 1978, no Rio de Janeiro. Era época da ditadura militar e o Brasil ainda atravessava um período de repressão, menos intensa que nos "anos de chumbo", é bem verdade. Apenas para nos situarmos no tempo, foi no mesmo ano que nasceu o primeiro bebê de proveta na Inglaterra (Louise Brown), faleceram Orlando Silva, Ziembinski e o Papa Paulo VI, substituído por João Paulo I, que morreu em seguida, dando lugar a João Paulo II. Mas a Ópera continua absolutamente atual, se lembrarmos a crise de um País entregue à falcatrua, ao comércio de bundas, ao capital estrangeiro, à corrupção – questões prementes desde o final dos anos 70, quando a peça foi escrita.

O texto, baseado nas Ópera do mendigo, de John Gray (de 1918) e na Ópera dos três vinténs, de Bertold Brecht e Kurt Weill (de 1928), é ambientada num bordel e retrata a malandragem brasileira, em espetáculo musical, com composições de Chico Buarque de Holanda. Em meados dos anos 80, o conceituado cineasta Ruy Guerra (de Os Cafajestes e tantos outros filmes) transpôs a obra para o cinema. Várias já foram as versões apresentadas no teatro; a última delas trouxe a direção de Gabriel Villela, no ano de 2000 (ver mais sobre a montagem no final deste texto).

Chico Buarque, em 1978, declarou que a sua Ópera do Malandro "é um texto novo, em cima da Ópera do Mendigo (The Beggar's Opera), com detalhes de Brecht". No elenco da montagem original, dirigida por Luiz Antonio Martinez Corrêa, participaram Otávio Augusto (Max), Marieta Severo (Terezinha), Elba Ramalho (Lucia) e Emiliano Queiroz (Geni).

Ambientada em um bordel, ela conta a história de um malandro carioca, tentando sobreviver nos anos 40, final da ditadura de Getúlio Vargas – clima bem parecido com o de 1978. Como espetáculo musical, que é, a trama gira em torno de Max, ídolo dos bordéis. A temática, como não poderia deixar de ser, retrata a malandragem brasileira no submundo da cidade do Rio de Janeiro, com todos os ingredientes capazes de nos transportar àquela época, com a chegada das meias de nylon e dos produtos norte-americanos, que entravam clandestinamente. Não muito diferente da cena das falsificações vendidas pelos camelôs de nossa cidade maravilhosa.

O cenário é a Lapa das prostitutas e da pancadaria; o período – a década de 40 – com a Guerra assolando o mundo e mandando seus ecos para o Brasil. A Ópera do Malandro põe em cena a rivalidade entre o contrabandista Max Overseas e Fernandes de Duran, o dono dos prostíbulos da Lapa. Bem no meio da briga está Terezinha, a filha única de Duran e de Vitória, que se casa com Max sob as bênçãos do Inspetor Chaves, o Tigrão, que "trabalha" para os dois contraventores. O casamento é o golpe final na família Duran: o desgosto dos pais de Terezinha – e, naturalmente, a ameaça aos negócios – é o gatilho da trama em que todos tentam tirar vantagem de todos. A peça cria, ainda, outros personagens inesquecíveis, como Geni e Lúcia, esta última filha de Tigrão e rival de Terezinha.

A peça, na época em que foi montada pela primeira vez, sofreu censura – o que não parece ser muita novidade, nem na carreira de Chico Buarque, nem na história do País. No caso, a letra cantada pela personagem Terezinha teve de ser adaptada. O texto era: "Meu amor tem um jeito de me beijar o sexo, e o mundo sai rodando, e tudo vai ficando solto e desconexo". E passou a ser (como hoje é conhecida pelo grande público): "O meu amor tem um jeito de me beijar o ventre e me deixar em brasa/ desfruta do meu corpo como se o meu corpo fosse a sua casa".


Nara Leão e Chico Buarque

A mudança foi decidida faltando pouco mais de uma semana para a estréia de Ópera do malandro, mas Chico, pouco depois, disse preferir a letra que substituiu a original – pelo menos, foi ela que ficou conhecida.

A Ópera do malandro foi lançada numa época em que a poética de Chico Buarque estava "afiadíssima". Ele vinha de uma tentativa frustrada de montar outro musical, Calabar, sufocado pela censura do regime militar. Talvez, também por isso, a Ópera fale de corrupção policial, do jogo entre o aparato oficial e a bandidagem, tudo bastante atual como mostra o noticiário dos jornais. A trilha produziu várias preciosidades que foram fazer sucesso em outros discos, como Folhetim, cantado por Nara Leão, na trilha, e sucesso com Gal Costa. Chico pegou O meu amor interpretado por Marieta Severo e Elba Ramalho para o disco que tinha seu nome como título, lançado em 1978, e no qual também incluiu a Homenagem ao malandro, numa interpretação sua menos saborosa do que a de Moreira da Silva, na trilha.

Na época, a peça criou um bordão popular "joga pedra na Geni", da canção Geni e o zepelim, cantada por Chico Buarque. Geni é uma prostituta que se deita com qualquer um e, por isso, é desprezada pelos supostos cidadãos de bem. Um belo dia, aparece um militar poderoso que ameaça dizimar tudo, mas cai de amores pela Geni e promete poupar a cidade se ela deitar-se com ele. Geni reluta, a população implora, ela atende. O poderoso chafurda nas suas carnes a noite inteira e parte ao amanhecer. Quando Geni, crente que agora tinha o respeito de todos, se prepara para dormir, começa a gritaria: "Joga pedra na Geni".

Sabemos que a música clássica, às vezes, aparece por intermédio da música popular. Na sua Ópera do Malandro, Chico Buarque faz citação explícita a várias obras famosas, como, por exemplo, a Carmen, de Georges Bizet. Também a canção final de Os Saltimbancos, aquela do "todos juntos somos fortes...", é integralmente uma melodia de Beethoven.

Outras versões

A versão de Gabriel Villela para esse musical arremessa a malandragem da Lapa numa espécie de cenário de Velho Oeste que lembra a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

Nessa espécie de estábulo, é como se Villela dissesse que o processo de colonização persiste. E nossos carrascos são os "ianques, com seus tanques" e nós mesmos, patéticos e deslumbrados diante das maravilhas do primeiro mundo. A versão de Villela "atropela" toda a sutileza do texto original, travando a narrativa com uma série de improvisos que divertem, mas esvaziam o texto de sua carga dramática: são inúmeras as vezes que os atores "erram" o texto ou se "surpreendem" falando o texto de outra peça. Por outro lado, os números musicais apresentam uma novidade: os cantores-atores desafinam o tempo todo, propondo aquilo que Villela chama de "teatro do equívoco". Depois da centésima desafinada, contudo, o "defeito" não tem mais efeito sobre a platéia e a crítica aos costumes embutida na peça se dilui entre risos.

Galeria de fotos

A peça, montada em 1978

O filme de Ruy Guerra (com Edson Celulari, Elba Ramalho, Claudia Ohana, Ney Latorraca, Fabio Sabag)

A peça montada por Gabriel Villela

Leia mais

http://www.chicobuarque.com.br/letras/desafiod_85.htm