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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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FIGURAS DO ALÉM

Certas questões costumam assombrar as salas de aula do curso de Letras. São fantasmas que, quando surgem, ficam pairando no ar e nos deixam gagos ou mudos.

Figuras de linguagem, como as usadas acima, são comuns no falar cotidiano; metáforas, metonímias ou hipérboles não chegam a nos assustar. Existem, porém, uma infinidade de outras, menos cotadas, que não só fazem plena justiça à definição de "desvios do uso normal da língua", como ainda possuem nomes semelhantes a doenças e seus respectivos remédios:

- Está com anadiplose? Tome duas gotas de mesoteleuto em jejum!
- Para a epanortose faça exercícios de palilogia!
- As endíades lhe provocam parrésia? Pare de deprecar por qualquer antanagoge.

Mas a questão em pauta é mais simples: qual a diferença entre antítese, paradoxo e oxímoro? – Bem... eu sei... mas não sei explicar! Nem eu... Na verdade, não é tão simples assim, tanto que não há como encontrar dois autores apresentando o assunto da mesma forma, por isso, é sempre bom rever o que eles dizem.

Na antítese usamos palavras ou frases que contrastam entre si, são idéias opostas, mas dão "vida uma à outra": dia X noite, claro X escuro, nascer X morrer. São figuras construídas de tal forma que as idéias se complementam ou se reforçam, em vez de estabelecerem um confronto de fato. Por exemplo:

nos provérbios:
"Quem quer faz, quem não quer manda", "A quem ama, o feio bonito lhe parece."

nestes versos de Fernando Pessoa:
"Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras."

O oxímoro é um caso grave de antítese, talvez a etimologia da palavra possa nos ajudar: do grego morós – "tolo, louco, doido, sem bom senso", com oksús – "agudo, sutil, fino", dando: oksúmoron – "engenhosa aliança de palavras contraditórias". Essa figura consiste "na fusão, em um só enunciado, de duas idéias que se excluem mutuamente", mas continuam tendo um efeito de reforço, de atenuação ou, também, de ironia. Por exemplo:

em clichês: "ilustre desconhecido";
em Garrett: "covarde valentia";
em Cecília Meireles: "inocente culpa".

No paradoxo, estamos muito próximos do oxímoro – alguns autores não fazem distinção entre eles – aqui também temos "idéias contraditórias num só pensamento, levando à enunciação de algo contrário ao senso comum, tendo a aparência de um erro", mas tendo a intenção de dizer algo verdadeiro, porém enunciado de uma forma original e enigmática. Por exemplo:

em Machado:
" Ele não podia deixá-la nem suportá-la "
"Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia";

em Pessoa:
" Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,"
"Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer
Resolver a equação desta inquietação prolixa,"

Na verdade, a pergunta foi feita apenas para provocar o assunto, pessoalmente, não vejo grande importância em saber de cor os nomes das figuras (a não ser que seja uma questão de prova), mas sim, saber empregá-las, da melhor forma possível, na criação de um efeito estilístico. Um abraço.

Referências bibliográficas:

Dicionário de termos literários - Massaud Moisés
Dicionário eletrônico Houaiss
Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem - Oswald Ducrot, Tzvetan T.
Gramática da língua portuguesa - Rocha Lima
Novo dicionário Aurélio
Teoria literária - Hênio Tavares

27/08/03