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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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ENTREVISTA: LÉO JAIME


Léo Jaime dispensa muitas apresentações: é figura conhecida na mídia, dada a sua vertiginosa carreira musical, iniciada nos anos 80. Desde então, ele é lembrado como "rockeiro", com seu estilo bem-humorado, porém muito poucos conhecem suas múltiplas facetas: além de músico, tem uma carreira consolidada no jornalismo, escreve para a tevê e teatro, atua, canta, dança, faz trilhas musicais. É exatamente o "outro" Léo que buscamos explorar nesta entrevista. Num diálogo franco, inteligente e autêntico, ele conversa sobre temas pouco trabalhados, sem contudo perder a vivacidade de raciocínio. Portanto, vamos a ela:


1. Acompanhando a sua trajetória recente, pode-se perceber que o teatro tem atraído as suas atenções. Pelo menos, de três peças você participou: "Vitor ou Vitória", "Terceiras Intenções" e, agora, os "Monólogos". A dramaturgia responderia ao seu olhar múltiplo sobre o mundo, no sentido de experimentar várias situações, como tem sido a sua vida?

Léo Jaime: Gilda, minha vida tem sido a de um operário da cultura; não realizo nada sozinho ou seguindo metas particulares, atuo em projetos coletivos ou sob a égide de algum produtor. E, no entanto, tenho atuado mais no teatro e posso explicar o porquê. Há, ainda, um quê de "feito à mão", no mundo teatral, quando tudo o mais está inserido em um espetacular esquema industrial. Discos, programas de TV, filmes, tudo tem uma obrigação de eficácia e de resultado financeiro em escala industrial e, por isso, as ousadias são quase que indesejáveis. Discos são vendidos em supermercado, atualmente, e isso faz com que uma marca de artista tenha que ser trabalhada como qualquer outra marca, de sabão, palha de aço, etc. Andei fazendo, no teatro, desde Vítor ou Vitória, o espetáculo mais visto no ano, e de Cócegas, o segundo mais visto (eu só fiz a música título, mas participei dos ensaios, colaborei nos offs, até como ator), em várias funções. Fiz a música do espetáculo A Filha da..., texto premiado como o melhor do ano no concurso promovido pelo Jornal O Globo e encenada com Marília Pêra encabeçando o elenco. Escrevi parte do texto de Na Medida do Possível, que está, atualmente, cumprindo temporada de muito sucesso em São Paulo, encenado por Eduardo Martini. E fiz, também como ator, Terceiras Intenções, texto traduzido e adaptado por Juca de Oliveira e dirigido por Bibi Ferreira. Além disso, atuei também em um curta a ser lançado no segundo semestre, de ficção, dirigido por Luis Tripolli, e fiz também participações em um sitcom do SBT, Meu Cunhado, contracenando com Ronald Golias. Minha vida está mais voltada para o teatro, e agora acho que cabe explicar, porque é no teatro que se discute estética, por ser um meio de expressão que exige a presença do ator e espectador em um mesmo ambiente, por ter essa limitação e, por isso, dificilmente industrializável. O foro de discussão estética costumava ser a música popular e por isso gente que escreve ou escrevia, como Cazuza, Renato Russo e eu, muito modestos em habilidades musicais, nos voltamos para a expressão musical, nos início dos anos 80. Agora, já não mais ocorre nenhum embate de idéias, ou nenhuma corrente com a qual se possa dialogar está disponível. Há a indústria e há o que vende. Mas há uma evidente falência nessa ordem e pode ser que as coisas virem em breve.

2. Pelo que sei, você deixou Goiânia com a peça Os Saltibancos e veio para o Rio de Janeiro. Depois, em 1988, você estreou como ator de telenovelas, ao interpretar o ladrão Zezinho em Bebê a Bordo. Agora vai para São Paulo e faz teatro. Você diria que o teatro é um retorno às origens? Ou essa vocação sempre ficou adormecida pela música e agora aflora com maior vigor?

Léo Jaime: Nunca quis determinar limites ou preferências. A expressão pode se dar em qualquer veículo com um mínimo de estudo e dedicação em absorver as técnicas e o domínio da linguagem. Vim parar no Rio fazendo a excursão de Saltimbancos. Aqui fiquei, ao invés de ir para São Paulo trabalhar com o Zé Celso Martinez, por ter sido chamado às pressas para substituir um ator / bailarino da companhia de Klaus e Angel Vianna, num espetáculo que o José Possi dirigia. Acabei ficando na companhia do Klaus e me dedicando à dança e ao gestual por alguns anos. Dava aulas de violão, era bailarino, cantava em bandas de garagem e fazia ponta em filmes, mas o tempo todo sabia que o que eu escrevia era mais importante do que a forma com a qual eu me expressava cenicamente. Isso era e é o que faz a diferença. Mas adoro o palco. Tanto faz se é para cantar ou para atuar. Em verdade, e é bom dizer isso, prefiro atuar. Cantar é melhor em estúdio. O teatro é um jogo muito perigoso e divertido. É mágico quando o jogo com o outro ator ou os outros atores se dá com entrega e concentração total. Com Marília Pêra, evidente, dividindo o palco por duas horas, durante um ano, esse jogo era cada dia de um jeito e sempre muito instigante e apaixonante. Aprendi muito e curti muito. Acredito que eu seja um ator / jornalista que toca nas horas vagas. Ainda que eu seja conhecido mais por causa da carreira musical, cada vez mais, ela se apequena diante de minhas outras realizações profissionais. A música tem sido ingrata comigo. O teatro, não: é sempre generoso.

3. Sabendo de sua leitura em torno da obra de Nelson Rodrigues, até que ponto haveria uma influência, ou uma afinidade entre você e ele, a partir do momento em que ele era dramaturgo e também jornalista?

Léo Jaime: Vejo essa confluência em vários ídolos. Ari Barroso era poeta, músico e radialista, ou melhor, jornalista esportivo. Jô Soares é humorista, comediante e jornalista, se é que entrevistar cabe mais em outra atividade que nessa. Nélson é ídolo por muitas razões: porque seu texto estava sempre veiculado no jornal e tinha a obrigação de surpreender e ser acessível. Seu ponto de vista era original e nunca dogmático. Era um mestre em desconstruir e um gaiato, por excelência. Estava para o leitor como o cidadão que na padaria comenta o noticiário enquanto mergulha o pão no pingado. Fazia um alarido enorme em sua crônica esportiva. Era capaz de ver deuses em duelos definitivos assistindo um Bangu e Olaria. Tornava tudo magnífico e maravilhoso. Assim fica mais bonito de ver o esporte e, creia, o esporte acaba ficando mais bonito e artístico só para merecer o comentário grandioso e poético. Esse é o futebol arte, o que nossos autores criaram em páginas de jornal e que os atletas se viraram para tornar verdade. Nélson tem a habilidade do adjetivo. E adjetiva tão bem quanto Machado de Assis pontua. E o adjetivo é o essencial da crônica, da crítica, do olhar crítico. Outra coisa: a habilidade em formar um estilo, segundo Nélson, se dá pela repetição. Para qualquer um que escreva isso é uma libertação. Estilo é igual a repetição. Assim como Shakespeare nos livrou do fantasma da originalidade, Nélson nos livra do fantasma da repetição. E eu sou um fanático por frases. Esse é o meu fetiche. Oscar Wilde e Nélson são gênios nessa arte. A frase tem por excelência a síntese e o impacto da idéia. É um jogo delicioso.

4. Parece haver uma grande diferença, em termos de escrita, entre ser jornalista, compositor e dramaturgo. Mas também há elementos em comum. Você poderia nos falar um pouco sobre a sua experiência no trato com a linguagem?

Léo Jaime: Tenho um grande amigo dramaturgo, Marcelo Rubens Paiva. Ele faz textos para a Folha, é jornalista, faz crônicas para revistas e escreve romances. Um dia lamentei com ele a minha inaptidão para textos longos. Ele disse que qualquer coisa poderia virar um livro. Até mesmo aquela nossa conversa poderia render um romance. Isso fez com que eu me tranqüilizasse para escrever o monólogo sobre o homem solteiro de 40 anos e seus problemas. Atuar em filme é diferente de teatro e diferente de televisão. Faço os três e digo que a diferença é a mesma entre dirigir carro e moto ou andar de bicicleta. Uma vez que você sabe fazer um, fica fácil aprender o outro. Fiz alguns roteiros para teatro, fui redator de televisão em programas humorísticos e de entrevistas ou musicais. Há muito em comum. E há os truques ou necessidades de cada veículo. Na TV, você não tem muito tempo para envolver o espectador, tem que ser tudo muito claro e o tempo é precioso. No teatro, é mais confortável, não precisa ter uma piada por frase, pode ser engraçado sem ser uma gargalhada atrás da outra, porque você tem tempo para criar uma certa cumplicidade com a platéia. Confesso que há muito de pragmatismo em tudo isso. E um pouco de "o que, como, quando, onde e por quê?". O jornalismo, se não é opinativo, é mais fácil. Encha de informações e seja objetivo, sem se alongar. No texto reflexivo, artístico, é preciso trapacear a língua, como diria o nosso Barthes. É preciso ir um pouco além, é preciso ter ruído, é preciso dançar sobre os sentidos e deixar muitas lacunas abertas. E nunca compreendemos totalmente um texto, mesmo que a gente o escreva. Esse domínio total é uma insegurança que aos poucos vai sumindo. Sempre há milhares de interpretações. E a interatividade do texto, no teatro, por exemplo, pode ser muito educativa.

5. Eu queria voltar a uma questão que você coloca lá no início da entrevista: o "atuar em projetos coletivos" e a idéia de um projeto estético, que se coloca fora da música, hoje em dia. Concordo com a sua leitura e percebo que você se mantém fiel ao momento vivido nos anos 80. Então, falando um pouco em termos geracionais – embora este seja um conceito discutível: a garotada que construiu o pop-rock dos anos 80 (e da qual você foi parte integrante) foi uma geração que se fragmentou, ou foi fragmentada. A que fatores você atribui esse processo de dilaceração?

Léo Jaime: É curioso e necessário refletir sobre essa questão agora. Os documentos estão saindo. Percebemos que a história estacionou ali. E, se não estacionou, pelo menos começou a andar em círculo. Naquele momento, havia um panorama muito opressor; de um lado a ditadura e o abismo cultural criado pelas reservas de mercado e, de outro, a esquerda patrulhando toda a produção estética e de informação fazendo com que toda expressão acabasse, mesmo sem querer, tendo uma função política maior que estética. Recordo de coisas absurdas, como um filme, se não me engano espanhol, chamado "Actas de Marúsia", ou coisa assim. Durante muitos anos, esse era para mim o retrato da desgraça artística rendida por um salvo conduto panfletário e empurrada pela goela de intelectuais, os únicos que assistiam, como obra de arte. O filme era horroroso. Coisas lindas como Stevie Wonder, nos anos 70, eram vistas como reacionárias ou inúteis, uma vez que não eram panfletárias. Não quero me alongar sobre isso. O fato é que havia naquela época uma juventude urbana sem voz. Não havia música boa pra dançar. Não havia na estética desse País a figura do jovem urbano e suas questões. Havia a esquerda catequizando e a direita reprimindo. Nós éramos detestados pelas duas correntes. MDB e ARENA, os exemplos políticos de como era dividido aquele mundo maniqueísta, nos achavam indesejáveis. E éramos uma legião. Nas artes plásticas, na música, no teatro, na TV, na literatura (ainda que em menor expressão mas os livrinhos de mimeógrafo eram um escape ao mundo sisudo da literatura nacional), em todas as áreas. Era um zeitgeist libertário e sem as camisas de força impostas pela direita, que dominava os jornais e meios de expressão.
Uma vez, ao fim de uma de nossas peladas, conversei com o Chico Buarque sobre esse assunto. Dizia a ele, um grande ídolo para mim, que a geração dele tinha estabelecido um tal padrão de qualidade que ninguém mais conseguia alcançar. Perdoe se demoro para entrar na questão que você mencionou, mas foi o Chico quem deu a resposta. Dizia ele que a sua geração não tinha nenhuma cobrança na hora de escrever ou criar (sem mencionar a patrulha que foi uma coisa horrorosa até pra ele) e que gravar um disco era uma coisa simples, sem necessidade de tocar em rádio ou vender muito. Se o cara da gravadora achava que você tinha talento ele gravava um disco. E ainda assim, sem essas cobranças, não eram muitos os caras que faziam um trabalho genial. Cinco ou seis, segundo Chico. E na nossa geração, continuava, havia uma cobrança enorme de eficácia, havia o cara da gravadora pedindo shows de playback no subúrbio de graça, shows para rádios, também de graça, gravação de vídeo-clipes, uma enormidade de aparições na TV. Tínhamos uma enorme agenda com a indústria cultural que se firmava com a nossa ajuda e tínhamos também uma desconfiança e desdém por parte de toda a classe pensante. E muita gente boa fazendo muita música boa e estabelecendo, talvez pela primeira vez nesse País, uma linguagem que tanto servia às classes mais diversas, era acessível, e, a um só tempo, a versão nacional da cultura pop que nem a jovem guarda e nem o tropicalismo tinham resolvido muito bem. Óbvio que não havia nenhum acordo ou proposta e, pra dizer a verdade, tudo nos assombrava.
Começou nesse período a definição mercadológica dos produtos culturais. As rádios, revistas especializadas, toda a organização industrial nos exigia definições. Em linguagem de mercado, isso se chamava "segmento". Tínhamos que escolher um segmento, assim como o público precisava se identificar com um desses segmentos para uma ultra especialização. Algo como substituir o Chacrinha, nosso maior ponto de encontro, pela MTV. Isso foi a fragmentação. Sempre fui um artista popular e produto de toda a mistura cultural, antropofágico de nascimento e curioso por opção. Nunca gostei de clubinhos e nunca gostei desse tipo de mordaça industrial. É como se um ator tivesse que escolher qual personagem iria fazer para o resto da vida. Até na televisão isso se deu. Engessa tudo e dilui tudo. Cada macaco no seu galho. O que define um segmento é uma certa quantidade de clichês, que precisam estar presentes em qualquer produto criado para esse nicho de mercado. E é assim que a coisa vem andando de lá pra cá: em círculos. Hoje o pessoal mais novo não sabe diferenciar uma música atual de uma lançada há trinta anos. Até mesmo as bandas que fazem um trabalho dito de protesto seguem à risca os ditames do mercado, ou seja, as restrições do segmento. E os artistas que começaram depois enfrentavam com mais simpatia a essa determinação. Eu não. Sigo com a idéia de que bom gosto é uma qualidade de quinta categoria e achando que a geléia geral, a mistura de tudo é o que dá graça ao nosso tempero.
Resumindo: num primeiro momento, fomos fragmentados e, em seguida, nos fragmentamos. Houve um momento em que eu não sabia mais o que compor. Coisas bem humoradas eram menosprezadas. As mais voltadas para o universo amoroso não eram tidas como boas por não tratar o tema com o devido cinismo. O cinismo virou moda. Hoje esse mundo pop ficou muito machista e previsível.

6. Ainda aproveitando um pouco a idéia do "projeto coletivo", que é uma experiência muito importante, eu resgataria a construção de seu texto, os "Monólogos": dos dois, um você escreveu sozinho e o outro, em parceria com Flávio de Souza. Há diferentes procedimentos, para bem e para mal. Você poderia comentar este trabalho autoral diferenciado? Seria como um trabalho de parceria musical? As diferenças são atenuadas ou o conflito é necessário, já que teatro é conflito? Como é o processo de criação?

Léo Jaime: O toró de idéias é uma técnica bastante divertida. Fala-se sem pensar, seguindo o conceito freudiano de associação livre de idéias. Por exemplo, outro dia estávamos escrevendo um texto para televisão e precisávamos definir as características dos personagens; lá pelas tantas, começamos a pensar quem era o pai, se o pai estaria vivo, etc. Sai-me com a seguinte: Hebe Camargo para ser o pai de uma das personagens. Sim, operou e começou a se vestir daquele jeito. Sei lá porque estou dizendo isso. Talvez porque humor seja uma coisa muito mais fácil quando há a presença do interlocutor. É preciso um certo calor. E os processos variam muito. Agora mesmo, estou escrevendo, de brincadeira, uma história a quatro mãos. Não há idéia original, ou tema. Recebo uma carta e, vestido do personagem, respondo-a. E, assim, a história vai sendo escrita. Parece uma brincadeira de criança e é mesmo lúdico o ato de escrever em parceria. O imprevisto, o conflito, o julgamento, os becos sem saída, tudo, enfim, é estimulante. Nem sempre dá para fazer ao mesmo tempo e, assim, por exemplo, escrevemos vários capítulos resumidos e depois cada um preenche parte destes capítulos e depois o outro copidesca, e por aí vai. É divertido e muito mais rápido. O trabalho de parceira musical também pode se dar de várias formas. Às vezes, faço uma melodia para uma letra existente, o que é mais difícil e em geral a gente faz uma letra para uma melodia apresentada. O melhor, porém, é chegar um na casa do outro, de violão na mão, e bater um papo sobre o que se quer dizer e depois começar a preencher as lacunas. Preencher as linhas pontilhadas. Palavras que se encaixam, versos que cabem em melodias, pausas, tudo vai sendo decorado na medida em que se toca e canta. O que ficar decorado passa-se a limpo. O que não se decora não merece ser lembrado.

7. Acredito que poucas pessoas saibam que você gosta de dança. A dança é importante, mas é uma outra linguagem – a do corpo. Você poderia nos falar um pouco dessa experiência e da relação com as suas outras atividades, pois no teatro e nas apresentações musicais o corpo está em plenitude expressiva.

Léo Jaime: O corpo fala e sente. O corpo é muito mais importante para a linguagem cênica do que a palavra, uma vez que esta necessita desse e o inverso não acontece. É perfeitamente possível contar uma história sem dizer uma palavra. E pode-se viajar o mundo contando essa história com um grande potencial de cognição, de leitura, de compreensão, mesmo que se entre em contato com as culturas mais ímpares. Não sou um grande ator, mas o fato de ter feito e entendido a linguagem da dança me possibilita entender essa linguagem e usá-la com mais facilidade. O trabalho de ator, para mim, não começa por decorar o texto ou experimentar as inflexões. O primeiro passo é perceber no texto, como é a figura daquela personagem. Como anda, como mexe as mãos na hora de falar, como olha, como se posiciona, como são os ombros e como são os passos. Isso feito, pode-se abrir a boca que a verdade sairá. Quando mais jovem, eu temia muito, por causa da timidez, cenas de muita intensidade emocional. Depois, compreendi, fazendo trabalhos de corpo e até mesmo terapia corporal, que não é preciso mais do que acionar determinadas partes do corpo para que a emoção aparecesse. É meio chato ficar contando essas coisas, porque parece que estou querendo dar aula de alguma coisa, quando sou muito autodidata e, claramente, mais para o intuitivo do que técnico em tudo. Mas o choro está no tom de voz. A gargalhada está também lá, guardada em alguma tonalidade. Se você faz um AAAAA bem agudo, angustiado, o choro sai sem que você tenha que pensar em alguma desgraça ou mentir. Atuar não é mentir. É estar naquele lugar, fazendo aquelas coisas que a personagem faz e olhando o mundo do ponto de vista dela. Falando como ela, vivendo ela, sendo ela. Se você berra com convicção, uma quantidade enorme de adrenalina circula pelo seu sangue e seu rosto fica vermelho. É preciso encontrar o tom da raiva e saber controlar tudo por trás daquela explosão de emoção. A gente diz que é divertido atuar, porque é um alívio todo final de espetáculo. Para mim é a mesma coisa que trapézio. Sem rede. Televisão é com rede. E estar consciente por trás dessa figura que incorporamos: é difícil e dá trabalho. É preciso memorizar uma quantidade enorme de informações para construir uma rotina. Essa rotina é repetida todas as noites e todas as vezes; se o jogo é bom, sai diferente. Há sempre a figura do inesperado e improvável rondando.

8. Eu ainda queria aproveitar uma outra faceta de seu trabalho como ator, que tem sido o cinema: você atuou tanto em As sete vampiras, de Ivan Cardoso, como em Rock estrela, de Lael Rodrigues (que eu me lembre, assim, de improviso). O cinema é outra experiência, diferente da encenação de um intérprete cantando a música, do ator em novela de TV, ou do ator em teatro. Esta última, no meu entender, seria a mais completa, pois além da relação "corpo-a-corpo" com o público, existe a vivência plena da situação. Mas vários atores de teatro gostam de fazer cinema. E você?

Léo Jaime: Cinema é uma coisa especial. Não há, nas mãos do ator, a linha da história. Há que haver a entrega e há, sobretudo, que se prezar o minimalismo. O cinema é mais espetacular que o teatro. Nossa figura fica gigantesca no escuro do cinema. E qualquer coisa é possível no cinema. Tudo mesmo. Realmente é muito gostoso fazer cinema pelas razões opostas das que é bom fazer teatro. O cinema é o instante eternizado em 24 fotogramas por segundo. Há uma outra temporalidade. O barulho da câmera ligada é um fetiche. ZZZZZZZZZZZZZZZZ. E o jogo é com aquilo ali. Com a lente. A história entra por ali. É com ela que você fala. Tudo em volta é mentira e ninguém está vendo porque o câmera só mostra o que é do sonho. Pode ser uma bobagem dizer isso, mas, às vezes, se o plano é fechado, a gente só veste a personagem da cintura pra cima e é curioso estar assim vivendo uma história pela metade, literalmente. Há que se saber jogar com aquele retângulo e principalmente se deixar dirigir. A entrega e o despudor precisam estar aliados à prudência e comedimento. É uma linguagem que nos possibilita o eterno. O teatro é fugaz.

9. Eu vou arriscar, aqui, uma pergunta, aproveitando a deliciosa irreverência que sempre pontuou a sua criação: você se considera um "antropófago", no sentido dado por Oswald de Andrade? Ou você prefere ser nomeado de "inclassificável"?

Léo Jaime: Operário é um termo bastante apropriado, mas não o uso por causa do tom "politizado" que o termo ganhou durante a ditadura. "Antropófago" é, evidente, uma excelente classificação. "Inclassificável", melhor ainda. O Brasil precisa aprender a distinguir o que é desclassificado do que é inclassificável. Sigo o Chacrinha: nós viemos para confundir e não para explicar. Mesmo sabendo que o óbvio também é filho de Deus. Vai ver eu sou, como a minha vida, uma obra em andamento.

10. Bem, Léo, uma última palavra...

Léo Jaime: Bem, Gilda, como vês, não tenho muito a acrescentar: tudo é muito difícil para mim e duvido que tenha uma boa compreensão sobre tudo o que faço. Sou, como a maior parte das pessoas e coisas, mais ou menos. Mas acho que a exposição desses pensamentos, ainda que com sua incompletude, pode servir de algo a quem, como nós, é fascinado pela palavra.

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