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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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O primeiro dia

Sergio Narcizo
(28/08/2003)

Há muito eu buscava por esse momento embora, por razões alheias ao meu querer já o tivesse desprezado no passado, sempre o desejei, e muito. Hoje se acabam os subterfúgios, obstáculos, parafernálias tecnológicas, monólogos… Estaremos frente a frente, eu e o início da minha eternidade.

Se nos últimos tempos eu estava ansioso, muito pior foi a última noite. Todos os medos, preocupações, alegrias e esperanças misturavam-se em mim. Verdadeiramente, o universo dava voltas em minha cabeça e me encontrava seguro de que podia pegá-lo com as mãos, como um Deus que eu era. O que se mostrava bastante razoável, uma vez que, apesar de minha pequena participação na criação, reinvidicava minha parte Deus.

Duas da tarde, estou só no centro do universo – ainda bem que tenho cigarros.

Einstein apresenta-se com uma clareza absoluta para mim. A relatividade das coisas e o tempo escoando mais lentamente no espaço de tão claros me cegam e mais nada enxergo. Nunca havia conversado tanto comigo, converso sobre tudo, de Narciso a Dorian Gray, mas só um eu fala. Seria isso um monólogo? Não sei.

O Deus Eu, agora "onimpotente", aguarda. Calma e ansiosamente aguarda.

Mais de uma hora se passou e aqui não pode fumar.

– Droga! Tenho medo de sair para fumar e ele chegar.

Quase quatro da tarde. O que será que está acontecendo? Está demorando muito.

Surge uma mulher do outro lado do vidro. Só pode ser ele no colo dela. Sim, era ele. Fico apático e acelerado. Não consigo gritar, não consigo pular, não consigo rir, não consigo chorar e nem consigo me sentir completamente apaixonado como havia idealizado – me condeno por não gritar, por não pular, por não rir, por não chorar e por não estar perdidamente apaixonado como havia idealizado. Só consigo levantar minha mão direita, esticar o dedo indicador para ele e dizer:

– E.T.

E o universo se desfez diante de mim.

Preciso dormir um pouco.