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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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BAÚ LITERÁRIO

Revirando meu baú literário, detenho-me diante de dois distintos reis e seus respectivos impérios: o primeiro, o Dr. Aristarco Argolo de Ramos e o seu Ateneu (1); o segundo, João Romão e o seu Cortiço (2). Aristarco, renomado pedagogo, oriundo "da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte", diametralmente opõe-se a Romão, "empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo".


O Ateneu

Aristarco, homem de educação refinada, de berço de ouro, bem casado e pai de uma linda jovem. Romão, homem comum, trabalhador, de origem humilde, que faz do balcão que provêm o seu sustento a sua própria cama e amancebado com uma escrava. Afinal, o que torna tão próximos dois seres aparentemente tão distantes um do outro? Creio eu ser o fascínio pelo exercício do poder e pela manipulação daqueles que os cercam, para que seus propósitos sejam alcançados. No caso de Aristarco, arbitrário e vaidoso, hipócrita e financista, proporciona-lhe prazer a cultura de um certo terrorismo psicológico e físico, a pretexto de rigor pedagógico, para impor-se a seus súditos: os alunos do Ateneu. Deixa cair sua máscara de educador dedicado, assumindo sua verdadeira face de arguto empresário e especulador, eficiente gerente que conduz com mão de ferro seu magnífico colégio/império que, além do ensino, apresenta um ambiente repleto de egoísmo, injustiça, ambição e hipocrisia.


O Cortiço

Já Romão, homem ambicioso, cuja meta é adquirir o máximo de dinheiro que puder, utiliza-se de múltiplos artifícios para que seus objetivos sejam alcançados: constrói, em um terreno ao lado de sua venda, um grupo de casas populares com o intuito de alugá-las; apropria-se de uma pedreira existente nos fundos do terreno e forja uma carta de alforria para Bertoleza, fazendo dela útil instrumento para atingir seus objetivos. Mais tarde, não sente o menor remorso em livrar-se da escrava para casar-se com a filha de seu vizinho, o Miranda, e assegurar, assim, um lugar na "nobre" e "respeitada" sociedade.

Revela-se nesse ponto um divisor de águas pois, enquanto Aristarco veste a máscara de dedicado educador para preservar o domínio de um império já consolidado, Romão, ao desnudar sua verdadeira face de devorador de almas, se estabelece como o primeiro e único, ao mesmo tempo monarca, legislador e juiz de um império ainda em formação, fundado única e exclusivamente por ele e para ele. Por outro lado, apresentam o Ateneu e o Cortiço tantos traços em comum entre si que parecem fundir-se em um só corpo, como se vida própria tivessem, como se regras e limites não houvesse. Acabam por humanizar-se, o que se torna latente pela necessidade de se transgredir o poder estabelecido; paixão e desejo se confundem; aflora a sensualidade através das doces figuras de Ângela e de Rita Baiana; homens matam-se por causa daquela; um pai de família, trabalhador e consciente, perde a cabeça, destruindo seu lar por esta. Afloram sentimentos de amizade, traição, lealdade e vingança, sentimento este provocador do fogo que acaba por consumi-los, tal como as ardentes chamas devoradoras da velha Roma de Nero.


O Ateneu

Aqui, parece o destino pregar uma peça, como que por mero capricho, como se um ourives fosse, fazendo passar pelo fogo os dois impérios, como que a prová-los e purificá-los de suas expostas mazelas. E, quanta ironia! O Ateneu do Dr. Aristarco, de tantas glórias, sucumbe em meio a tanta sujeira e hipocrisia, reprovado em seu teste maior, enquanto que O Cortiço do comum cidadão Romão, como Fênix ao renascer das cinzas e totalmente renovado, torna-se até mais aristocrático, chegando ao ponto de transformar-se em uma respeitável vila.

Sendo assim, até que ponto convivem em nós, simultaneamente, o ilustre Aristarco e o simples Romão?


(1) POMPÉIA, Raul, O Ateneu, Rio de Janeiro, Klick Editora, 1997.
(2) AZEVEDO, Aluísio, O Cortiço, Rio de Janeiro, Klick Editora, 1997.