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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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NA SALA DE JANTAR


"O olho do tempo" - gravura de Salvador Dalí

Fábio Fabretti (*)

"... mas as pessoas da sala de jantar..."
Os Mutantes

A família estava, como de costume, concentrada na sala de jantar ampla e obscura. As cortinas grossas deixavam perpassar alguma claridade, suavizando o papel de parede com a estampa desbotada. Em volta da comprida mesa feita de tábuas largas e enegrecida, iguais às de um ataúde, a família permanecia reunida, velando as horas como se estivesse ao redor de um caixão, todos eretos em suas cadeiras, as bundas acomodadas nos estofados assentos enquanto as costas respaldavam-se, tesas, nos altos encostos.

A família olhava imperial para a infinidade de talheres que cintilavam sobre a tolha estreita e magra, de franjas rendadas, sustentando os copos de cristais, os pratos de cerâmica e os garfos e as facas prateadas, além de um vaso de flores mortas que enganavam estarem vivas, contrastando no centro da mesa.

A família preservava o silêncio. Religiosa. Mortuária. A mãe, severa e pomposa, estendia sobre a mesa o seu clínico olhar, verificando se tudo corria de forma perfeita, preocupada com os detalhes. A avó, franzina e bem agasalhada, tentava, disfarçada, limpar com o cuspe uma sujeirinha encrostada na barra da saia, provavelmente causada pela refeição anterior. A filha mais velha, de aparência pálida e impaciente, roía ferozmente uma lasca que surgira no esmalte da sua unha. E as crianças, um casal quase da mesma idade, afogavam o riso de coisas sem graça, ocultando suas bocas com as conchas das mãos, esperando a empregada uniformizada terminar de servir as tigelas com seu ar de superior inferioridade.

O interrompível, então, só era quebrado quando chegava o último membro familial, o chefe da família. Um senhor que mantinha os músculos faciais imóveis, e que se sentava à cabeceira ganhando as demais atenções com o arrastar da sua cadeira. Como em um código não declarado, ele encarava os ponteiros do relógio na parede à frente, e levantava a sua taça diante da empregada, que a enchia com uma bebida qualquer. O patrono mantinha a taça estendida, em direção a todos, como se os saudasse, mudo e sério. Depois conduzia o copo à boca, sedento, e finalmente sorria, após o prazeroso gole, aprovando com um ruído gutural.

A família iniciava, desse modo, a comilança. Juntos. Barulhentos. Maquinais.

O patriarca decorava um democrático prato com as variedades postas. A avó destrinçava o frango em busca das partes de sua preferência. As crianças amassavam o feijão com a colher e derrubavam os grãos do arroz. A filha mais velha comia desmotivada o seu verdejante prato de hortaliça e verdura. E a mãe sorvia delicadamente a sopa, vigiando atenta a todos.

O espaço preenchia-se apenas pelos ruídos da mesa, com a empregada a postos, aguardando uma ordem enquanto assistia às bocas mastigarem. Triturarem. Engolirem. Olhares vazios. Talheres batendo nos pratos. E o tempo escorrendo dos ponteiros do relógio de pêndulo, que decepava o instante.

Por fim, quando o último prato era deixado, o chefe do clã parecia preparar-se para um triunfal arroto, mas detinha-se em acariciar a barriga e curvar-se para trás, em uma pose de dionisíaca satisfação. A mãe observava, analítica e orgulhosa, os pratos encardidos. A avó esperava, cabisbaixa, as ânsias de vômitos que sempre a acometiam após a comida. As crianças travavam uma discretíssima guerra das sobras dos seus pratos e a filha mais velha roía agora declaradamente as unhas.

A família, então, rapidamente se dispersava, quase juntos. O patriarca era o primeiro a sair, verificando o seu relógio de pulso, apanhando uma pasta e beijando de longe a esposa, que arrastava pelas mãos as crianças, rumo ao quintal. A filha subia apressada os degraus da escada que levavam aos quartos. E a avó, trêmula, eliminava seus gases, sendo conduzida ao banheiro pela empregada, que voltaria em breve para recolher a louça e desová-la na máquina de lavar.

Um a um, entre sorrisos polidos e olhares urgentes, inexpressivos, a família retirava-se. Cada um por uma porta. Cada qual para a sua vida. E a sala de jantar teria suas cortinas cerradas, sua mesa limpa e suas cadeiras organizadas, engolida pelas horas mortas.

Até que a família lá estivesse novamente reunida, algumas horas mais tarde, em uma próxima refeição. Na sala de jantar. Quando mais uma vez não estariam juntos.


(*) Fábio Fabretti é escritor e assistente de pesquisa, aluno do último período do curso de Letras. Escreve também para o teatro e televisão.

Cartas para a coluna:
ficcionista@yahoo.com.br